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Qual a verdadeira agenda do estado policial norte-americano?

Paul Graig Roberts Publicado em 26.11.2013

Por que razão precisa Washington de atacar a liberdade de imprensa e de expressão, fazer tábua rasa da legislação que protege denunciantes como Bradley Manning e Edward Snowden, criminalizar a dissidência e os protestos e ameaçar jornalistas como Julian Assenge, Glenn Greenwald, e o repórter da Fox News James Rosen? De que modo é que manter os cidadãos na ignorância dos crimes do seu governo deixa os cidadãos a salvo dos terroristas? O único propósito destas perseguições é proteger o poder executivo da revelação dos seus crimes.

No meu último artigo, realcei o fato de que é importante para os cidadãos norte-americanos exigir saber quais são as verdadeiras agendas por detrás das guerras que os regimes de Bush e Obama escolheram. Estas são grandes guerras de longa duração, cada uma com duração duas ou três vezes superior à da II Guerra Mundial.

A revista Forbes reporta que um milhão de soldados dos EUA tenham sido feridos nas guerras do Iraque e do Afeganistão.

O Russia Today afirma que o custo de manter cada soldado dos EUA no Afeganistão subiu de 1,3 milhões de dólares por soldado para 2,1 milhões de dólares.

Matthew J. Nasuti relata, no Kabul Press, que custa aos contribuintes norte-americanos 50 milhões de dólares matar um soldado talibã. Isso significa que custaria mil milhões de dólares matar 20 guerrilheiros talibã. Esta é uma guerra que apenas pode ser ganha a custo da total bancarrota dos EUA.
Joseph Stiglitz e Linda Bilmes estimaram que os actuais custos directos e futuros já incorridos das guerras do Iraque e do Afeganistão é de pelo menos 6 trilhões de dólares.

Por outras palavras, é o custo destas duas guerras que explica a explosão da dívida pública dos EUA e os problemas económicos e políticos associados a esta enorme dívida.

O que ganharam os EUA em troca de 6 trilhões de dólares e um milhão de soldados feridos, muitos com gravidade?

No Iraque existe actualmente um regime islâmico xiita aliado com o Irão, no lugar de um regime secular sunita que era inimigo do Irão, tão ditatorial um quanto o outro, a presidir os destroços da guerra, violência contínua em níveis tão elevados como aquando da tentativa de ocupação pelos EUA, e malformações congénitas extraordinárias com origem nas substâncias tóxicas associadas à invasão e ocupação dos EUA.
No Afeganistão estão os Talibã, que nunca foram vencidos e se revelam aparentemente invencíveis, e um tráfico de droga restabelecido que está a inundar o mercado ocidental de drogas.

A cereja no topo do bolo destes “sucessos” de Bush e Obama são as exigências, vindas de todas as partes do mundo, de que os norte-americanos e o antigo Primeiro-ministro britânico Tony Blair respondam pelos seus crimes de guerra. Certamente, a reputação de Washington caiu como resultado destas duas guerras. Nenhum governo em parte alguma é suficientemente ingénuo para acreditar em seja o que for que Washington afirme.

Isto representa custos muitíssimo elevados para guerras para as quais não temos explicação.
Os regimes de Bush e Obama criaram várias reportagens de capa: “Guerra ao Terror”, “temos de acabar com eles por lá antes que eles cheguem cá”, “armas de destruição massiva”, vingança pelo 11 de Setembro, Osama bin Laden (que morreu dos seus problemas de saúde em Dezembro de 2001 como foi amplamente divulgado na altura).

Nenhuma destas explicações é plausível. Nem os Talibã nem Saddam Hussein se envolveram em actividades terroristas nos EUA. Tal como os inspectores de armas informaram o regime de Bush, não havia armas de destruição massiva no Iraque. Ao invadir países muçulmanos e massacrar inocentes, mais provavelmente se criam terroristas do que se elimina. De acordo com a versão oficial, os sequestradores dos voos do 11 de Setembro e Osama Bin Laden eram sauditas, não afegãos ou iraquianos. No entanto, não foi a Arábia Saudita que foi invadida.

