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A vaca sagrada

Henrique Custódio Publicado em 14.07.2011

Joseph Stiglitz é um reputado economista norte-americano, Prémio Nobel da Economia em 2001 e professor na Universidade de Columbia.

Obviamente, está longe de ser um «perigoso» revolucionário marxista-leninista ou, sequer, expender cumprimentos ao socialismo.

Numa das suas últimas reflexões analisou a crise nos EUA começada pelo reaganismo e a entronização dos famosos «mercados» especulativos, mas também falou da Europa e foi taxativo: «A Grécia e outros países enfrentam crises e o tratamento em voga consiste simplesmente em pacotes de austeridade e privatização já desacreditados pelo tempo, os quais deixam, simplesmente, os países que os adoptam mais pobres e vulneráveis. Este “tratamento” fracassou no Leste da Ásia, na América Latina e noutros lugares, e fracassará também na Europa. De resto, já fracassou na Irlanda, Letónia e Grécia.»

De seguida zurze num dos nódulos do problema: «Lamentavelmente, os mercados financeiros e os economistas de direita têm visto o problema exactamente ao contrário: eles crêem que a austeridade produz confiança e que a confiança produz crescimento. Porém, a austeridade socava o crescimento, piorando a situação fiscal do governo. Depois socava-se a confiança e põe-se em marcha uma espiral descendente.»

Ora aqui estão os famosos «mercados» – erigidos pelos comentadores «troiquianos» cá do burgo a «vaca sagrada» nacional – expostos na sua voraz natureza. E por um economista do próprio sistema. Que, finalmente, adverte:

«Precisamos, realmente, de outra dura experiência com teorias que têm fracassado repetidamente? Um fracasso da Europa e dos EUA no regresso ao crescimento sólido seria mau para a economia mundial. Um fracasso de ambos seria desastroso – sobretudo se os principais países emergentes tiverem conseguido um crescimento auto-sustentado.»

Ora aí é que bate o ponto que o ilustre Stiglitz se escusa a abordar, ou não fosse ele, apesar da lucidez, um angustiado defensor do sistema.

Acontece que os tais países emergentes, com a China à cabeça, estão num crescimento auto-sustentado contínuo há duas décadas, e isso tem uma origem concreta: foi o próprio capitalismo desenvolvido dos EUA, Europa e Japão que, paulatinamente, foi transferindo fábricas e tecnologias para os tais «países emergentes», na avidez constante de mais lucro com mão-de-obra mais barata.

O resultado está à vista: neste momento os tais países emergentes, sobretudo a China, estão a transformar-se nos grandes mercados disponíveis, o que mergulha os capitalistas ocidentais num dilema: regressar com as indústrias e tecnologias aos países de origem pode ser muito patriótico, mas agora só diminui lucros. E a natureza predatória do bicho faz o resto: é claro que continua nos «países emergentes» até à derrocada final, quando os poderosos do mundo – os que mais produzem, como sempre – já sejam esmagadoramente os tais «emergentes». E, aí, a hegemonia capitalista já mudou de sítio...


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Fonte: jornal Avante!