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Afeganistão: suposta libertação do país é um crime hediondo

Georges Pezmatzoglu Publicado em 07.03.2011

Milhares de crianças são assassinadas durante as operações dos EUA/Otan

Um recorde após outro quebra a guerra imperialista no Afeganistão, que já dura dez anos, com as vítimas entre a população desarmada multiplicando-se incessantemente, revelando a verdadeira feição da ocupação EUA/Otan, da suposta "libertação" e da consolidação da "Exportação de Democracia".

Este quadro de destruição, do massacre de um povo é particularmente revelador em um período que, com a situação que predomina no Mundo Árabe, é projetada novamente pelos imperialistas a denominada "redemocratização" de regimes autoritários, os quais foram até recentemente os "bons aliados", como são os casos da Tunísia, Egito e Líbia.

Assim, de acordo com os mais recentes dados do Observatório Afegão de Direitos, no teatro de operações e na sequência de ataques durante o ano passado foram assassinados "pelo menos" 2.421 civis desarmados. Aumento das vítimas reconhece, também, a Organização das Nações Unidas (ONU), registrando ainda as maiores perdas em crianças pequenas.

Em todos os casos, entretanto, que relatam dados sobre assassinatos de civis desarmados, organizações não governamentais e a ONU atribuem a maior parcela de responsabilidade aos combatentes do Talibã, sustentando que eles são responsáveis por 66% dos assassinatos.

Já as forças de ocupação - norte-americanas e dos países-membros da Otan - são apresentadas como "inocentes" em relação com os combatentes do Talibã, considerando que, sempre com as ONGs próximas à ocupação, são responsáveis por apenas 21% das vítimas (leia-se assassinatos), enquanto as forças afegãs do governo-fantoche são responsáveis por apenas 12% das vítimas.

De acordo com outras fontes, os assassinatos de civis desarmados (sem nenhuma possibilidade de aferir o número exato) é calculado, desde o início da guerra, em muitas dezenas de milhares, considerando que, diariamente, são assassinados mais civis desarmados, em consequência do conflito.

Encenação

Contudo, os fatos vêm a desmentir as específicas "encenações". É característico que em nenhum caso de ataque das forças de ocupação dos EUA/Otan registra-se reconhecimento de vítimas civis desarmados, além, é claro, de casos que não poderão ser ocultados ou dissimulados.

Os civis desarmados - de acordo com prática habitual - tanto das forças de ocupação EUA/Otan, quanto de seus colaboradores (forças militares afegãs), são "batizados" de "talibãs" e suas mortes são justificadas no âmbito da guerra imperialista.

O mais recente caso de assassinatos em massa de civis desarmados pelas forças de ocupação foi o ataque aéreo contra a região de Kunar, em 20 do mês passado, que custou a vida de 65 civis desarmados, de acordo com as autoridades locais.

O maciço assassinato de civis desarmados, do qual participaram também forças militares afegãs, foi negado durante um recital de hipocrisias dos EUA/Otan, que alegaram não ter havido nenhum civil desarmado morto. Ao contrário, nas específicas incursões aéreas e terrestres, foram mortos apenas 30 combatentes do Talibã.

As forças de ocupação dos EUA/Otan acusaram os moradores da região de colaborarem com os combatentes do Talibã e ainda se esforçam para "divulgar propaganda contra as forças de ocupação".

Incursões aéreas

Características foram as declarações de autoridades das forças de ocupação que não hesitaram em sustentar que "foram os próprios moradores da região que amputaram os braços e as pernas de crianças para criarem impressões contra a ocupação". E não hesitaram, ainda, em realizar uma "investigação", cujos resultados, como era de se esperar, confirmaram a teoria dos EUA/Otan sobre 36 combatentes do Talibã mortos e nenhum civil desarmado.

Contudo, os testemunhos dos moradores se comprovam horripilantes, descrevendo com terror as incursões aéreas durante a noite. Destacam que as vítimas foram moradores que, aterrorizados pelas incursões aéreas, saíram de suas casas pensando que poderiam ser salvos. Mas o resultado foi que morreram queimados, a ponto de não serem reconhecidos e, em consequência, enterrados em valas comuns.

