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Os limites da mudança política

Maria Segre Publicado em 24.11.2010

A recente derrota dos democratas nas eleições nos EUA, após dois anos de governança do presidente Obama, poderá ser considerada um indício com relação aos limites da política norte-americana de mudança.

Os republicanos, objetivando vencer as eleições intermediárias e derrubar a política dos democratas, investiram gigantescos volumes de recursos monetários, colocaram em funcionamento total o profundo establishment conservador da sociedade norte-americana, acusaram Obama de ser de religião muçulmana e combateram duramente as reformas dos democratas, principalmente as do setor de previdência social e do sistema financeiro.

O presidente Obama adota uma política fiscal mais generosa, em antítese com a política européia de severa frugalidade fiscal e disciplina monetária. É óbvio que assim são favorecidos os cidadãos norte-americanos, enquanto acontece o exatamente o oposto na Europa. A reforma na previdência social favorece a classe média norte-americana, enquanto a reforma na União Européia, em que são promovidos cortes na proteção social, atinge a maior parcela dos trabalhadores europeus.

Apesar do fato de que os democratas nos EUA não seguem a política que haviam anunciado, como a haviam sonhado os milhões de pobres das camadas sociais mais baixas, quando votaram maciçamente em Obama, ninguém pode duvidar que ainda mantêm alguns de seus compromissos, fato que - ao que tudo indica - incomoda uma considerável parcela de interesses empresariais conservadores.

A movimentação pré-eleitoral de todos estes interesses conservadores, que sentem-se "atingidos" pela política de Obama, era algo sem precedentes. Simultaneamente, o descumprimento de vários compromissos pré-eleitorais desdenhou os democratas aos olhos de milhões norte-americanos que haviam proclamado Obama símbolo de mudança nos EUA e no mundo há dois anos.

Mídia poderosa

O persistente desemprego nos EUA, o qual já atingiu 10%, e a insegurança da crise, a qual apavora as camadas da população de classe média, em sintonia com as promessas dos conservadores e a ênfase do extremamente conservador movimento Tea Party, explica também a reviravolta da massa eleitoral dos norte-americanos e mostra quão frágil era a aliança das micro e médias camadas sociais norte-americanas que garantiu a vitória de Obama.
Esta evolução nos EUA pode ainda mostrar quão prematuro poderá ser comprovado um lampejo democrático, quando não estiver alicerçado sobre profundas raízes ideológicas e políticas. Por outro lado, parece quão grande influência sobre as micro e médias camadas sociais poderão exercer todos aqueles que possuem modernos veículos de comunicação.

A derrota dos Demoratas nestas eleições intermediárias não significa que a possibilidade de Obama manter sua política orientada mais conservadoramente está perdida. Entretanto, constitui um "lembrete" dos limites que tem a mudança política em um país com grandes contradições políticas e sociais e o qual constitui a metrópole do sistema capitalista.

Se, aliás, forem confirmadas as avaliações das pesquisas atuais, as quais mostram que a maioria dos norte-americanos considera que Obama não pode e não deve candidatar-se novamente nas próximas eleições presidenciais, então, torna-se mais visível a gigantesca força dos círculos conservadores que compõem o malcheiroso "establishment wasp" que define as evoluções políticas nos EUA.

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Fonte: Monitor Mercantil