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Sangue nos Trilhos de Cachoeiro de Itapemirim - ES: Integralistas e Comunistas e a disputa pela memória do conflito de 1935*

Pedro Ernesto Fagundes Publicado em 17.06.2010

Cachoeiro de Itapemirim, 01 de Novembro de 1935: um grupo de integralista da localidade de São Vicente se dirigia para Cachoeiro em cima de um caminhão e, na altura do km 11 da ferrovia, nas proximidades do local conhecido como Morro Grande, todos foram surpreendidos por vários tiros que teriam sido disparados por indivíduos escondidos no matagal existente às margens da estrada. A tocaia resultou na morte do jovem lavrador Alberto Secchin, de apenas 18 anos. Esse acontecimento foi a senha para desencadear um dos momentos mais conturbados e trágicos da História Política da cidade de Cachoeiro de Itapemirim.

Epílogo.

Cachoeiro de Itapemirim, 01 de Novembro de 1935: um grupo de integralista da localidade de São Vicente se dirigia para Cachoeiro em cima de um caminhão e, na altura do km 11 da ferrovia, nas proximidades do local conhecido como Morro Grande, todos foram surpreendidos por vários tiros que teriam sido disparados por indivíduos escondidos no matagal existente às margens da estrada. A tocaia resultou na morte do jovem lavrador Alberto Secchin, de apenas 18 anos. Esse acontecimento foi a senha para desencadear um dos momentos mais conturbados e trágicos da História Política da cidade de Cachoeiro de Itapemirim.

O cenário e os protagonistas da disputa.

Nessa época a cidade era um dos mais importantes centros urbanos do Espírito Santo. Inclusive rivalizando com a capital, Vitória, em muitos aspectos, como nas áreas cultural, política, econômica e esportiva. Entre os presidentes da província capixaba (forma como eram denominados os atuais governadores do estado) eleitos durante as primeiras décadas do século XX, muitos eram cachoeirenses, com destaque para a figura de Jerônimo Monteiro. Também, era da região sul o título de maior fornecedora do produto agrícola de exportação mais importante durante a Velha República: o café.

Foi nesse cenário que atuaram representantes de duas organizações políticas que, também em Cachoeiro, protagonizaram as mais acirradas disputas políticas durante a década de 1930. De um lado estava a Aliança Nacional Libertadora (ANL), entidade fundada e organizada sobre a influência do Partido Comunista do Brasil (PCB) e da Terceira Internacional Comunista.

A organização fazia parte do projeto de consolidação e ampliação do número de adeptos da causa comunista no país. A ANL tinha como meta principal, angariar a simpatia de amplos setores da sociedade brasileira, principalmente, das camadas mais abertas para propostas de cunho social e de defesa da soberania nacional, como a luta anti-imperialista. O líder comunista Luis Carlos Prestes, antigo participante do movimento Tenentista, foi aclamado presidente de honra da agremiação.

Historicamente Cachoeiro de Itapemirim é considerado o berço do movimento sindical do ES. Datam de 1909 os registros da fundação de um pioneiro órgão de representação classista no município: o Centro Operário e de Proteção Mútua. São também reconhecidas a força e a capacidade de mobilização de vários sindicatos ali existentes na década de 1930, entre eles, o sindicato dos funcionários da Fabrica de Tecidos, o Sindicato dos Carreteiros, o Sindicato dos Ferroviários da Leopoldina e do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, local que serviu de sede para a ANL em Cachoeiro. Teria sido, segundo o depoimento do dirigente comunista Guilherme Tavares, também nesta cidade sulina, que surgiu a primeira célula do Partido Comunista no estado, sobre influência dos estreitos contatos entre os ferroviários cachoeirenses e os do Rio de Janeiro.

