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As cores das eleições para governadores

Osvaldo Bertolino Publicado em 24.11.2014

O enfrentamento entre forças ideológicas antagônicas no plano nacional se reproduziu nos estados. A disputa política, embora muitas vezes sem uma definição clara das alianças por um campo ou outro, evidenciou bem o sentido do acirramento das campanhas, que reproduziu tendências históricas da sociedade brasileira.

Vermelho ou azul? As cores usadas para marcar a geografia dos votos dos candidatos no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves, servem também para colorir o mapa dos governadores eleitos. Elas estampam, convencionalmente, o pano de fundo da disputa, os fatores conjunturais que determinaram os resultados. No curso dos debates eleitorais não houve praticamente nenhum aspecto dessa conjuntura que não se converteu em polêmica renhida. A realidade permeada por problemas que se complicaram à medida que o país avançou nas mudanças desde que Luis Inácio Lula da Silva se elegeu presidente da República em 2002 impôs a necessidade de propostas que respondessem a novas demandas.

As eleições, portanto, ocorreram em um cenário de elevação da complexidade dos obstáculos ao desenvolvimento do país e se constituíram um relevante acontecimento da luta historicamente travada pelas forças progressistas contra agrupamentos ligados a interesses oligárquicos e conservadores. A intensidade das cores espalhadas pelo mapa do país, contudo, leva à indagação sobre o grau em que houve o choque entre essas duas correntes e em qual medida os ideais mudancistas se confrontaram com os da direita. Teriam sido esses os fatores determinantes para definir os campos na campanha eleitoral — embora essa contraposição nem sempre tenha se revelado nitidamente nos estados — e configurariam o cenário composto pelas mãos do eleitorado brasileiro? Pode-se dizer que sim.

Fiel aliado tucano

Considerando as cores convencionadas, o vermelho encarnado obteve uma ligeira vantagem sobre o azul turquesa no mapa dos governadores eleitos. Acre, Ceará, Piauí, Bahia e Minas Gerais elegeram candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT); o Maranhão elegeu, pela primeira vez na história, um governador do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) ganhou no Paraná, no Mato Grosso do Sul, em São Paulo, em Goiás e no Pará. No balanço de perdas e ganhos, o vermelho também leva ligeira vantagem: o PT perdeu o Distrito Federal e o Rio Grande do Sul, mas ganhou o estratégico estado de Minas Gerais, governado atualmente pelo PSDB. O fiel aliado tucano, o Democratas (DEM), por sua vez, desapareceu do mapa de governadores.

O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), uma força ponderável no jogo político nacional, fez sete governadores: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, Alagoas, Tocantins e Rondônia. Já o Partido Socialista Brasileiro (PSB), que se dividiu nos estados entre o vermelho e azul, fez três (Distrito Federal, Pernambuco e Paraíba), seguido do PSD e do PDT, que venceram em dois estados cada (Santa Catarina e Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Amapá, respectivamente). O Partido Republicado da Ordem Social (PROS) e o Partido Popular (PP) elegeram um governador cada (Amazonas e Roraima, respectivamente).

Deficiências políticas

As forças de esquerda ampliaram suas posições (o PT tinha cinco governadores e o PSDB elegeu oito em 2010), mas é necessário assinalar que nos estratégicos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná os resultados foram pífios. Pode-se dizer que concorreram para isso, basicamente, as dificuldades para se formar um campo de centro-esquerda mais amplo; nos três estados, a disputa se deu com a presença de fortes candidatos do PMDB. As campanhas das coligações de esquerda nesses estados tiveram dificuldades para dialogar com camadas substanciais da população, revelando contradições, deficiências políticas e debilidades organizativas.

Durante a campanha, os demais partidos oscilaram entre o vermelho e o azul. Os governadores eleitos do PMDB (que fez parte da coligação presidencial liderada pelo PT) no Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, e no Espírito Santo, Paulo Hartung, assumiram a campanha do tucano Aécio Neves; já o candidato do PSB (partido que em 2010 elegeu seis governadores e no segundo turno de 2014 apoiou o candidato do PSDB) da Paraíba, Ricardo Coutinho, fez campanha para Dilma Rousseff (os demais governadores do PSB eleitos, Paulo Câmara em Pernambuco e Rodrigo Rollemberg no Distrito Federal, apoiaram o candidato tucano).

Forças partidárias

No PDT, o governador eleito do Amapá, Waldez Góes, apoiou Dilma Rousseff, enquanto Pedro Taques, do Mato Grasso, optou por Aécio. Já a governadora eleita de Roraima, Suely Campos (PP), se disse neutra — assim como José Melo, do Amazonas (PROS), apesar do espaço aberto para Aécio em seu programa na TV e no rádio, atendendo pedido do seu principal cabo eleitoral, o prefeito de Manaus, Artur Virgílio Neto (PSDB). Essas posições indicam, na verdade, que o quadro partidário brasileiro não contempla, em sua plenitude, a acentuada disparidade de propostas que disputam a hegemonia do país, formando dois leques principais de opções com polos antagônicos.

