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A Síria e o gás sarin

Robert Fisk Publicado em 13.05.2013

“Foram usadas armas químicas”. Em dois estúdios canadenses de televisão se aproximam produtores mostrando essa mesma manchete. Eu lhes digo no ar que farei migalhas da “evidência” e, rapidamente, a matéria é retirada dos dois programas. Não porque não queiram usá-la – usarão mais tarde –, mas porque não querem que ninguém dê a entender que são besteiras.

Existe alguma forma de escapar do teatro das armas químicas? Primeiro, a “inteligência militar” israelense diz que as forças de Bashar Assad usaram/provavelmente usaram/podem ter usado/poderiam usar armas químicas. Depois Chuck Hagel, secretário estadunidense de Defesa, aparece em Israel para prometer ainda mais poder de fogo para o já excessivamente armado exército de Israel – sem mencionar em absoluto as mais de 200 cabeças nucleares israelenses – e depois se imbui de toda a “inteligência israelense” sobre o uso provável/possível de armas químicas pela Síria.

E em seguida o bonzão Chuck volta a Washington para dizer ao mundo que isto é “assunto sério. Necessitamos todos os fatos”. A Casa Branca diz ao Congresso que as agências de inteligência estadunidenses, provavelmente as mesmas da inteligência israelense, porque em regra geral dizem disparates em sintonia, têm “graus variáveis de confiança” nessa avaliação. Mas a senadora Dianne Feinstein, presidenta do comitê de inteligência do Senado – a mesma que defendeu as ações de Israel em 1996, quando massacrou 105 civis, a maioria crianças, em Qana, sul do Líbano –, anuncia que “está claro que na Síria foram ultrapassadas linhas vermelhas e devem ser tomadas medidas para prevenir seu uso em maior escala”. E em seguida sai a reluzir o mais antigo dos lugares comuns vigentes na Casa Branca, até agora usado exclusivamente com respeito ao provável/possível desenvolvimento de armas nucleares iranianas: “Todas as opções estão sobre a mesa”.

Em qualquer sociedade normal acenderiam as luzes vermelhas, em especial nas salas de notícias do mundo. Mas não: nós, os escribas, lembramos ao mundo que Obama disse que o uso de armas químicas na Síria seria uma “mudança no jogo” – pelo menos os estadunidenses admitem que seja um jogo – e nossos relatórios confirmam que, na verdade, ninguém confirmou.

“Foram usadas armas químicas”. Em dois estúdios canadenses de televisão se aproximam produtores mostrando essa mesma manchete. Eu lhes digo no ar que farei migalhas da “evidência” e, rapidamente, a matéria é retirada dos dois programas. Não porque não queiram usá-la – usarão mais tarde –, mas porque não querem que ninguém dê a entender que são besteiras.

A CNN não tem essas inibições. Quando perguntam ao seu repórter em Amã pelo uso de armas químicas, ele responde: “Não tanto como o mundo gostaria de saber… a psique do regime de Assad…” Mas alguém tentou? Ou simplesmente fez uma pergunta óbvia que um agente de inteligência sírio me fez na semana passada: se a Síria pode causar um dano infinitamente mais grave com seus bombardeiros MiG (cosa que sim, faz), para que ia querer usar armas químicas? E já que tanto o regime como seus inimigos se acusam mutuamente de usá-las, porque Chuck não tem tanto medo dos rebeldes como da ditadura de Assad?

Tudo volta ao mais infantil de todos os lugares comuns: que os Estados Unidos e Israel temem que as armas químicas “caiam em mãos perigosas”. Têm medo, em outras palavras, de que essas armas caiam no arsenal desses mesmos rebeldes, em especial islâmicos, aos quais Washington, Londres, Paris, Qatar e Arábia Saudita dão respaldo. E se essas são as “mãos perigosas”, é de se supor que as armas do arsenal de Assad estão em “boas mãos”. Assim aconteceu com as armas químicas de Saddam Hussein… até que lhe ocorreu usá-las contra os curdos.

Agora sabemos que houve três incidentes específicos nos quais, supostamente, se usaram gás sarin na Síria: em Alepo, quando ambos os grupos se acusaram (de fato, os vídeos vinham da televisão estatal Síria); em Homs, ao que parece em uma escala muito pequena; e nos arredores de Damasco. E, ainda que a Casa Branca parecesse ter passado por alto, três crianças refugiadas sírias foram levadas a um hospital na cidade de Trípoli, no norte do Líbano, com queimaduras profundas e dolorosas.

Mas existem alguns problemas. Os projéteis de fósforo podem infligir queimaduras profundas, e talvez causar defeitos de nascimento. Mas os estadunidenses não sugerem que o exército sírio tenha usado fósforo (que de fato é um químico); depois de tudo, soldados estadunidenses usaram essa mesma arma na cidade iraquiana de Fallujah, onde de fato há agora uma explosão de defeitos congênitos.

Suponho que nosso ódio ao regime de Assad se veria melhor refletido pelo horror aos relatórios de torturas cometidas pela polícia secreta Síria contra os detidos. Mas também nisso há um problema: apenas 10 anos atrás, os Estados Unidos “submetiam” homens inocentes, inclusive um cidadão do Canadá, a Damasco para serem interrogados ou torturados por esses mesmos policiais secretos. E se mencionamos as armas químicas de Saddam, há outro inconveniente: os componentes dessas vis armas foram produzidos por uma fábrica de Nova Jersey e enviados a Bagdá pelos Estados Unidos.

Desde já, não é essa a matéria em nossas salas de imprensa. Entremos em um estúdio de televisão e todos estão lendo jornais. Entremos na redação de um jornal e todos estão vendo a televisão. É osmose. E as manchetes são todas as mesmas: “Síria usa armas químicas”.

Assim funciona o teatro.

*Robert Fisk é o correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio. Tradução: Liborio Júnior

Publicado em Carta Maior