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As contas financeiras do divino rosário

Jorge Messias Publicado em 07.10.2010

No Vaticano nada se faz ao acaso, nada se improvisa. Sobretudo no seu bastião central, na área onde funciona o seu aparelho de governo universal, no seu «quadrado do poder». Aí, a disciplina é inflexível.

Alegadamente, o esquema orgânico, adoptado uma vez por todas mas adaptado aos novos tempos, é prioritariamente dirigido aos órgãos vitais eclesiásticos que o dogma rigidamente define. Mas depois, generaliza-se a todos os níveis eclesiais, a todas as instituições laicas da «sociedade civil» e a todas as áreas onde a Igreja se instala. Convém, por isso, recordar o organograma da área financeira eclesiástica, o sistema sanguíneo da Igreja romana desde a sua base até ao topo. Funciona para a Igreja como modelo universal.

I . O patamar do esquema financeiro da Santa Sé é ocupado totalmente pelo Banco do Vaticano, também conhecido por IOR (Instituto das Obras Religiosas). O banco muda frequentemente de dirigentes, sendo esclarecedor que actualmente o seu presidente do Conselho de Administração, numa época de crise tão grave como esta que o capitalismo atravessa, seja desempenhado por um banqueiro laico, Ettore Tedeschi, igualmente representante para toda a Itália do gigantesco grupo bancário espanhol Santander.

II. No degrau seguinte da pirâmide funciona uma apertada rede de controlo dos dinheiros da Igreja, constituída por uma «Comissão de Cardeais» – o «Instituto para as Obras Religiosas» – nomeada pela Cúria Romana e coadjuvada pela «Prefeitura para os Assuntos Económicos da Santa Sé» e pela «Congregação para a Evangelização dos Povos», institutos constituídos por cardeais e especialistas financeiros cuja atenta supervisão é avaliada pela «Secretaria de Estado do Vaticano» e pela «APSA – Associação do Património da Sede Apostólica» – órgão que administra todos os bens da Santa Sé.

III. Finalmente e como sempre acontece no Vaticano, a última palavra pertence ao Papa. É ele que aprova ou veta cada decisão e «possui a plenitude de todo o poder legislativo, executivo e judiciário», tal como o reconhece a «Lei Fundamental» do Vaticano.

O Papa, «sucessor de S. Pedro», só é responsável perante Deus. E é «patrão» (dirige directamente) de 4 milhões de leigos com funções executivas na sociedade civil, de 4500 bispos, de 405 mil padres, de 865 mil diáconos, de 26 600 missionários leigos e de 2,5 milhões de catequistas. Para este enorme contingente disperso por todo o mundo, a palavra do Papa é sagrada. São empresários, militares, médicos, engenheiros, professores, autarcas, homens do povo, operários, que raramente reconhecem filiação política ou ideológica mas que detêm lugares de destaque na «sociedade civil» que o Estado laico paga e a Igreja explora.

Num espaço limitado, é impossível ir-se muito além na estimativa dos poderes do Vaticano. Destaque-se no entanto, nesta breve exposição, o facto de ser evidente a mentira que é a hierarquia afirmar desconhecimento ou inocência na sucessão de escândalos que abalaram e continuam a abalar a Igreja católica. Quer na área financeira, quer no âmbito das competências que são atribuídas ao «Estado social» nos regimes laicos com separação de poderes mas onde a Igreja surge cada vez mais como dona e senhora.

A isso voltaremos.

Nestas áreas vitais da organização do Estado, o objectivo puro e simples da hierarquia é a subversão do ensino, da saúde e da segurança social, dividindo sectores, fragilizando os serviços nacionais, privatizando e reprivatizando e comprando os conteúdos, embora mantendo nomes, designações e títulos. O que se passa em Itália pode servir para ilustrar todos estes jogos encapotados.

Só nesse país, o Estado paga anualmente à Igreja mais de 5 mil milhões de euros para além das verbas que a Concordata estipula. Não o faz abertamente, entregando um cheque à Cúria Romana. Paga anonimamente a partir das disposições consagradas nos acordos bilaterais mas segundo «leituras» que excedem sistematicamente os termos concordatários. Cede sem resistências nem escrúpulos nas isenções, bonificações e apoios generosos a escolas, hospitais, lares, fundações, agências de turismo, etc., desde que as empresas ou grupos se declarem católicas e não-lucrativas. Os excedentes deste caudal financeiro são depois «doados» pelos beneficiários a um fundo privado dos papas (o «Óbolo de S. Pedro»), oficialmente considerado como reserva financeira das «Obras de caridade religiosas». Os depósitos efectuam-se no Banco do Vaticano que os recebe mas não os contabiliza. Declara o IOR: «Nós dependemos do Santo Padre ao qual todos os anos entregamos os seus lucros!».

De nada mais reza a História.

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Fonte: jornal Avante!