Para se compreender as tendências reveladas nas eleições, portanto, precisa-se de uma análise dos resultados obtidos pelas diversas forças partidárias. Ao empreendê-la, porém, deve-se ter em conta as particularidades dos partidos e não tomar cada sigla como expressão global e unitária de determinada posição política. Muitas vezes eles são agrupamentos mais ou menos heterogêneos, sem conteúdo programático definido, incluindo forças com interesses sociais e políticos contraditórios, marcados por regionalismos e até pelo personalismo. Como decorrência desses fatores, as alianças fechadas principalmente em torno dos postos de governadores influíram para tornar o panorama extremamente complexo.

Correntes ideológicas

Nem sempre as forças se cristalizaram suficientemente como propostas unitárias. Mas isso não significa que as coligações nos estados inviabilizam esforços para a ampliação, em âmbito nacional, do campo governista. As injunções partidárias, os interesses pessoais e contradições secundárias muitas vezes dificultaram a unificação de todas as correntes governistas em torno de candidaturas comuns. Quando as forças progressistas se dividiram ficou evidente que a contradição maior não apareceu claramente diante do eleitorado, impossibilitando que ele se decidisse levando em conta o panorama nacional.

Em muitos casos, questões regionais ou locais da competição, interesses personalistas, alianças de conteúdo puramente utilitário e ausência de princípios programáticos se sobrepuseram às visões das tendências fundamentais em disputa. Em essência, porém, elas estavam presentes e se opunham sob as mais variadas formas de combinações políticas. Disputas que aparentemente se deram em torno de nomes ou de interesses de grupos, sem qualquer conteúdo ideológico ou sem relação perceptível com os problemas nacionais, expressavam, no fundo, o conflito fundamental — não é possível existir líderes ou grupos sem ligação direta ou indireta, consciente ou inconscientemente, com as aspirações dos interesses representados pelas grandes correntes ideológicas opostas.

Caminho viável

Seria esquematismo, ou até mesmo ingenuidade, portanto, conceber algo alheio à complexidade do fenômeno político brasileiro, à essência do acirramento da disputa que varou o país de alto a baixo. A temperatura elevada da polêmica nada mais é do que a tradução do crescimento da influência do pensamento progressista brasileiro, que elevou-se à medida que o país gerou novas demandas. As forças governistas, antes tidas como esperança, apareceram como caminho viável para o desenvolvimento do país; os êxitos relativos dos conservadores foram tendenciosamente exagerados pela mídia e maquiados por seus representantes para apresentá-los como aprovação de suas propostas. 

Examinados mais de perto, eles em nada indicam uma inclinação da população brasileira para a orientação direitista, traduzida na falácia midiática da divisão do país. A campanha dos candidatos dessa coloração, feita à base de ódios e vaticínios catastróficos, não ocultou a essência das aspirações por mais mudanças. O voto desorientado, patrocinado pela sistemática e brutal campanha da mídia contra o campo governista, foi o grande responsável por votações expressivas em candidatos da direita em alguns estados — principalmente em São Paulo e no Paraná —, favorecidos também pela dispersão das forças de centro-esquerda.

Caso omisso

A apreciação objetiva dos resultados, portanto, desmente as análises capciosas que tentam desqualificar os resultados do campo governista. O poder de atração das causas sociais se manifestou com sua transformação em bandeira eleitoral também de numerosos candidatos com notória coloração conservadora. Mascarados de adeptos do progresso social, por saberem que se ousassem combatê-lo frontalmente seriam fragorosamente derrotados, venderam para o eleitorado a ideia de que suas aspirações independiam de princípios políticos e ideológicos. Nos estados em que o campo governista se apresentou unido, ficou mais difícil para a direita enganar os potenciais influenciados pela propaganda falaciosa da direita.

É preciso constatar, ainda, que algumas campanhas não sensibilizaram grande parte do eleitorado pela falta de vinculação entre as soluções gerais dos problemas brasileiros e os interesses imediatos vitais do povo. Ficou demonstrado que o campo governista não pode, em hipótese alguma, fazer caso omisso das condições de vida das massas, não só porque o bem-estar é um dos requisitos essenciais como também a participação popular é imprescindível para o desenvolvimento econômico e social do país. Essa dinâmica política, nem sempre devidamente compreendida, possibilitou ao conservadorismo capitalizar o descontentamento de certos setores da população diante da ausência de soluções efetivas para as dificuldades enfrentadas em serviços públicos essenciais.