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A crise e a política da crise

Elias de Oliveira Sampaio Publicado em 23.07.2015

Maior do que uma crise em si, há um “sentimento de crise” pairando sobre nosso país numa dimensão muito maior, até o momento, do que os efeitos concretos dos problemas que vem se estruturando.

O ano de 2015 vem se desenhando como o primeiro ano de uma série de anos muitos difíceis que podem estar por vir. Não se trata de pessimismo e muito menos de desesperança, mas o ambiente social, político e econômico brasileiro se encontra em um momento de tensão jamais visto após a ditadura militar. Maior do que uma crise em si, há um “sentimento de crise” pairando sobre nosso país numa dimensão muito maior, até o momento, do que os efeitos concretos dos problemas que vem se estruturando.

Uma das explicações plausíveis para tal argumentação são os mais de vinte anos, praticamente ininterruptos, de melhoria relativa de bem-estar social. Em cenários como esses, a simples possibilidade de alguma inflexão que traga qualquer prejuízo para esse bem-estar, por menor que seja, pode levar alguns atores sociais a ter uma perspectiva mais assustadora do que, de fato, vem ocorrendo no nosso dia a dia ou possa vir a acontecer.

Não estamos alienados em relação aos problemas reais que vimos enfrentando, desde as questões ligadas a corrupção, exaustivamente divulgadas pelos meios de comunicação e pela sociedade política, até os desdobramentos da crescente crise de confiança nos governos, na economia e, especialmente, na política, cujos efeitos deletérios nessas respectivas áreas da sociedade já vêm sendo sentidos a olhos nus. No entanto, existe algo anterior a tudo isso que pode não justificar a crise, mas nos ajuda a entender essa supervalorização da “sensação de crise”: parte significativa de nossa população, principalmente os jovens e os adultos jovens, nunca se depararam, individualmente, com a instabilidade macro política e macroeconômica, nos termos que estamos observando hoje.

Se considerarmos o período de vinte e um anos em que a economia brasileira vem experimentando crescimento econômico moderado e estabilidade monetária, podemos inferir que os jovens e os adultos jovens,  nunca experimentaram a concretude do que é estar desempregado, com a grana sempre mais curta do que os preços de mercado e vulnerável a uma política econômica em processo de desestabilização. Por outro lado, não existe possibilidade razoável de que alguém que sentiu na pele esse processo naqueles momentos da economia brasileira possa ter algum sentimento saudosista. Ao contrário, para essas pessoas que estão chegando ou que chegaram a meia idade, a situação é até mais assustadora: ou estão temendo pela manutenção do nível de conforto e de renda de sua família adquirido nos últimos tempos; ou temendo por não ter mais a possibilidade de dar o salto qualitativo em sua própria vida e dos seus, por ter se atrasado no aproveitamento das oportunidades econômicas no período de vacas gordas que parece ter chegado ao fim – pelo menos no médio prazo – para nós brasileiros.

O que torna tudo isso muito mais complexo é o fato de que parte significativa dos meios de comunicação de massa e da sociedade civil  –  aparelhos privados de hegemonia – tem se aproveitado de forma muito competente desse momento de imaturidade Política, por parte de alguns atores políticos e sociais, para catalisar elementos críticos de conjuntura, elevando a sensação da temperatura da crise a graus muito mais elevados do que a realidade concreta. O objetivo disso tudo é consolidar de uma vez por todas, e em nível extremamente profundo, a perda da confiança da sociedade brasileira nas lideranças de pensamento político que sustentaram os projetos de poder em disputa no país a partir da redemocratização nos anos de 1980. Simples assim!

Esse nos parece o real motivo para que o conservadorismo e o reacionarismo deletérios e traiçoeiros estejam a cada dia se apresentando de forma mais cínica nas diversas esferas da sociedade política e comunitária. A disputa de hegemonia que vinha, de certa forma, equilibrando a gestão da economia, da política e do aparelho de estado, mediada pela intervenção dos movimentos sociais cada vez mais organizadas, parece ter chegado a um profundo ponto de inflexão sem a projeção bem delineada de qual direção orientativa a ser seguida a partir de agora.

Esse aumento da tensão entre a hegemonia de políticos de centro-esquerda e de centro-direita que vinham se alternando no poder desde o retorno à democracia, trouxe como externalidade negativa um vácuo político significativo. Nessa conjuntura, proliferam em diferentes espaços da sociedade os intelectuais orgânicos que constroem e reconstroem as mais estapafúrdias teses reacionárias, inclusive golpistas, juntamente com  os “capitães do mato” que, sem poder utilizar a violência física de outrora para impor a ordem de seus coronéis e senhores de engenho, usam dos mais diversos artifícios de constrangimentos em tocalhas contra autoridades políticas em momentos da vida privada como restaurantes, hospitais e aeroportos e  até mesmo demonstrações públicas de machismo e demais formas de intolerância em relação a  nossa maior representação institucional de Estado que é a Presidenta da Republica.

Infelizmente, nos parece que é esse é o preço da política e da nossa ainda jovem democracia. Sendo assim, acreditamos que a ação corretiva mais eficaz para todo esse processo deve vir do mesmo manancial Político que fez com que, pela primeira vez na história do país, tivéssemos sucessivos governos vindos de classes populares, com orientação democrática e socialista. Por seu turno, faz-se necessário que as lideranças governamentais e dos partidos que vem dando sustentação ao projeto político iniciado em 2003, especialmente o Partido dos Trabalhadores, externem e operem de maneira inequívoca que, do ponto de vista político-institucional e econômico foram construídas bases sólidas suficientes para proteger as conquistas da democracia e do povo brasileiro dos últimos anos frente a possíveis situações de golpes de qualquer matiz ideológica.

Se aqueles que estão a frente das diversas dimensões da disputa política e social numa nação de dimensões continentais e um a player econômico mundial como Brasil, não tiver a mais profunda convicção das tarefas que foram devidamente cumpridas, mas também, daquelas que ainda estão por se realizar, realmente, vamos continuar daqui para frente a “malhar em ferro frio”  imaginando que a verdadeira solução para os nossos problemas pode vir de Chicago.

*Elias de Oliveira Sampaio é economista do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional (PGDR) da Universidade do Estado da Bahia – UNEB e Militante do Partido dos Trabalhadores/Bahia. Foi Secretário Estadual de Promoção da Igualdade (2011 – 2014), diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia – PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011

Publicado em Agência FPA.