A capacidade da ANL em agregar vários atores sociais no município pode ser medida pela matéria publicada no jornal Correio do Sul em que é relatada a organização de um comício monstro dos aliancistas da cidade. Segundo a edição do jornal, do dia 06 de julho de 1935, a ALN havia programado a realização de um grande comício no campo do Estrela do Norte Futebol Clube (ENFC), ainda segundo a matéria, a prefeitura chegou a decretar feriado na parte da tarde para que todos os trabalhadores pudessem comparecer.

Entretanto, seguindo orientações de Vitória, o delegado do município não autorizou a realização do comício no estádio do ENFC e as atividades programadas foram transferidas para a sede da ALN. Entre os oradores que ministraram palestras estava o professor Waldemar Mendes. Mesmo sendo realizada em outro local, segundo o jornal, a concentração reuniu, aproximadamente, mil e quinhentas (1500) pessoas.

No cenário internacional a Crise de 29 fez surgir um forte sentimento contrario às idéias e propostas Liberais. Em vários países, especialmente na Europa, surge a noção de que apenas regimes que privilegiassem um sistema baseado no fortalecimento e centralização do Estado e que fossem liderados por um líder carismático seriam a única alternativa para solucionar os problemas econômicos e barrar a ascensão da propaganda comunista. Países como Alemanha, Itália, Portugal e Espanha acabaram aderindo a essas propostas que ficaram conhecidas como Nazi-fascistas ou autoritárias. (CAPELATO, 2003).

É nesse ambiente que surge a Ação Integralista Brasileira (AIB) que, fundada em outubro de 1932, foi, dentre as organizações que defendiam valores nacionalistas segundo MAIO e CYTRYNOWICZ (2003), a que alcançou maior projeção e nível de organização. A AIB foi criada a partir da aglutinação dos seguintes pequenos grupos e partidos de extrema direita: Ação Social Brasileira, Partido Nacional Fascista, Legião Cearense do Trabalho, Partido Nacional Sindicalista, Legião 03 de Outubro e o grupo monarquista Ação Imperial Pátrio-novista.

No Brasil a AIB começou a expandir sua influência a partir das chamadas Bandeiras Integralistas, quando partiu em caravana para várias cidades e regiões do Brasil. Essas Bandeiras tinham o objetivo de divulgar as idéias do movimento e, ao mesmo tempo, fundar núcleos, como assinala CARONE (1976),

“...em agosto de 1933, Plínio Salgado, Gustavo Barroso e outros, embarcam para o Norte do país, tendo feito conferências em Campos, Vitória, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, Paraíba, Fortaleza, São Luís, Belém e Manaus, sendo fundados núcleos em algumas cidades”. (CARONE, p. 207, 1976).

Os trabalhos de Hélgio Trindade, escritos na década de 1970, ainda são consideradas referências obrigatórias sobre o tema, pois, esse autor foi o primeiro a publicar pesquisas acadêmicas a respeito do integralismo. As obras de TRINDADE (1974; 1997), consideram que pelo seu conteúdo ideológico, organização hierárquica e rituais e, tendo em vista a conjuntura externa e interna das décadas de 1920 e 1930, que a AIB pode ser tipificada como uma organização que sofreu forte influência dos modelos fascistas europeus.

A discussão sobre a existência de um discurso anti-semita entre os integralistas é o tema principal do trabalho de CHOR (1988). Para o autor entre os três principais lideres da AIB coube a Gustavo Barroso, nem sempre com o apoio oficial da organização, o papel de divulgador de obras e idéias de caráter anti-semitas no Brasil. Inclusive, seria atribuída a Gustavo Barroso a publicação em português do panfleto Protocolos dos Sábios de Sião, obra que apontaria a existência de uma conspiração mundial judaica.

A visão negativa em relação aos judeus, sobretudo, críticas a sua intensa participação no mercado financeiro internacional é o que impulsionou os discursos e textos de Gustavo Barroso. Ainda segundo CHOR (1988), de maneira pública a AIB nunca assumiu uma postura anti-semita, inclusive, Plínio Salgado chegou a desautorizar, pelos jornais integralistas, as opiniões de Gustavo Barroso sobre o tema.

