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EUA, China e os sapos saltadores no AfPak

M K Bhadrakumar Publicado em 01.04.2013

O miserável destino dos EUA hoje no Afeganistão: pressionados pelo tempo, com a retirada dos soldados da Otan já apressada, enquanto, na via paralela, as conversações de paz com os Talibã sequer começaram seriamente.

Há cerca de um ano, em coluna do Los Angeles Times, na qual previu com extraordinária perspicácia o quanto os EUA teriam de esforçar-se para negociar um acordo no Afeganistão quando afinal fossem forçados a isso, Peter Tomsen – que foi enviado especial do presidente Ronald Reagan às negociações com os Mujahideen nos anos 1980s e é, sem dúvida, especialista com riquíssima experiência regional, embora inexplicavelmente marginalizado pelo falecido Richard Holbrooke – comparou os esforços que os EUA teriam de fazer, a um vendedor que, no Hindu Kush, tente pesar sapos numa balança de dois pratos.

Tomsen escreveu:

“O vendedor põe os sapos num dos pratos. Mas, quando começa a carregar o segundo prato da balança, alguns dos sapos do primeiro prato já estarão, inevitavelmente, pulando fora da balança. Enquanto os repõe no prato da balança, são os sapos do segundo prato que escapam. Até o vendedor mais determinado acabará desistindo.”[1]

O prognóstico de Tomsen parece já ser o miserável destino dos EUA hoje no Afeganistão, e pressionados pelo tempo, com a retirada dos soldados da OTAN já apressada, enquanto, na via paralela, as conversações de paz com os Talibã sequer começaram seriamente.

De fato, a situação é até mais complicada hoje do que Tomsen podia prever no final dos anos 1980s, quando enfrentava os mal-humorados grupos de mujahideen baseados em Peshawar sob supervisão militar dos paquistaneses. Para começar, há hoje muito mais sapos no saco do vendedor, do que durante a “jihad afegã”; e, além do mais, há ali um Grande Sapo, que pode facilmente devorar sapos menores ainda no saco, se e quando quiser – ou que pode, no mínimo, devorar alguns sapinhos.

As últimas 72 horas devem ter sido experiência de padecimento para o secretário de Estado dos EUA, John Kerry. Depois de jantar (que a imprensa não divulgou) com o comandante do exército paquistanês, general Ashfaq Pervez Kiani, em Amâ, no domingo, quando aparentemente conversaram ‘de soldado para soldado’ e definiram que, sim, é preciso iniciar imediatamente conversações de paz com os Talibã na capital do Qatar, Doha, Kerry voou para Cabul na manhã seguinte para uma visita não agendada, razoavelmente certo de que, na noite anterior, fechara um acordo com o Grande Sapo.

A missão de Kerry em Cabul era convencer o presidente Hamid Karzai do Afeganistão a embarcar na mesma canoa. Mas o sapo Karzai não é sapo fácil, sobretudo depois que as simpatias de Karzai com os EUA entraram em queda livre, com o afegão denunciando “colusão” entre americanos e Talibãs.

Se alguém no governo dos EUA tivesse alguma chance de amolecer Karzai, seria Kerry. Mas Karzai conhece o ponto fraco de Kerry, do qual depende seu sucesso diplomático em Cabul; dito em forma simples, Kerry detesta discussões fortes e sempre acaba concordando com o que Karzai exija, ainda que chegue decidido a nada conceder.

Em outubro de 2009, Kerry foi despachado pelo presidente Obama, com a missão de persuadir Karzai a sair de cena e permitir eleições presidenciais livres e justas, de modo que um presidente genuinamente eleito pudesse surgir, com mandato legítimo. Em vez disso, Kerry foi persuadido a continuar considerando a ideia de que o presidente afegão tem direito legítimo a um segundo mandato a ser disputado num então longínquo 2014.

O vendedor nada consegue

A recente visita de Kerry, na 2ª-feira passada, que foi a primeira de Kerry como secretário de Estado, não foi diferente. Em resumo, a lista de desejos de Karzai foi integralmente atendida, outra vez. A prisão de Bagram foi devolvida ao controle do governo afegão e, com ela, as centenas de prisioneiros afegãos, exceto uns poucos prisioneiros que os militares norte-americanos classificaram como militantes de alta periculosidade.