Democracia e governo que responda pelos seus actos são coisas que simplesmente não existem quando o poder executivo leva um país para guerras em nome de agendas secretas, a pretexto de reportagens de capa que constituem claras mentiras.

É igualmente importante colocar estas mesmas questões na agenda do estado policial norte-americano. Porque retiraram Bush e Obama a protecção da lei sobre as pessoas e a tornaram numa arma nas mãos do poder executivo? Como podem estar os norte-americanos mais seguros mediante o derrube das suas liberdades civis? A detenção por tempo indeterminado e a execução, sem o devido julgamento, são as marcas de um estado tirânico. É terrorismo e não uma protecção contra ele. Por que razão cada comunicação de cada norte-americano e aparentemente as comunicações da maioria das pessoas no mundo, incluindo os mais fiáveis aliados europeus de Washington, estão sujeitos a serem interceptados e guardados numa gigantesca base de dados dum estado policial? De que modo é que isto protege os norte-americanos dos terroristas?

Por que razão precisa Washington de atacar a liberdade de imprensa e de expressão, fazer tábua rasa da legislação que protege denunciantes como Bradley Manning e Edward Snowden, criminalizar a dissidência e os protestos e ameaçar jornalistas como Julian Assenge, Glenn Greenwald, e o repórter da Fox News James Rosen?

De que modo é que manter os cidadãos na ignorância dos crimes do seu governo deixa os cidadãos a salvo dos terroristas?

Estas perseguições a denunciantes nada têm que ver com a “segurança nacional” e com “manter os norte-americanos a salvo de terroristas”. O único propósito destas perseguições é proteger o poder executivo da revelação dos seus crimes. Alguns dos crimes de Washington são tão horrendos que o Tribunal Internacional emitiria uma sentença de morte caso os culpados pudessem ser levados a tribunal. Um governo que destrói as protecções constitucionais à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa de modo a evitar que os seus crimes sejam revelados é uma tirania.

Hesitamos em colocar estas questões e fazer até mesmo as mais óbvias observações por medo não apenas de sermos colocados numa lista de vigilância e apanhados numa qualquer acusação, mas também de que essas questões provoquem um ataque de falsa bandeira ou sejam usadas para justificar o estado policial que se instalou.

Talvez tenha sido este o caso dos atentados bombistas da Maratona de Boston. As provas da culpa dos dois irmãos foram relegadas para segundo plano relativamente às pretensões do Governo. Não há nada de novo no facto do Governo arranjar bodes expiatórios. O que é novo e sem precedentes é o bloqueio de Boston e dos seus subúrbios, o aparecimento de 10 000 tropas fortemente armadas e tanques a patrulharem as ruas e a revistarem sem mandato casas particulares, tudo em nome da protecção da população de um miúdo de 19 anos ferido.
Não apenas isto nunca aconteceu antes nos EUA, como também não poderia ser organizado em cima do momento. Tinha que ser algo já preparado para o evento. Foi um teste para o que há-de vir.

Os norte-americanos mais incautos, em especial os mais ingénuos conservadores legalistas e ordeiros, não fazem ideia da militarização até mesmo da sua polícia local. Eu vi forças da polícia local treinarem em clubes de armas. A polícia é treinada para disparar primeiro não uma mas muitas vezes, para proteger primeiro as suas vidas a todo o custo e não arriscar a vida fazendo perguntas. É por esta razão que o miúdo de 13 anos com a arma de brincar foi feito em pedaços. Fazer perguntas teria levado a perceber que se tratava de um brinquedo, mas questionar o “suspeito” poderia pôr em perigo a valiosa polícia que é treinada para não correr quaisquer riscos.

A polícia actua de acordo com o poder assassino da presidência de Obama: mata primeiro e depois acusa a vítima.

Por outras palavras, caro cidadão americano, a sua vida nada vale, a polícia que você paga não apenas não pode ser responsabilizada mas a vida de cada polícia é inestimável. Se você for assassinado no cumprimento do dever da polícia, isso não é grande problema. Mas não pense em ferir um capanga da polícia num acto de autodefesa. Quem pensa que é? Uma espécie de americano mítico livre e com direitos?

Tradução de André Rodrigues para o Diario.info