O trabalho de CAVALARI (1999), aponta como característica marcante nos integralistas a forma como se apresentavam em público: sempre vestidos de camisas verdes com gravatas pretas: daí o motivo de serem chamados de camisas-verdes. Tinham como símbolo o sigma, que na matemática é utilizado para realizar o cálculo integral, numa alusão à necessidade de integrar todos os brasileiros. A palavra de origem tupi-guarani, Anauê era usada como sua forma de saudação.

Qualquer semelhança entre essas demonstrações públicas da AIB com os desfiles e celebrações Nazistas e Fascistas não seria mera coincidência. Esse conjunto de práticas de apresentação seria na verdade, para CAVALARI (1999), o mais importante sinal de proximidade entre o movimento integralista e dos regimes fascistas da Europa. A autora conclui afirmando que a AIB foi o primeiro partido de massa do Brasil.

Um outro destacado estudo que pretende interpretar o conteúdo ideológico do integralismo é o trabalho de ARAÚJO (1988). Este autor faz um profundo mergulho na produção literária de Plínio Salgado, incluindo o período anterior à fundação da AIB, quando Salgado participou dos movimentos literários modernistas da década de 1920. Para ARAÚJO (1988), a obra pliniana representaria a mais bem acabada e elaborada fundamentação teórica do integralismo. Sendo assim, o autor afirma ainda que, se implementadas, as propostas de Salgado colocariam o Brasil no mesmo grupo dos países que adotaram regimes totalitários.

O livro de ARAÚJO (1988), deixa nítido que para Plínio Salgado o integralismo era uma verdadeira concepção de vida, que demandaria a transformação completa da mentalidade da população brasileira. As formas alternativas de organização social do país como o “jeitinho” ou a histórica apatia e desinteresse pelas questões coletivas teriam que ser substituídas por um sistema de mobilização e participação ativa de todos os cidadãos, ou seja, esta seria a única e verdadeira revolução, a revolução espiritual que permitiria a criação do Estado Integral e, logo em seguida ocorreria a maior de todas as transformações que abriria caminho para fundação da Quarta Humanidade.

Outro autor que realizou pesquisas sobre os integralistas foi BERTONHA (2001; 2002). Suas pesquisas têm como fontes principais documentos oficiais e correspondências trocadas entre membros da AIB e do governo italiano que apontam a existência de um intercambio teórico e, principalmente, de ajuda financeira dos fascistas italianos ao movimento brasileiro. As propostas da organização conseguiram garimpar um apoio considerável entre os descendentes de italianos, sobretudo, nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. O autor afirma que a idéia de criar a AIB teria ocorrido após uma viagem, de Plínio salgado à Itália, onde manteve contatos com o regime Fascista Italiano, inclusive sendo recebido pessoalmente por Mussolini.

De todos os trabalhos que foi possível ter acesso para a elaboração desse projeto de pesquisa, o único que apresenta uma maior abordagem das práticas cotidianas da AIB foi o de CALDEIRA (1999). Em sua pesquisa o autor pretendeu investigar a implantação, atuação e desenvolvimento dos integralistas no estado do Maranhão, buscando pesquisar como foi a receptividade às idéias e propostas dos camisas-verdes em um estado pobre e de características agrárias.

Outro trabalho que tem como foco central a análise das atividades dos integralistas é o de CHAVES (1999), que pesquisou os caminhos percorridos pela AIB no Paraná, região onde a organização chegou a jogar um importante papel na cena política, principalmente na cidade de Ponto Grossa, onde nas eleições municipais de 1935 os integralistas elegeram quatro das oito cadeiras da Câmara Municipal. Esses dois últimos trabalhos possibilitaram compreender qual a real dimensão da força e da capacidade de organização do movimento integralista no país. A leitura dessas obras também nos permitiu verificar que AIB se estruturou em todas as regiões do Brasil, se caracterizando, de fato, como o primeiro partido de massa brasileiro.

