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Alvorada de 26 de julho: a luz que se acendeu no continente

Maria do Carmo Luiz Caldas Leite Publicado em 26.07.2012

"Às escolinhas do campo assistem descalços, semi-desnudos e desnutridos, menos da metade dos meninos em idade escolar e muitas vezes o professor tem que adquirir, com seu próprio salário, o material necessário. É assim que pode se fazer uma pátria grande?" (Fidel Castro, no manifesto de autodefesa, conhecido como “A história me absolverá”)

O século XX iniciou-se em Cuba com um conjunto de imposições econômicas, políticas e sociais, decorrentes da primeira intervenção militar dos Estados Unidos no país. O triunfo da Revolução Socialista, em 1917, repercutiu em toda  América Latina e em Cuba, sendo que a partir dessa data, entre as consignas e demandas dos operários, surgiram vinculações das teorias revolucionárias às lutas no continente. Entre as décadas dos anos 20 e 40, na república mediatizada cubana, constatou-se a existência de uma luta ideológica e política, entre duas tendências contrapostas, de um lado, a democrática e progressista, que representava os interesses do povo e, do outro, a tendência reacionária, das classes dominantes.

No início da década de 30, observa-se uma acelerada penetração na economia cubana de grupos financeiros dos Estados Unidos. A capital cubana ofereceu-se à máfia norte-americana como “o mais esplendoroso dos paraísos”, com o turismo e os jogos ilegais organizados. Esse tipo de negócio cresceu de tal maneira que, em 1940, Cuba era considerada um importante centro da delinqüência internacional. A situação econômica na Ilha era típica de um país neocolonial, agrário e dependente, onde coexistiam relações pré-capitalistas com relações capitalistas, baseadas num escasso desenvolvimento do capital nacional e na penetração do capital estrangeiro monocultor, monoexportador e atado às necessidades econômicas dos Estados Unidos da América do Norte. A política da oligarquia criolla, a partir da crise globalizada do modelo neocolonial, apresentou muitas facetas, porém estas se basearam principalmente em restringir a produção agrícola e industrial à esfera açucareira, impedindo o surgimento de novos capitalistas competidores, mediante a cartelização do açúcar. Em 1953, no centenário natalício de Martí, um quadro retratava desmandos financeiros e  desatenção aos serviços educacionais:

• Apenas 56,4% das crianças podiam frequentar a escola primária e 28% dos jovens continuavam os estudos em centros de ensino médio.
• A Educação Especial para impedidos físicos e mentais era virtualmente inexistente.
• Para a formação de professores, havia 6 escolas normais oficiais com matrículas limitadas e só existiam três faculdades de Educação nas Universidades de La Habana, Las Villas e Oriente.
• Em todo o país, havia mais de meio milhão de crianças sem escola e mais de um milhão de analfabetos.

Na alvorada de 26 de julho de 1953, o assalto ao Quartel Moncada em Santiago de Cuba, sob o comando de Fidel Castro, inaugurou um novo período na Ilha. O triunfo das forças populares encabeçadas pelo movimento revolucionário despertou a simpatia da maior parte das forças progressistas na América. Era uma luz que se acendia no escuro ambiente conservador que então se vivia no continente. A nação que se forjou contra os maiores poderes da época foi cenário de intensas lutas e do acesso dos Estados Unidos à condição de potência mundial. A partir de 1º de janeiro de 1959 foram promulgadas as primeiras medidas, modificando de forma radical as estruturas política e econômica em Cuba. Os muros dos quartéis, vistos como ponto de partida das tropas opressoras e centros de tortura, foram derrubados para dar espaços às salas de aula no interior das antigas fortalezas. Entretanto  numa sociedade neocolonial, não havia como levar a revolução para dentro do capitalismo. O homem novo, pela reapropriação da natureza humana e capaz de atos de solidariedade, era o centro de mobilização da sociedade, que buscava converter-se numa grande escola.

Depois da revolução cubana deu-se máxima prioridade à educação e a saúde para fomentar o desenvolvimento humano. A lei que estabelecia a primeira Reforma Integral do Ensino, promulgada ainda em 1959, adotou um novo objetivo fundamental para a Educação, de acordo com os interesses da Revolução Cubana, que é o  pleno desenvolvimento humano. As  profundas reformas na estrutura econômica, política e social de Cuba buscavam implementar a realização das medidas básicas preconizadas no documento de defesa de  Castro Ruz, no processo de Moncada. A ruptura de poder do Estado burguês e a criação das bases de um novo modelo intentavam transformar a saúde, a educação e a cultura em direitos com acesso para todo o povo.

Decorridos 59 anos dos feitos da madrugada de 26 de julho, a história cubana tem se encarregado de reforçar o significado do autêntico e do genuíno frente à imposição  neocolonial. Cada acontecimento traz à luz a reação contra uma pretensa universalidade que vem de fora, de um mundo dominado por Portugal-Espanha, pela América do Norte ou, mais recentemente, pelas regras da globalização, reiterando nos cubanos um afã em busca de originalidade e autoctonia. As mais de cinco décadas cunharam um sentimento próprio da população cubana, propensa a entrelaçar sua trajetória pessoal com a trama histórica do país, de uma forma periódica que oscila entre o passado de tradições de luta, o presente marcado por dificuldades e os interrogantes do futuro.

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Professora de Física, mestre em Educação e membro da direção municipal do PC do B de Santos.