As Forças Especiais dos EUA também se retirarão de Wardak. E Kerry acabou por também aceitar a exigência de Karzai de que as eleições presidenciais afegãs, de abril próximo, sejam “lideradas pelos afegãos” (o que significa que Karzai as supervisionará, sem qualquer interferência dos EUA). E aceitou a palavra de Karzai, que lhe garantiu que as eleições serão “transparentes”.

Mais importante: os EUA aceitaram a exigência de Karzai, de que o governo afegão coordene e dirija as conversações com os Talibã em Doha. Kerry e Karzai combinaram que Karzai viajará em breve a Doha para encontrar-se com o emir do Qatar e inaugurar um escritório de representação para os Talibã na capital do Qatar. 

A linguagem corporal, na conferência de imprensa com Kerry e Karzai depois que conversaram em Cabul na 2ª-feira, foi espetáculo à parte.

Kerry estava visivelmente deliciado com o troféu que pensava que levava para entregar a Obama no Salão Oval, em troca das tais “concessões”, a saber, que Karzai ajudaria a costurar um Acordo sobre o Status das Forças que garanta imunidade diplomática para os soldados que permanecerão nas bases militares no Afeganistão depois do final de 2014.

Sem dúvida, Kerry reiterou o compromisso dos EUA com a salvaguarda da estabilidade no Afeganistão. Do tom assertivo de Kerry, pode-se inferir que Obama já decidira manter presença substancial de tropas no Afeganistão, para impedir que os Talibã tentem outro grande assalto para retomar Cabul tão logo as forças da OTAN tenham partido, no final de 2014.

Afinal, como disse à imprensa funcionário não identificado do governo norte-americano, os EUA também têm outros interesses estratégicos, além dos Talibã, com os quais se preocupar.

Isso posto, quando Kerry decolou de Cabul no fim da 2ª-feira, as coisas pareciam realmente ótimas. Kerry parecia ter acertado todos os pontos virtualmente difíceis, e o futuro do Acordo sobre o Status das Forças parecia luminoso. Afinal, as conversações da paz afegã pareciam prestes a entrar nos trilhos, em Doha.

Porém, nem bem Kerry entrou no avião, os sapos puseram-se a saltar do prato da balança, um depois do outro, exatamente como Tomsen temia que fizessem. Seguindo-se a metáfora de Tomsen, de sapos e pratos de balança, é praticamente garantido que o Grande Sapo entrou em ação.

Um relatório conjunto foi entregue à Suprema Corte do Paquistão em Islamabad, na 3ª-feira, pelas agências de inteligência Inter Services Intelligence [ISI] e Inteligência Militar. Todas aquelas agências informavam que o governo afegão estaria instigando “incidentes terroristas ampliados” nas áreas tribais do Paquistão.

Muito curiosamente, o relatório não foi classificado como documento secreto, apesar do conteúdo sensível: foi amplamente divulgado na mídia paquistanesa. No mínimo, serviu ao propósito de ridicularizar Karzai.

O tumulto foi instantâneo. Os Talibã imediatamente cancelaram qualquer possibilidade de negociar com Karzai em sua próxima visita ao Qatar. E, esfregando sal nas escoriações de Karzai, revelou-se que cerca de 25 representantes dos Talibã já vivem em Doha, mas não têm nenhum plano, de nenhum tipo, que inclua algum tipo de encontro com Karzai durante sua visita ao Qatar.

Como disse o porta-voz dos Talibã, Zabihullah Mujahid, o governo de Karzai é inútil e “não tem qualquer poder nem toma decisões independentes.”

Cabul, por sua vez, denunciou pesados bombardeios, pelo exército do Paquistão, através da fronteira na província de Kunar, a leste, na 2ª e na 3ª-feira. Como protesto, Cabul anunciou na 4ª-feira que estava cancelando visita agendada de uma equipe de 11 militares afegãos à academia militar de oficiais paquistaneses em Quetta.

Num minuto, havia sapos saltando por todos os lados. O vice-ministro de Relações Exteriores do Afeganistão, Jawed Ludin, figura chave no plano da construção da política externa, convocou a agência Reuters para uma entrevista em Cabul, na 4ª-feira, e lançou ataque furioso contra o Paquistão.

Ludin condenou abertamente o duplifalar dos paquistaneses. Disse, quase claramente, que o Grande Sapo está criando tumulto, ao manipular os sapos menores como bem entende e ao impedir completamente que o vendedor de sapos venda sapo algum.

