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Formação humana e reprodução social para além do capital

Giovanni Alves Publicado em 19.04.2011

Prefácio do livro livro-coletânea “Trabalho, Educação e Reprodução Social – As contradições do capital no século XXI”.

O livro-coletânea “Trabalho, Educação e Reprodução Social – As contradições do capital no século XXI”, organizado por Eraldo Batista e Henrique Novaes, é um precioso convite à reflexão crítica num cenário de barbárie social e impasses históricos da civilização do capital. É um painel privilegiado de problemáticas do trabalho nos primórdios do século XXI tratadas a partir da particularidade brasileira. O livro trata de temas candentes como Trabalho, Educação e Mundialização do capital, Trabalho Associado e Educação no Brasil, Trabalho e Educação profissional no Brasil e Trabalho, Educação e Movimentos sociais no Brasil. Enfim, a temática da educação percorre todos os textos desta interessante coletânea.
Por que o tema da formação humana – ou educação no sentido pleno da palavra – é o tema mais crucial do século XXI?

Primeiro, porque o ato de fazer história implica sujeitos humanos conscientes capazes de transformar as condições materiais de produção da vida, por meio de intervenções radicais no plano da democratização da vida cotidiana. Enfim, a questão que se coloca hoje sob o tempo histórico do “capitalismo manipulatório” (Lukács) é como deter a máquina industrial e política de desmonte de sujeitos humanos montada pela ordem do capital.

O século XX foi o século de imbecilização planetária promovida pela indústria cultural de massas, como diria Theodor Adorno. A tarefa da formação crítica tornou-se a tarefa fundamental da civilização humana ameaçada de extinção pela barbárie social do capital. Na verdade, interessa à ordem burguesa, a desefetivação de sujeitos humanos incapazes de uma intervenção prático-sensível radical. Ao “capitalismo manipulatório” interessa investir apenas na educação instrumental e no entretenimento alienante dos homens e mulheres que trabalham. Tanto a educação instrumental, quanto o entretenimento alienante proíbem a reflexão crítica. Pensar é perigoso, na ótica do capital. Por isso, a construção cultural da ordem burguesa é reduzir a formação humana a mera conformação/adaptação aos requisitos da ordem burguesa que produz (e reproduz) “escravos assalariados”.

Segundo, formar sujeitos humanos capazes de escolhas radicais é um ato subversivo na ordem burguesa. Na medida em que escolas, movimentos sociais, partidos e sindicatos com compromisso histórico radical conseguirem elaborar metodologias pedagógicas capazes de ir além da mera reprodução instrumental dos elementos da ordem capitalista, eles se colocarão num campo precioso da subversão cultural contra a ordem “imbecilizante” do capital. A prática revolucionária hoje é acima de tudo, uma práticaintelectual-moral, ou melhor, uma intervenção prático-cultural de natureza radical e criadora capazes de formar sujeitos-produtores de uma consciência crítica do mundo burguês.

Na medida em que se disseminam espaços de reflexão crítica construídos, de forma criativa, pelos intelectuais, movimentos sociais, partidos e sindicatos com compromisso histórico radical, abrem-se espaços de produção de sujeitos humanos reflexivos, conscientes e racionais capazes de escolhas radicais. E o mais importante: homens e mulheres aptos para o exercício da prática democrática radical nas mais diversas instâncias da vida social.

Ora, a democratização radical pressupõe a formação de homens e mulheres aptos para o exercício reflexivo-crítico capaz de escolhas radicais visando à transformação histórica. Não se constrói a verdadeira democracia com a ignorância popular e a imbecilização das massas proletárias. Por isso, desde os seus primórdios, o capitalismo como modo de produção da vida social alienada, demonstrou ser antípoda do processo de democratização impulsionado pelas lutas sociais. Capitalismo e democracia não combinam. Sob o capitalismo monopolista em sua etapa global, exacerba-se mais ainda a contradição entre o modo capitalista de produção da vida social e a democratização da sociedade humana. Na medida em que não consegue conviver com o processo de democratização impulsionado pelas massas de homens e mulheres que trabalham, com suas demandas por direitos sociais e políticos, cada vez mais ampliados, a ordem do capital busca destruir a democracia, pervertendo seus fundamentos humanos. Isto é, uma democracia sem povo organizado e consciente é o sonho dourado das classes dominantes da ordem burguesa. Uma democracia sem democratização radical é o anseio oculto do capitalismo histórico.

Finalmente, com a constituição do “capitalismo manipulatório”, que tornou-se hoje um sistema mundial organizado pela oligarquia industrial-financeira, que controla os aparatos de “formação de opinião pública”, sob o controle do capital concentrado dos grandes grupos da indústria cultural, o problema da formação humana tornou-se o problema crucial do nosso tempo histórico. Manipula-se mais hoje do que nunca, tendo em vista que, não interessa ao sistema de controle estranhado do capital em escala global, a dissidência intelectual-moral. Na medida em que se agudizam as contradições orgânicas da ordem mundial do capital em sua etapa de crise estrutural, ampliam-se e intensificam-se formas de manipulação que deformam os sujeitos humanos. Na verdade, impede-se a formação humana no sentido de homens e mulheres capazes de consciência crítica e, principalmente, consciência de classe.

Sob a crise estrutural do capital, disseminam-se novos modos de estranhamento social que assumem formas fetichizadas. Mais do que nunca, a percepção da realidade histórica é prejudicada pelo fetichismo social que impregna a ordem burguesa. Fetichismo quer dizer intransparência e ocultação da natureza essencial das coisas. O que significa que hoje, a intensificação da manipulação decorre do incremento do fetichismo social, onde o fetichismo da mercadoria é sua forma mais simples.

Nas sociedades de mercado, os produtos da atividade do trabalho humano, as mercadorias, tendem a impregnar-se de fetichismo. Isto é, a forma-mercadoria tende a ocultar da consciência social, o fato de que as mercadorias são produtos da atividade do trabalho social. O fetichismo da mercadoria oculta o caráter social do trabalho que as produziu. Isto é, oculta a raiz das coisas, alienando o homem da percepção de que somos um animal social (zoon politikon); um animal social que se fez homem através do trabalho. Portanto, o fetichismo da mercadoria oculta o trabalho como sendo o fundamento da vida social.

No plano da ordem burguesa, o fetichismo da mercadoria legitima a apropriação privada da riqueza social. Por isso, na medida em que ocorre a intensificação do fetichismo social, ocultando a raiz das coisas – e a raiz das coisas é o próprio homem como ser social, homem que trabalha – a ordem do capital visa legitimar-se sob as condições de sua crise estrutural. Na verdade, a luta crucial ocorre no plano da subjetividade do homem que trabalha.

Os mecanismos de produção da alienação cultural visam produzir homens e mulheres deformados enquanto sujeitos humanos capazes de intervenção radical. Mata-se, na raiz, o processo de democratização da vida social e interverte-se o ideal democrático numa mera fórmula manipulatória da opinião pública visando manter os parâmetros da velha (e caduca) ordem burguesa em sua etapa de crise estrutural. Por isso, coloca-se como tarefa política crucial hoje, a disseminação de práticas de formação humana no sentido da efetivação de sujeitos crítico-reflexivos capazes de intervenção radical. É uma luta árdua contra o Golias da manipulação sistêmica. Mas os processos de democratização social contribuem para a abertura de espaços de subversão cultural que decorre de práticas inovadoras no campo da radicalidade política.

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Veja resenha aqui:

http://grabois.org.br/portal/revistas.php?id_sessao=21