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Smith, Keynes e os paradoxos da ciência econômica

Mario Rapoport e Ricardo Lazzari Publicado em 08.06.2011

Adam Smith não representa, no entanto, completamente, a teoria ortodoxa atual que se impôs nos anos do neoliberalismo. Em sua época, o livre comércio supunha a competição de muitos capitalistas em resposta ao controle monopolista do comércio por parte de certas corporações privadas e estatais.Está muito longe do pensamento de Keynes subsidiar o mercado financeiro e rebaixar salários e aposentadorias.

Ontem (5 de junho) foi aniversário de nascimento de dois dos pensadores mais influentes na história da ciência econômica, Adam Smith e John Maynard Keynes. Muitos têm falado e escrito sobre eles, mas poucos fizeram uma comparação de suas vidas e de suas obras, e esta é a ocasião para fazê-lo, no momento em que o capitalismo, sistema que um deles impulsionou e o outro tentou salvar, debate-se em uma profunda crise. Nosso objetivo é expor, em grandes linhas, algumas de suas coincidências e diferenças, o que nos permitirá compreender, também, os limites do sistema econômico em que vivemos.

1. Toda teoria econômica deve ser considerada nos marcos de sua época e as ideias de ambos tiveram a ver com a problemática que tocou a viver a cada um. As razões dos êxitos que os acompanhou estão vinculadas com seus acertos em decifrar e entender as tendências e fenômenos históricos predominantes. No caso de Adam Smith, a emergência de um modelo capitalista de desenvolvimento na Europa do século XVIII, marcado pela Revolução Industrial no plano econômico e por mudanças políticas que destruíram ou restringiram privilégios das monarquias absolutas. No de Keynes, a época do declínio e da primeira grande crise do capitalismo, que não começou, como assinala ele próprio em seus Ensaios de Persuasão (1931), com a queda da Bolsa de Wall Street em 1929, mas sim antes, no primeiro pós-guerra, através de sintomas sobre os quais advertiu precocemente, como o fim do padrão ouro e os desequilíbrios crescentes do sistema econômico internacional. Uma evolução histórica que coincide com sua etapa de formação e desenvolvimento como economista.

2. Nem um nem outro foram meramente economistas. Entenderam a ciência econômica como fazendo parte de saberes mais amplos que permitiam uma compreensão das sociedades de seu tempo e da natureza dos indivíduos que as constituíam. Adam Smith iniciou sua carreira universitária como titular da cadeira de Lógica e Filosofia Moral, na Universidade de Glasgow, onde elaborou, progressivamente, suas teorias sobre o direito, a moral e o Estado, que se plasmaram em sua obra “Teoria dos Sentimentos Morais” (1759) e em suas “Leituras sobre Jurisprudência”. Sua teoria econômica deriva de suas concepções éticas onde o egoísmo domina a esfera econômica enquanto que o altruísmo funda as bases da vida social. Neste sentido, não é possível compreender sua obra principal, “A Riqueza das Nações” (1776), sem relacioná-la com um corpus ideológico e filosófico no qual se enquadram suas contribuições para a economia política.

Keynes também tinha uma formação filosófica e uma visão mais ampla da realidade de sua época. Não era viciado nos modelos econométricos que só podiam apreender aspectos limitados da realidade e, ainda que professor em Cambridge e funcionário em distintos momentos de sua vida, caracterizava-se a sim mesmo, irônica ou modestamente, como um “publicista”, um autor que escreve para o pública de forma periódica com o objetivo de difundir suas ideias. Em todo caso, para Keynes, todo economista deveria possuir uma rara combinação de qualidades: matemático, historiador, homem político e filósofo. Estudar o presente à luz do passado e com a perspectiva do futuro, sem deixar de lado nenhuma das instituições criadas pelo homem.

3. Ambos concebiam o capitalismo como um sistema. Não obstante, para Smith, era o estágio mais elevado na evolução econômica. Keynes, em troca, considerava esse sistema como uma fase no desenvolvimento histórico da humanidade, ainda que a mais conveniente no momento. Adam Smith viu a economia como um todo orgânico, natural que, por meio do mercado, tende a um equilíbrio. O homem, ao perseguir seu próprio interesse individual buscando o máximo benefício, trabalha necessariamente para fazer com que a receita anual de uma sociedade seja a máxima possível. Ele é levado a isso por “uma mão invisível” que “o conduz a promover um fim que não estava em suas intenções”. Em troca, Keynes diz, criticando o laissez faire, que “não é verdade que os indivíduos possuem, a título prescritivo, uma liberdade natural no exercício de suas atividades econômicas”. Não existe, segundo ele, nenhum pacto que possa conferir direitos perpétuos aos proprietários de bens. Além disso, não é correto deduzir dos princípios da economia política que o mundo é governado pela Providência, e que o interesse pessoal trabalha sempre em favor do interesse geral.

4. As teorias de ambos tentavam modificar determinadas condições econômicas e políticas. Em “A Riqueza das Nações”, destaca-se a preocupação de Smith com as políticas mercantilistas que caracterizavam os monopólios coloniais. O livre comércio era uma condição necessária para o florescimento da competição, dos baixos preços e da expansão dos mercados. Em consequência, a divisão do trabalho, principal motor do incremento das forças produtivas, não encontraria travas para sua completa generalização e derivaria em uma maior riqueza das nações. Alguns de seus seguidores deduziram disso que as crises seriam impossíveis dentro do sistema na medida em que o poder de compra do mercado dependeria da ampliação da produção e das receitas que isso geraria.

Pelo contrário, Keynes demonstrou em sua “Teoria Geral” (1936) – e os anos 20 e 30 dariam razão a ele – que o aumento das receitas pode não resultar em um crescimento similar do consumo, e aquela parte que se poupa não necessariamente é dirigida para a atividade produtiva, diretamente ou por meio de financiamento. Essa insuficiência nos níveis de consumo e investimento, que não cobrem a oferta existente, traz graves consequências sobre o produto e o emprego, originando as crises. Deste modo, como diz Joan Robinson, o economista inglês retoma o problema moral que a teoria do livre mercado havia aparentemente abolido: sua incapacidade para gerar ocupação plena e a necessidade de formas de regulação do sistema econômico. Diante desse diagnóstico, competiria ao Estado garantir o pleno emprego: aumentando o gasto público, reformando o sistema fiscal, melhorando a distribuição de renda e regulando o comércio exterior.

5. Adam Smith não representa, no entanto, completamente, a teoria ortodoxa atual que se impôs nos anos do neoliberalismo. Em sua época, o livre comércio supunha a competição de muitos capitalistas em resposta ao controle monopolista do comércio por parte de certas corporações privadas e estatais. Hoje, em um mundo marcado por companhias multinacionais de caráter oligopólico, o mesmo princípio implica o domínio dos mercados por parte de umas poucas empresas que determinam a produção e os preços, captando para si a maior parte do excedente gerado pela acumulação do capital, tanto na esfera propriamente econômica como na financeira. Por sua parte, as políticas keynesianas tampouco significam que a intervenção do Estado consista no resgate daqueles setores, empresas e bancos, que provocaram a crise atual e o posterior ajuste das receitas da maior parte da população. Está muito longe do pensamento de Keynes subsidiar o mercado financeiro e rebaixar salários e aposentadorias.

6. Nem Smith nem Keynes merecem ser avaliados pelo que não são, estejamos ou não de acordo com seus postulados. Em troca, valorizá-los pelo que são vai nos ajudar a criar um pensamento próprio que responda a nossas próprias necessidades e circunstâncias históricas.


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(*) Idehesi/Conicet.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fonte: Página/12, na Carta Maior