Ludin revelou que o Paquistão sistematicamente boicota e joga os vários grupos não Talibã uns contra os outros, afastando-os cada vez mais dos Talibã; assim, asseguram que nenhuma conversação de paz chegue jamais a qualquer acerto e que a instabilidade prossiga no Afeganistão, de modo que o Paquistão possa beneficiar-se da calamidade afegã, no instante em que as tropas da OTAN estiverem fora, no final de 2014.

Nos termos da matéria distribuída pela Reuters, Ludin disse que “O que eles [o Paquistão] querem é, outra vez, a fragmentação do estado afegão, que tudo volte ao estado anterior, para que tenham mais 10 anos, no mínimo outra década, de estado afegão fraco e carregado de concessões.”

O dilema de Malacca[2]

Assim sendo, o que fará Kerry, vendedor de sapos? A única opção parece ser esquecer a Síria por hora e recomeçar tudo outra vez, em outro jantar com Kiani – à luz de velas, digamos, à margem do Nilo. Em seguida, Kerry terá de sair correndo do restaurante, direto ao aeroporto, pelo tráfego do Cairo, para chegar a tempo a Cabul – e a Doha. E como poderá estar em duas cidades ao mesmo tempo?

Absolutamente não poderá. E, dado que não pode, haverá tempo suficiente para que o Grande Sapo instigue mais pequenos sapos a saltar fora do prato da balança. E o secretário Kerry talvez tenha de recomeçar do zero.

Washington já deveria ter percebido que os militares paquistaneses absolutamente não estão interessados na reconciliação com os Talibã. Depois de ter investido muito sangue, suor e lágrimas nos Talibã, os militares paquistaneses entendem que “os ganhos estratégicos” são, por direito, exclusivamente do Paquistão e trabalham para manter as coisas nesse pé por muito, muito, muito tempo.

Além do mais, os militares paquistaneses praticamente nada conseguiram do que queriam, em troca, de Washington. E deve-se supor que já nada esperem do governo Obama. De fato, já nem precisam de muito, de Obama.

Mês passado, a China firmou um acordo para construir mais usinas nucleares no Paquistão e fornecer a tecnologia de reprocessamento, o que tira de jogo todo Grupo de Fornecedores Nucleares [orig. Nuclear Suppliers Group], o que, por sua vez, evidencia que os paquistaneses precisam extrair, dos EUA, um acordo semelhante ao que a Índia obteve em 2008.

Quanto à segurança no campo da energia, mais uma vez, os EUA muito prometeram mas bem pouco fizeram em termos de ajuda real. Agora, o Paquistão decidiu optar pelo projeto do gasoduto iraniano, com os US$500 milhões emprestados pela China.

O mais importante: o Paquistão já entregou à China a administração do porto de Gwadar, saída magnífica para que Pequim consiga arrancar-se de seu próprio “Dilema de Malacca”.

Mas Gwadar não é simples elo de comunicação. Também manifesta a rejeição estratégica, pelo Paquistão, da “Iniciativa Nova Rota da Seda”, dos EUA, cerebrada para minar a influência de China e Rússia na Ásia Central.

Assim sendo, feitas as contas, os EUA hoje precisam mais do Paquistão, que o Paquistão dos EUA; os americanos transportam por estradas paquistanesas o equipamento de guerra retirado do Afeganistão. Deve-se supor que os EUA continuarão a precisar das mesmas rotas para levar suprimentos às bases norte-americanas no Hindu Kush (se algum dia chegarem a estabelecer-se ali). O Grande Sapo, é claro, cuidará para que as bases não se estabeleçam com a prazerosa facilidade que Kerry imagina. E a China pode contar também com os préstimos do Grande Sapo, para sua nobre missão.

[1] 8/2/2012, “The Afghanistan equation: U.S. + Taliban + Pakistan = peace?” [A equação afegã: EUA + Talibã + Paquistão = paz?], em http://articles.latimes.com/2012/feb/08/opinion/la-oe-0208-tomsen-afghanistan-20120208

[2] A expressão foi cunhada pelo presidente Hu, da China. A China continua pesadamente dependente de águas internacionais e de corredores de navegação, para importar petróleo da África e do Oriente Médio. Isso a torna cada vez mais ativamente interessada no Estreito de Malacca e no Estreito de Taiwan, pelos quais podem navegar seus petroleiros e, simultaneamente mobiliza os chineses para encontrar ou abrir vias terrestres para o transporte de petróleo e gás [NTs, com informações de http://www.foreignaffairs.com/articles/61017/david-zweig-and-bi-jianhai/chinas-global-hunt-for-energy].

Publicado em 28/3/2013, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/SOU-03-280313.html

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu