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Afeganistão-Paquistão: No epicentro o mitológico custo da guerra imperialista

Georges Pezmatzoglu Publicado em 06.07.2010

A demissão do general Mac Chrystal não altera os alvos da ocupação

Afeganistão e a mais ampla região do Sul da Ásia nas fronteiras com o Grande Oriente Médio constituem os mais indiscutíveis alvos dos imperialistas e, especificamente, dos EUA, a fim de controlarem tanto os gigantescos recursos naturais desta região quanto as rotas energéticas que atravessam estes países.

A guerra imperialista no Afeganistão completa, neste 2010, nove anos de batalhas sangrentas com as forças de ocupação dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte(OTAN) “perdendo terreno”, tanto nas consciências do mundo quanto em nível operacional. A crise econômica, em sintonia com o elevadíssimo custo da guerra em vidas humanas e recursos econômicos, assim como as revelações de que a própria ocupação já está, literalmente, financiando o Taliban há tempo, podem provocar violentas reações nos EUA, exigindo o fim da guerra no Afeganistão. Isso obrigará o presidente Barack Obama tentar “baixar a poeira” das impressões causadas, prometendo, supostamente, a “retirada das tropas norte-americanas” a partir do ano que vem para, em seguida, esclarecer que “os EUA não abandonarão o alvo, mas, simplesmente, atribuirão maiores responsabilidades ao governo local” que, obviamente, atenderá seus interesses.

Apesar das promessas de “retirada”, Obama aprovou o envio de mais 30 mil soldados norte-americanos ao front, prometendo , novamente, uma última e crítica escalada da guerra a fim de derrotar o Taliban e, com isso, os EUA conseguirem evoluir do regime de ocupação ao status de protetorado. Os planos dos EUA para o Afeganistão eram de transferir aquele front das forças norte-americanas que, supostamente, seriam retiradas do Iraque, algo, como era de se esperar, não avançou.

Naturalmente, nos planos operacionais para um último lampejo da guerra, os EUA direcionaram suas exigências aos seus aliados da Otan que, no entanto, não se mostraram dispostos de aumentar o número de seus efetivos e de seus gastos no Afeganistão, sequer em condições de “convulsão social”. Por causa da “crise” atiçarem o sentimento popular negativo, aumentando o número de seus efetivos e em consequência seus gastos.

Divergências e declarações

Tanto o custo da guerra quanto as divergências entre os “estrelados” líderes militares que participam da aliança EUA-Otan resultaram em profundas desavenças. O até recentemente o comandante-geral de todas as forças dos EUA e Otan no Afeganistão, general Stanley Mac Chrystal, foi o primeiro que explodiu provocando as primeiras mudanças e reestruturações. As declarações do general na revista “Rolling Stone” – que repetidamente havia pedido mais tropas e recursos para fortalecer o front, – contra o vice-presidente dos EUA, John Biden, mostraram que, o Afeganistão, na realidade, constitui apenas a ponta do iceberg. O general Mac Chrystal escolheu como o alvo Biden, acusando o total do governo Obama de exigir progresso na guerra, sem ter a menor idéia sobre o que está acontecendo no front do Afeganistão. Resultado, a imediata demissão de Mac Chrystal pelo Obama, que caracterizou o específico comportamento de seu subordinado como “poder militar desdenhando o poder civil”, caracterização pesada que, indireta, claramente insinua tentativa de “golpe de Estado”.

Com resumidos processos Mac Chrystal já passou a constituir passado para o Afeganistão e o seu cargo foi assumido pelo seu chefe, general David Petraeus, comandante-supremo das forças aliadas no Iraque e no Afeganistão. Entretanto, sob as pesadas caracterizações, a situação é clara, porque tanto o governo Obama quanto Mac Chrystal não divergem quanto a progressão dos interesses imperialistas na região. Mas, então, por que Obama demitiu Mac Chrystal? Foi um simples caso de “desacato à…autoridade”.

