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Governo forçou a imprensa a correr

Rolf Kuntz Publicado em 13.01.2011

O novo governo conseguiu, já na primeira semana, ocupar o noticiário com iniciativas de peso. Não perdeu tempo esquentando o motor e consultando mapas. O principal entrave foi a briga entre o PT e seu maior aliado, o PMDB, por lugares no segundo escalão. Estavam em jogo 600 postos importantes em 102 estatais do setor produtivo e da área financeira, segundo informou no domingo (9/1) o Estado de S.Paulo.

A primeira iniciativa importante foi o bloqueio da maior parte do orçamento. Seria inevitável porque a lei orçamentária ainda não havia sido sancionada. Mas houve uma surpresa: os ministérios foram autorizados a gastar apenas R$ 2,9 milhões por mês até a sanção. Isso corresponde a 1/18 da verba prevista para o ano, em vez da parcela de 1/12 prevista em lei. Algum aperto era previsto, mas o bloqueio mais duro que o esperado talvez tivesse valido um destaque maior. No Estadão, a matéria apareceu na página 4, ocupando cinco colunas abaixo da dobra. No Globo, saiu na página 3, pouco acima da dobra, mas em uma coluna. Em outros jornais, a novidade foi menos valorizada.

No mesmo dia, sexta-feira (7/1), o noticiário econômico foi dominando pela decisão do Banco Central (BC) de impor um freio mais forte à valorização do real (ou, visto do outro lado, à depreciação do dólar). O lance foi anunciado de manhã pelo diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, horas antes da primeira entrevista coletiva do novo presidente da instituição, Alexandre Tombini. Também o BC, sob nova direção, começou o ano a todo vapor.

Os jornais fizeram um bom esforço para traduzir a expressão "posição vendida" e para explicar a aposta dos bancos na valorização da moeda brasileira. O Estadão e a Folha de S.Paulo usaram gráficos para descrever o jogo. Detalhe curioso: várias decisões econômicas do Executivo têm saído nos cadernos de Política; as ações do BC, incluída nova intervenção na área cambial, têm aparecido nos cadernos de Economia.

Mensagens fortes

A safra das novidades em termos de orientação política – ou de sinais de mudança – tem sido farta. Por enquanto, há principalmente sinais, mas todos parecem importantes. O Valor foi o primeiro a indicar uma nova etapa na chamadas políticas sociais. Na capa de segunda-feira, 3/1, o maior título mencionou "planos de saída no Bolsa Família". O novo governo, segundo a matéria, fará um esforço maior para estimular a independência econômica dos beneficiários do programa. Parte do trabalho consistirá em preparar a clientela para pequenos empreendimentos. Sem criticar a fase anterior, o novo governo parece dar alguma razão a quem apontava a falta de portas de saída para complementar o Bolsa Família. O assunto só apareceu com destaque nos outros jornais na sexta-feira, depois da primeira grande reunião ministerial sobre o combate à pobreza.

Dois grandes temas da primeira semana foram tratados de forma burocrática pelos jornais. O primeiro foi o discurso de posse. Repórteres e editores deram destaque a obviedades, como os elogios da presidente Dilma Rousseff a seu antecessor e sua promessa de avançar no combate à pobreza. Houve detalhes bem mais interessantes no discurso apresentado no Congresso. A presidente usou a expressão "valor absoluto" para qualificar a estabilidade econômica. Essas palavras seriam surpreendentes mesmo se pronunciadas por um governante considerado "ortodoxo".

Outro ponto notável foi a promessa de cautela nos investimentos do pré-sal – para evitar, como explicou a presidente, imprudência no endividamento. Esses e outros pormenores não estavam lá por descuido, até porque o discurso foi revisto, criticado e ajustado mais de uma vez. Eram mensagens fortes e valia a pena dar-lhes um pouco mais de atenção.

Índice negligenciado

O segundo grande assunto mal explorado foi a inflação. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência oficial para a política de juros, subiu 5,9% em 2010. Foi a maior taxa em seis anos e todas as manchetes e grandes chamadas do sábado valorizaram esse ponto. As matérias, de modo geral, puseram em primeiro plano o peso do custo dos alimentos na formação desse índice. A importância das cotações internacionais foi ressaltada principalmente na Folha de S.Paulo. Quase todos foram pouco além da informação distribuída pelo IBGE e de algumas opiniões de entrevistados. Era, no entanto, um bom momento para uma revisão de como as pressões inflacionárias se manifestaram em 2010 e das condições da demanda interna.

Não se deu atenção, por exemplo, ao índice de difusão: em dezembro, mais de 60% dos componentes do IPCA encareceram. A evolução dos núcleos, outra pista importante da tendência geral dos preços, também foi negligenciada. Todos esses detalhes, no entanto, estavam disponíveis e serão, muito provavelmente, levados em conta pelos membros do Comitê de Política Monetária (Copom), em sua próxima decisão sobre os juros, neste mês.

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Fonte: Observatório da Imprensa