Na cidade de Cachoeiro de Itapemirim a trajetória da AIB teve inicio no dia 15 de Maio de 1935, com a fundação oficial do núcleo integralista da cidade, como indica matéria publicada na primeira página do jornal Correio do Sul:

“Realizou domingo uma concorrida reunião de camisas-verdes, no salão de festas do CCC, em perfeita ordem, num ambiente de respeito e de entusiasmo, com uma concorrência numerosa, realizou-se domingo à noite a primeira reunião pública integralista em Cachoeiro. De Vitória vieram os sr. J. Linhares, Chefe Provincial, Dr. Jair Dessaune e Otaviano Santos, secretários provinciais, que expuseram em seus discursos as doutrinas pregadas pelo Chefe Nacional, Plínio Salgado.(...) Ao findar a reunião prestaram juramento de praxe 23 integralistas cachoeirenses. Foram designados na sessão como coordenadores do núcleo da cidade os senhores: Nelson Silvan, Cladistone Rubim, Calbi Rego e Darci Pereira” (Jornal Correio do Sul, pg. 01, 15/05/1935).

Sobre a organização do núcleo cachoeirense da AIB podemos verificar que a essa cerimônia compareceram vários representantes dos camisas-verdes de outros municípios do Sul do estado, entre eles de Castelo, de Muqui, de Alegre e, algo impressionante, 45 representantes do núcleo distrital da AIB de Floresta (atual distrito de Burarama).

Esse fato foi confirmado pelo depoimento do ex-coordenador da AIB de Cachoeiro de Itepemirim, Nelson Silvan, segundo o ex-dirigente integralista,

“Então nós convidamos aqui o Dr. Dessaune e ele veio a Cachoeiro com outras pessoas, no Caçadores, e nós fundamos o núcleo Integralista de Cachoeiro de Itapemirim (...) com a presença do núcleo de Burarama, que já existia e era liderado pelo João Gava e pelo João Perin”. (SILVAN, Nelson. Entrevista concedida a Pedro Ernesto Fagundes, em 29 de Abril de 2004).

Talvez de maneira singular esse possa ser o único registro, no país, de um caso em que um núcleo distrital foi fundado primeiro que o núcleo da cidade sede do município. Um dos fatores que poderia justificar a destacada presença integralista de Floresta era a grande presença de imigrantes de origem italiana ou até mesmo a proximidade com o município de Castelo, outra região que também foi fortemente marcada pela presença de colonos de origem italiana. Em Castelo, a AIB deu uma nítida demonstração de seu poder nas eleições municipais de 1935 quando seu candidato a prefeito ficou em segundo lugar na disputa.

Outro importante momento na trajetória da AIB em Cachoeiro foi a realização de um desfile pelas principais ruas da cidade.

“Nós fizemos uma parada grande. Reunimos lá em Pacotuba (...), todo mundo de caminhão, viemos até Cachoeiro e fizemos um desfile aqui na cidade até o Coronel Borges, Baiminas, andamos pelo Centro da cidade, foi somente esta parada, desfile que nós fizemos e não fomos molestados. (SILVAN, Nelson. Entrevista concedida a Pedro Ernesto Fagundes, em 29 de Abril de 2004).

O fato de não terem sido molestados pode ser justificado pelo que nos informa uma matéria do Correio do Sul, sobre esta parada dos camisas-verdes: ao contrario do comício da ANL que foi proibido pelo delegado Florício Santos, o ato público da AIB não só aconteceu como contou com a proteção da polícia.

