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Banco Central, juros e manchetes

Rolf Kuntz Publicado em 26.01.2011

Três jornais atribuíram o primeiro aumento de juros de 2011 ao "BC de Dilma". A expressão apareceu nas primeiras páginas do Estado de S.Paulo, da Folha de S.Paulo e do Globo na quinta-feira (20/1). Não foi uma casualidade. Sob nova direção, o Banco Central enfrentou seu primeiro teste na reunião dos dias 18 e 19/1. O aperto monetário pode ter sido uma decisão autônoma, confirmando a promessa da presidente Dilma Rousseff de respeitar a autonomia de fato da instituição. "BC de Dilma" pode ter mais de um significado. Pode ser uma referência à dupla mudança – no Palácio do Planalto e no banco – ou a uma nova fase da política monetária. Alguns analistas preferem esperar um pouco mais para formular uma opinião. As duas hipóteses ficaram abertas nos jornais. O Globo acrescentou um toque de politização à sua manchete: "BC de Dilma aumenta juros para conter inflação de Lula".

Dois dos assuntos mais quentes da semana ficaram na fronteira da economia e da política. O primeiro foi levantado na quarta-feira (19/1) em manchete da Folha de S.Paulo: "Anatel terá acesso a sigilo das ligações telefônicas". O Estadão também explorou o tema na edição de quinta-feira. O mero acesso aos números chamados, à duração e à frequência das ligações configura violação de sigilo, segundo advogados especialistas citados pelos dois jornais. Dirigentes da Anatel e do Executivo negam. Segundo eles, o objetivo da agência é proteger o consumidor e só haverá acesso aos números, sem identificação de nomes. Nenhuma fonte não oficial mencionada pelos jornais levou a sério esse tipo de alegação. O tema envolve uma questão constitucional. Merece maior envolvimento de todos os meios de comunicação.

Déficit industrial

Também foi quente o noticiário – este, sim, explorado por todos – sobre as novas trapalhadas do Ministério da Educação. Estudantes tiveram enorme dificuldade para cuidar de assuntos do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e do Sisu (Sistema de Seleção Unificada). As inscrições no Sisu, para acesso a universidades com base nas notas do Enem, foram encerradas às 23h59 de quinta-feira (20), dentro do prazo fixado pelo ministério. Houve protestos, por causa do mau funcionamento do portal, e o problema foi parar no Judiciário.

O ministro Fernando Haddad teve de se explicar à presidente Dilma Rousseff e ela o proibiu de tirar férias, como informou O Globo no sábado (22/1). Mais um vez O Globo prestou homenagem à tradição das manchetes fortes e atraentes: "Dilma enquadra ministro do Enem, que tira férias". A imprensa está perdendo essa arte. Nenhum jornal usou em manchete a expressão "swap cambial reverso", mas esse dia não parece distante.

Só dois jornais, Valor e Estadão, deram destaque à nova grande encrenca no Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento. O governo francês, atualmente na presidência do grupo, pretende incluir na agenda um mecanismo de estabilização dos preços internacionais dos alimentos. O esquema poderia incluir estoques administrados pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

Oficialmente há preocupação com os países pobres e importadores de comida. Mas a proposta reflete, em primeiro lugar, a reação às pressões inflacionárias na Europa. O governo brasileiro é contra a ideia, até porque ninguém fala de regulação quando as cotações estão baixas. No ano passado, as exportações do agronegócio garantiram o superávit comercial brasileiro de US$ 20,2 bilhões. Foram mais que suficientes para compensar o déficit acumulado pela indústria. O governo prefere não brincar com essas coisas. A maior parte dos jornais e de outros meios de comunicação ficou longe do assunto.

Espaço exagerado

Os jornais têm repetido declarações do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, sobre a intenção de governo de propor medidas para elevar a competitividade e combater a concorrência desleal. Mas o noticiário tem ficado, quase sempre, em generalidades, porque o ministro evita entrar em detalhes. A Folha de S.Paulo avançou um passo com a manchete de sexta-feira (21): "Dilma vai propor redução de tributo pago para o INSS".

A intenção, segundo o jornal, é promover uma redução gradual, para estimular as contratações com carteira assinada. Empresários têm defendido a redução dos encargos também para tornar a produção brasileira mais competitiva. O governo decidiu promover mudanças parciais, abandonando a ideia de grandes projetos de reformas. Se as mudanças forem mesmo propostas num esquema de picadinho, os jornais vão ter mais trabalho para detectar cada iniciativa.

Finalmente, um mistério. Alguns jornais têm dado muita importância à briga entre as famílias Odebrecht e Gradin (acionista minoritária do grupo). Mas esqueceram de explicar por que essa história é relevante para as demais pessoas – os leitores, por exemplo. A briga envolve o controle do grupo? Afeta gravemente a saúde financeira da empresa? Faz diferença para as obras da Odebrecht? Atrasará projetos do PAC? Terá influência em licitações de grandes obras? Se nenhuma resposta for positiva, o leitor poderá concluir sem dificuldade: o espaço atribuído ao tema é exagerado. Se alguma resposta for afirmativa, os jornais terão falhado na apresentação do assunto.

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Fonte: Observatório da Imprensa