Fracassos e escândalos

Por enquanto, a situação no Afeganistão não parece estar nos conformes positivos com as forças da ocupação, considerando que o Taliban está se recompondo e fortalece sua popularidade entre o povo afegão. Nas regiões que eram dominadas pelas forças dos “aliados” da Otan, o Taliban já assumiu as rédeas, apesar das confirmações dos “estrelados” generais europeus de que a situação está sob o pleno controle das forças da ocupação. Simultaneamente, as forças do Taliban mostram estar dominando no vizinho Paquistão, onde já constitui seu refúgio natural, além de colaborarem, estreitamente, com os múltiplos serviços secretos paquistaneses. E anotem: os guerrilheiros do Taliban, desde a década de 1980 quando colaboravam com os EUA – sim, com os EUA – contra a União Soviética e o governo socialista local, eram financiados, alimentados e armados pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA, que hoje tenta desesperada e inutilmente transformá-los em caça, quando – na realidade – o Taliban é hoje o indiscutível caçador.

Guerra contra o Paquistão

O vice-presidente norte-americano, John Biden, motivo principal da “queda-de-braço” de Mac Chrystal com a Casa Branca, defende a cruzada da abertura de um front de guerra contra o Paquistão, algo com o qual o general Petraeus, comandante-supremo das forças norte-americanas no Afeganistão e no Paquistão, parece concordar, ao contar com a absoluta cobertura de várias figuras do governo de Islamabad. Paralelamente, o vice-presidente Biden, quer porque quer, “uma guerra mais barata”, objetivando conseguir reduzir as reações nos EUA e, “calar-a-boca” de seus adversários políticos apresentando resultados diretos e imediatos.

A até recentemente adotada estratégia no Afeganistão era de as forças norte-americanas de ocupação tentarem conseguir aproximar-se dos guerrilheiros do Taliban oferecendo-lhes planos como a “concialiação nacional” proposta pelo corrupto presidente afegane, Hamid Karzai) e, assim, aproximar-se dos “capitães-do-mato” líderes tribais, oferecendo-lhes vantagens econômicas e o controle sobre o governo de Karzai. O “sucesso” desta estratégia está sendo fortemente desdenhado pelas recentes revelações, segundo as quais as forças da ocupação estão financiando os guerrilheiros do Taliban e até contratando-os como “seguranças” contra outros grupos de guerrilheiros. Assim, os guerrilheiros do Taliban, fortalecidos pela “transfusão de sangue” de verbas secretas de guerra dos norte-americanos, os contra-atacam mais duramente ainda. Estas revelações – por sua vez – têm repercutido junto ao povo afegane que já se declara convicto da colaboração do Taliban com as forças dos EUA contra a população civil desarmada. Aliás, os recursos deste “financiamento” foram o motivo que fez com que a liderança afegane – em peso – defendesse o defenestrado general Mac Chrystal, destacando “seu trabalho positivo” e caracterizando sua demissão como um “gigantesco erro”.

Com o descontentamento em alta, não pode ser considerada casual a estatização da riqueza mineral e, especificamente, das gigantescas reservas de lítio, além de outras fontes de recursos energéticos do Afeganistão que, em determinado momento, poderão convencer os EUA de que esta guerra poderá dar lucros significativos se, finalmente, for vencida. Os dados específicos, naturalmente, não foram descobertos agora pelos serviços secretos norte-americanos, mas, ao contrário, têm como objetivo acionar, tanto as forças aliadas da Otan, assim como criarem novas “amizades” com potências emergentes que buscam reivindicar uma fatia do bolo da guerra como Rússia, Índia e China, que já começaram seus investimentos em reservas de minérios.

Sem mudanças

As mudanças na liderança das forças de ocupação não se espera que serão essenciais para a estratégia da guerra, considerando que o “estrelado” general Petraeus era, e continua sendo, comandante-geral das forças norte-americanas e aliadas no Iraque e no Afeganistão. O que resta transparecer é quão rápido eclodirá a escalada contra o Paquistão, ampliando a carnificina, evoluirão as operações, como o esperado grande conflito em Kandahar que, embora parecem estar “atrasadas” em nada demonstram que os EUA abandonarão seus interesses imperialistas na região.

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Fonte: Monitor Mercantil