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O novo plano-piloto de Israel de “decapitação”, em Jerusalém

Khaled Amayred Publicado em 03.07.2010

Poucos dias antes da data marcada para sua visita a Washington, dia 7/7, o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu parece estar deliberadamente minando os esforços do presidente Obama para fazer avançar as “conversações indiretas” entre Israel e a Autoridade Palestina (AP).

Essa semana, organizou-se um grupo, no governo israelense, para aprovar “plano-piloto sem precedentes” de expansão das colônias exclusivas para judeus, que conseguirá efetivamente – em palavras de funcionário da AP – “decapitar” a identidade árabe de Jerusalém Leste.

O plano implica a construção de dezenas de milhares de unidade habitacionais exclusivas para judeus em Jerusalém Leste, a serem construídas em terras que são hoje propriedade de árabes.

O Conselho Municipal de Jerusalém, controlado por fanáticos judeus radicais, que pregam a limpeza étnica (expulsão) dos não-judeus, está trabalhando para obter do governo qualquer sinal de luz verde.

Em essência, o projeto que está sendo elaborado não deixará espaço algum para a expansão dos árabes em Jerusalém, definindo como “reserva para desenvolvimento judeu” todas as “áreas verdes” e espaço não construído.

A população de cerca de 270 mil árabes jerusalemitas já vivem confinados em apenas 13% da área de Jerusalém Leste; mais de 85% da área da cidade já foi tomada por autoridades israelenses desde 1967, quando Israel ocupou Jerusalém Leste e o que restava da Cisjordânia.

Segundo funcionários palestinos, o plano – se executado – será ponto sem volta no conflito entre israelenses e palestinos e sem dúvida determinará o colapso, potencialmente violento, do já incerto e periclitante processo de paz.

“Não creio que o processo de paz sobreviva àquele plano para expandir as colônias israelenses exclusivas para judeus em Jerusalém. De fato, o objetivo do plano é matar e enterrar qualquer esperança de paz que ainda haja”, disse Ghassan Al-Khatib, porta-voz da AP em Ramallah. “É mais que provocação. É a decapitação do processo de paz.”

O presidente Mahmoud Abbas da AP disse a jornalistas em Ramallah, dia 29/6, que “Nada ouvimos vindo de Israel que nos estimule a continuar negociando. Veremos o que Mitchell [enviado dos EUA] traz, dessa vez. Se trouxer respostas positivas dos israelenses, talvez seja possível evoluir para conversações diretas. Mas até agora nada ouvimos que nos estimule a dar andamento a qualquer conversação.”

Mitchell era esperado em Ramallah na 5ª-feira, 1/7; e os planos de colonização e expansão dos israelenses devem ter prioridade na agenda de discussão com Abbas. Desde que assumiu a missão de enviado à Região, Mitchell já esteve 18 vezes em Ramallah, sem, até agora, tem obtido qualquer progresso real.

Funcionários israelenses, inclusive Netanyahu, têm evitado cuidadosamente qualquer referência mais detalhada ao plano. Essa reticência parece motivada pelo desejo de não tumultuar a próxima visita de Netanyahu a Washington.

A mídia em Israel tem noticiado que o governo Obama mostra-se frustrado pelo passo muito lento do processo de paz, sobretudo pelo adiamento das conversações diretas entre israelenses e palestinos. Washington tem insistido em que os dois lados encontrem-se para conversações diretas, ainda que nada sugira que contatos diretos impliquem qualquer diferença no resultado nenhum das conversações até aqui.

Netanyahu também tem exigido que a Autoridade Palestina aceite conversações diretas. Mas é bem evidente que essas exigências só visam a dar a falsa impressão de que os palestinos dedicam-se a impedir o ‘avanço’ do processo de paz. O premier israelense pode também ter interesse em não atrair atenção para os planos radicais de expansão das colônias de ocupação exclusivas para judeus, depois de expirado o prazo de uma muito mal intencionada moratória nas construções em terras árabes, imposta, de fato, por pressão dos EUA, no início do ano.

Por outro lado, Netanyahu parece convencido de que o governo Obama é, em grande parte, tigre de papel, e que o poderoso lobby dos judeus norte-americanos derrotará o presidente, em qualquer confronto sobre Israel. Nesse ponto, o cálculo de Netanyahu não parece desprovido de boas razões. Muitos senadores e deputados dos dois partidos, nos EUA, já censuraram Obama por “pressionar excessivamente Israel”.

Ilustração dessa excessiva confiança de Israel, essa semana o governo israelense aprovou plano para demolir 22 casas de famílias árabes na área de Silwan, em Jerusalém Leste. A demolição gigante é parte de plano mais amplo para demolir centenas de casas árabes naquela área densamente povoada de árabes. Israel diz que planeja construir um parque talmúdico e instalações para turistas, que tornem a área mais “atraente”.

Os palestinos em Jerusalém Leste, exasperados pelos incansáveis esforços israelenses para expulsá-los ou cercá-los em gueto, ameaçam levante geral. “É como se os israelenses nos empurrassem para uma situação em que nada mais temos a perder”, disse H Abu Saud, morador antigo da cidade. “Israel empurra os jerusalemitas para o confronto. O que você faria se enfrentasse perseguição e violência diária, há tanto tempo?”

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Fonte: Al-Ahram Weekly, Cairo

http://weekly.ahram.org.eg/2010/1005/re1.htm

Tradução: Caia Fittipaldi