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Países emergentes compram o mundo

Lee Wong Publicado em 21.01.2011

O historiador do futuro será, provavelmente, convocado para investigar sob qual sentido e grau a crise financeira, a queda consequente e a crise européia de dívida à qual aquela foi transformada funcionaram como catalisadores do alinhamento das economias emergentes com as economias desenvolvidas do Ocidente ou, ainda, na aceleração de seu predomínio sobre a economia mundial.

Não surpreende mais ninguém a boa vontade da China de declarar seu apoio aos fracos elos da Zona do Euro e adquirir seus bônus, fundamentada sobre suas vertiginosas reservas cambiais, as quais continuam aumentando em ritmo preocupante.

Não surpreende sequer a aceitação do secretário de Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, de além da pedregosa questão da paridade do iuan, a maior economia do mundo preocupa-se com o galopante ritmo de crescimento da China e as políticas que adota sobre a economia e o comércio internacionais.

E muito menos, obviamente, o recente relatório do banco HSBC prevendo que, em meados do século XXI, a maior potência econômica do planeta será a China, mesmo com ligeira diferença diante dos EUA. Aliás, a aceleração que desenvolveram, recentemente, as economias emergentes revela sua febril atividade em aquisições e fusões e a explosão de sua fatia sobre o total dos acordos do gênero em níveis mundiais.

Os Brics

Com a China, indiscutivelmente, na vanguarda, e Brasil, Rússia e Índia acompanhando de perto, as economias emergentes realizaram aquisições e fusões totalizando US$ 740,6 bilhões ano passado. De acordo com a empresa de pesquisas e fundamentos Dealogic, este volume de transações representa aumento de 64% em comparação com o correspondente volume dos US$ 451,4 bilhões que totalizou a mesma atividade em 2009.

Ainda, de acordo com a Dealogic, durante o ano passado as empresas dos países emergentes realizaram uma em cada três aquisições e fusões mundialmente, enquanto há apenas cinco anos antes, em 2005, sua fatia não superava uma em cada sete aquisições e fusões.

E está claro, obviamente, que os acordos formalizados entre empresas de duas economias emergentes constituem apenas uma parcela deste movimentação. Por exemplo, uma em cada cinco aquisições e fusões que realiza empresa de país em desenvolvimento tem como alvo empresa chinesa, percentual relativamente pequeno considerando o gigantismo do mercado que representa a China.

As empresas dos países em desenvolvimento demonstram crescente "apetite", principalmente por empresas das economias desenvolvidas do Ocidente com primeiras em sua "alça de mira" as empresas norte-americanas e, imediatamente, em seguida empresas da Itália e Grã-Bretanha.

De acordo com dados da Dealogic e da Thompson, as norte-americanas foram as empresas que constituíram alvo de 19,3% das aquisições por empresas de economias emergentes. Empresas italianas foram alvo de 17% das aquisições, enquanto empresas britânicas foram alvo de 15,5% das aquisições.

As aquisições mais sonoras foram a da maison italiana de modas Cerruti pela empresa chinesa Trinity, a aquisição da indústria automobilística sueca Volvo pela congênere chinesa Geely e as emblemáticas indústrias automobilísticas de veículos de luxo Jaguar e Land Rover pela indiana Tata Motors.

Igualmente sonoras foram as aquisições da Imperial Energy, do Grupo Exxon Mobil, pelas empresas indianas Indian Oil e Natural Gas Corp., assim como a aquisição da suíça Addax Petroleum pela chinesa Sinopec.

Os Estados Unidos

Os percentuais relativos à nacionalidade das empresas que constituem alvos de aquisição mudam, naturalmente, quando são sobre o total das aquisições mundialmente e não se referem apenas a empresas de economias emergentes. As empresas norte-americanas, por exemplo, foram alvo apenas de 3,4% das aquisições realizadas mundialmente, as italianas, apenas 3%, e as britânicas, somente 2,8%.

Os EUA mantêm sempre o primeiro lugar mundialmente nas aquisições de empresas, com as empresas norte-americanas realizando 25% das aquisições mundialmente. Seguem aquelas da Grã-Bretanha, enquanto o terceiro lugar é ocupado pelas empresas da China, junto com as francesas e as canadenses.

Em sua alça de mira encontram-se, obviamente, empresas das economias emergentes, assim como as empresas das economias desenvolvidas em meio da crise econômica que enfrentam um explosivo mix de demanda interna anêmica, envelhecimento de suas populações e mercados esgotados. Buscam assim expandir-se em mercados das galopantemente emergentes economias por intermédio de alianças estratégicas, aquisições e fusões.

É indicativo que a China atraiu 19,5% das aquisições e fusões, o Brasil, 13,1%, a Rússia, 6,4%, e a Índia, 6,2%. De acordo com dados da Thompson, em 34% dos acordos de aquisição e fusão mundialmente participou como comprador ou alvo de aquisição empresa de país em desenvolvimento. O correspondente percentual em 2007 foi de apenas 15%.

Acordos petrolíferos

O último acordo de empresa de país em desenvolvimento com empresa de país industrializado que tornou-se conhecido há alguns dias foi a criação de uma joint venture entre a PetroChina e a destilaria britânica Ineos Group Holdings. As duas empresas destilarão e comercializarão produtos de petróleo da refinaria de Greydsmouth, na Escócia, e da unidade de Lavera, no sul da França.

O acordo está incluído no âmbito dos esforços que desenvolve a China para garantir ativos energéticos para sua economia e fortalecer sua posição internacional no setor de comércio do petróleo.

No mesmo âmbito estão incluídos acordos com os quais a PetroChina adquiriu acesso a refinarias e tanques de armazenamento de petróleo no Japão e em Cingapura, assim como os acordos formalizados pelas China National Petroleum Corp., e China Petrochemical Corp., com empresas petrolíferas dos países maiores produtores da África, Nigéria e Angola.

E, no final do ano passado, a Petro China formalizou acordo com a Royal Dutch Shell para desenvolverem juntas projetos energéticos no Canadá e própria China.

Gigantescos capitais chineses

Em dezembro do ano passado, as reservas cambiais da China explodiram, atingindo o vertiginoso total de US$ 2,85 trilhões, revelando o incessante fluxo de dinheiro especulativo ao gigante econômico da Ásia.

Fontes dos mercados relacionam este acúmulo de hot-money na China com sua disposição de investir em dívidas de países da "periferia" da Zona do Euro. Aliás, há anos, a China tenta diversificar seu mítico portfólio de investimentos e guinar mais em direção ao euro, limitando suas aplicações em dólar.

As fontes avaliam, contudo, que, somente para manter a atual composição de seu portfólio, a China deverá aplicar, pelo menos, US$ 125 bilhões mensalmente em ativos patrimoniais europeus.

Parâmetro interessante da posição internacional que a China está construindo é a pretensão do governo de Beijing de promover um mais extenso uso do iuan em nível internacional. Há alguns dias, o Banco do Povo da China (banco central) permitiu aos clientes dos bancos privados chineses negociarem iuan fora da Bolsa de Valores de Hong Kong.

A filial do maior banco chinês em Nova York proporciona a possibilidade a empresas e particulares venderem iuan através de suas contas em agências nos EUA. Mas permitiu, também, realizar as mesmas operações através de bancos ocidentais.

Por ora, esta decisão é considerada de grande importância, considerando que a liderança política da China impõe severíssimos controles soabre as transações em iuan fora do país.

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Fonte: Monitor Mercantil