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Fuga de senador é ápice de escalada de maus momentos na relação Brasil-Bolívia

Monica Hirst Publicado em 02.09.2013

O episódio da fuga do senador Roger Pinto Molina é a culminância de uma escalada de maus momentos do relacionamento Brasil-Bolívia.

O envolvimento de diplomatas e políticos do Brasil no caso evidencia o grau de entrelaçamento entre os países.

Não se trata de articulação fortuita, mesmo que se manifeste em circunstâncias de torpe improvisação e risco. É resultado de abrangente costura bilateral que envolve interesses econômico-comerciais, político-diplomáticos e militar-policiais.

As condições assimétricas em que cada âmbito se configura fazem com que o resultado prático seja uma formidável capacidade de intervenção do Brasil em assuntos internos da Bolívia.

Trata-se de vizinho com o qual se manteve, até o início do século, relação marcada pela distância política e desdém econômico. A partir de 2003, o vínculo foi se ajustando às novas prioridades do Brasil em matéria de política externa, interesses energéticos e segurança pública.

A vitória de Evo Morales em 2006 foi vista pelo governo Lula como a da democracia boliviana, que favoreceria uma era de inclusão social, semelhante à do Brasil. Logo foi aplacado o impacto para a Petrobras da lei de nacionalização dos recursos energéticos, em reconhecimento à sua importância para a soberania do Estado boliviano.

Além do perdão de 95% da dívida com o Brasil, foram oferecidas à Bolívia linhas de crédito do BNDES para investimentos e estimuladas as transações comerciais bilaterais. E iniciou-se um abrangente programa de cooperação horizontal.

O relacionamento bilateral ganhou nova densidade.

O Brasil tornou-se ator com presença em todos os temas relevantes da agenda boliviana, o que ampliou suas responsabilidades e obrigava a um cuidadoso diálogo com o governo de Evo Morales.

A ação de diversos ministérios e Estados fronteiriços, bem como os interesses brasileiros em temas como exploração e exportação de recursos energéticos, obras de infraestrutura, desenvolvimento agrícola e combate ao narcotráfico, traduzia-se em influência em áreas de valor estratégico para a Bolívia.

Essa centralidade passou, em anos recentes, a ter cada vez menos reconhecimento no governo brasileiro.

Contratos energéticos foram reduzidos, projetos de cooperação foram suspensos e visitas presidenciais se viram postergadas. E cresceram as visões defensivas de movimentos sociais bolivianos diante de impactos ambientais e econômicos das ações de grandes empresas brasileiras. Além da reativação de sentimentos antibrasileiros, o cenário tornou-se propício a incidentes e imprevistos (como a fuga do senador). E, obedecendo à lógica da assimetria de poder, seria de esperar que estes seriam cometidos pelo lado mais forte.

Monica Hirst é doutora  em  Estudos Estratégicos Internacionais, Faculdade de Ciências Econômicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (mhirst@utdt.edu)

Publicado no blog Brasil no Mundo.