A verdade não foi capaz de negar sequer o governo-fantoche afegão e o imposto presidente corrupto, Hamid Karzai, recentemente reeleito em condições gerais de fraude, mas com a benção da ocupação EUA/Otan.

Em uma interpretação hipócrita, Karzai "condenou" as incursões aéreas, chamando a atenção das forças de ocupação para a proteção dos civis desarmados, e acrescentou que tais "erros" minam a própria ocupação. São declarações que já havia feito no passado, quando "ameaçou" que, "se os assassinatos de civis desarmados prosseguissem", assumiria posição "contrária à ocupação do país".

O massacre de Kunar foi apenas mais um dos inúmeros casos semelhantes nesta guerra que já dura dez anos e confirma o papel das forças de ocupação EUA/Otan contra o povo afegão. A escalada das operações das tropas de ocupação, com alvo a decisiva liquidação do Talibã, espera-se que aumentará ainda mais as vítimas civis desarmadas da guerra, enquanto as regiões consideradas "cabeças-de-ponte" do Talibã são bombardeadas ininterruptamente por terra e ar, sem que sejam divulgadas as perdas de civis desarmados.

Sentimento contra a ocupação

Dia após dia cresce o sentimento contra as forças de ocupação dos EUA/Otan, enquanto as famílias contam seus mortos e vêem as feridas abertas pela guerra imperialista sangrarem cada vez mais, com resultado o aumento das manifestações populares e das adesões ao Talibã, considerado - mesmo erroneamente - como a única saída que poderá proporcionar a libertação do regime de ocupação.

Os moradores de regiões situadas no epicentro das operações de guerra caracterizam as forças de ocupação como o "maior terrorista" do povo afegão, enquanto torturas, prisões, ameaças e assassinatos de civis desarmados compõem com as cores mais negras a situação que predomina no país após a invasão e ocupação imperialista.

Os combatentes do Talibã, que desde o início foram treinados e armados pelos EUA para combater o regime popular que tentou tirar o país do atraso na década de 1980, continuam sendo financiados, mesmo indiretamente, pelas forças de ocupação.

Gigantescas verbas são gastas para financiar grupos de "guerrilheiros" para que não ataquem as tropas de ocupação dos EUA/Otan, enquanto o governo norte-americano apoia os planos de "pacificação nacional" do presidente corrupto Karzai, que prevêem o generoso financiamento ao Talibã, para que deponha as armas e, em seguida, participe do poder civil.

Interesses imperialistas

Por enquanto, os EUA declaram, abertamente, que não pretendem retirar-se do Afeganistão e abandonar o controle da região e seus interesses imperialistas sobre a Ásia Central. Além dos supostos planos de retirada das forças de ocupação até 2014, a organização do Estado e a reconstrução permanecerão nas mãos das forças imperialistas que, certamente, aproveitarão, ainda mais, o "dia seguinte" da guerra.

Por sua vez, o corrupto presidente Karzai trata de fortalecer suas relações com a Turquia, China e Rússia, abrindo a porta na divisão do butim também para novos players, tentando se favorecer pelos antagonismos endoimperialistas.

A população do Afeganistão continua procurando refúgio seguro a fim de sobreviver, tanto dos ataques das forças de ocupação, quanto do Talibã. Apesar de tudo isso, as forças de ocupação dos EUA/Otan insistem em declarar-se "guardiães de estabilidade da região", tentando ocultar seus crimes de guerra, apoiando o governo do corrupto Karzai, enquanto, de tempos em tempos, denunciam a "corrupção" e, simultaneamente, ajudam de várias formas o Talibã, justificando a prorrogação de sua permanência no país.

Nesta paródia, co-autores são os governos dos países europeus, membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que aguardam receber suas parcelas da distribuição do rico butim que é a Ásia Central.

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Fonte: Monitor Mercantil