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A encruzilhada da Europa

Luís Filipe Ferreira Publicado em 12.01.2011

Numa entrevista concedida recentemente ao jornal francês Libération, o Nobel da Economia Joseph Stiglitz lançou um alerta muito sério sobre a possibilidade de o euro poder vir a desaparecer, caso não sejam tomadas medidas adicionais para a sua estabilização, e denunciou o carácter errático das medidas de austeridade tomadas pelas lideranças europeias que, na sua opinião, terão como efeito final o agravamento da crise com que nos confrontamos neste momento.

Estas declarações assumem um significado ainda maior por ocorrerem numa altura em que se começou a formar uma nova ortodoxia que, a cada tentativa feita para romper o seu cerco ideológico, responde com uma dose nova do veneno que nos conduziu à situação pantanosa em que nos encontramos. O neo-liberalismo ressuscitado vai repetindo, até à exaustão, o dogma de que o Estado não deve interferir no rumo da economia, alegando que a justiça e a racionalidade dos mercados encarregar-se-ão de resolver problemas como as desigualdades sociais, a pobreza e o desemprego.

Apanhada no meio deste vendaval, a Europa permanece petrificada à espera que o mau tempo passe e que os países que a constituem consigam sobreviver à tormenta. Neste cenário desolador, o eixo franco-alemão voltou a assumir o comando das operações, perante a complacência de um Durão Barroso, cada vez mais, emparedado nas suas conhecidas contradições e incapacidade para tomar decisões. Do Tratado de Lisboa restam apenas as fotografias da sua assinatura e da famigerada Constituição nem a sombra da sua memória perdura para nos reconfortar o espírito.

A cada dia que passa, aumenta a necessidade de repensar todo o projecto europeu, começando pela criação do fundo de estabilização e de um pacote global de estímulo às economias nacionais, mas também pela refundação institucional da União. Por mais que alguns queiram iludir a natureza do problema, a Europa só terá futuro se caminhar na direcção do federalismo. Caso contrário, a tendência natural será fragmentar-se num turbilhão de egoísmos e derivas populistas.

O processo de construção dos Estados Unidos da América é, nesse sentido, um testemunho essencial para que tomemos consciência plena dos enormes desafios que temos pela frente. Desde logo, pela demonstração evidente de que nada pode ser feito contra a vontade popular. E, a julgar pelos sinais de dissensão que se acumulam no horizonte, os sinais dos tempos não correm a favor de quem acredita nesta ideia generosa que, convém não esquecer, deu-nos quase seis décadas de paz e prosperidade.

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Fonte:  Jornal do Barreiro