“O desfile causou, pela rigorosa disciplina e o maior respeito, além da própria expressão numérica dos integralistas, grande impressão na cidade (...) alguns aliancistas na Praça Jerônimo Monteiro pretenderam impedir o desfile, mais o delegado Florício Santos advertiu-lhes logo do inconveniente de semelhantes procedimentos e tudo terminou em paz. (Correio do Sul, pg. 01, 31/07/1935).

O Grande Ato.

Infelizmente para todos, essa paz não durou muito tempo. Como podemos observar no inicio do texto a morte do jovem integralista foi apenas um dos episódios desse trágico capítulo da vida política da cidade. Toda a agitação segundo reportagem publicada na edição de 23 de Outubro de 1935 do Correio do Sul, teve início com a divulgação da realização de um Congresso Integralista em Cachoeiro.

O núcleo municipal da AIB estava preparando-se para recepcionar, aproximadamente, cinco mil (5000) militantes do ES e de todos os outros estados da região sudeste. Entretanto, a maior expectativa era pela vinda, em pessoa, do Chefe Nacional dos integralistas, Plínio Salgado, para ser a principal atração do congresso. Em sinal de protesto os membros da ANL convocaram uma greve, como informa o citado jornal cachoeirense.

(...) e como o sr. Plínio Salgado, chefe dessa agremiação agitou a política, agitou, principalmente, a classe proletária cachoeirense que em sinal de protesto deu inicio a greve no dia 30 de outubro, paralisando-se vários serviços industriais da cidade, como os automóveis de aluguel.”(Jornal Correio do Sul, pg. 01, 06/11/1935).
Como já assinalamos, o ataque ao caminhão que causou a morte do jovem integralista foi mais um elemento que se somou ao clima de apreensão e medo que tomou conta da cidade. Ainda segundo o jornal, o dia de finados foi marcado pelo velório na sede da AIB, no centro da cidade, do corpo de Alberto Secchin. Seu sepultamento foi realizado no cemitério da localidade de São Vicente e, como informou o ex-militante Nelson Silvan, contou com o acompanhamento de uma comissão de integralistas.

No dia 03 de Novembro de 1935, tanto os integralistas como os aliancistas foram para a estação ferroviária receber a comitiva de Plínio Salgado. Sobre a presença de elementos ligados a ANL na estação temos o importante depoimento do dirigente comunista Guilherme Tavares, na época militante da Juventude Comunista, que estava com 13 anos de idade, e que acompanhava seu pai que, além de funcionário da Leopoldina, era filiado ao Partido Comunista.

“Eles organizaram a vinda de Plínio Salgado aqui (...), nós do Partido e da ANL achamos que Plínio Salgado não deveria desembarcar aqui. Ele vinha de trem naquela época. Na estação ficaram gritando não desembarca!... e eles gritando desembarca!... Ai ficou naquele desembarca, não desembarca, desembarca, não desembarca. E ai o pau quebrou!(...) Com o apoio do prefeito e da polícia os integralistas tiveram garantida a descida do Plínio Salgado. E o povo da Leopoldina, os carroceiros todos com paus e pedras nas mãos, esse pessoal era bravo mesmo! Não deixou ele saltar não (...) começou o tiroteio. A policia colocou uma metralhadora ali onde hoje é aquele beco em frente a Caixa Econômica e atirou e matou duas pessoas (...) Todo mundo correu.” (TAVARES, Guilherme. Entrevista concedida a Pedro Ernesto Fagundes, em 19/04/2004).

Na tentativa de rebuscar no passado, informações sobre os acontecimentos de 1935, encontramos dois outros importantes registros. Ambos estão na publicação editada pelo jornalista Luzimar Nogueira Dias, intitulada: 1935: Integralistas e Comunistas – 50 anos depois, uma história de prisões e assassinatos, lançada em 1985. Em seu trabalho o falecido jornalista entrevistou uma série de personalidades da vida política de Cachoeiro, que direta ou indiretamente tiveram algum envolvimento com a AIB ou com a ALN.

Entre esses depoimentos dois podem ser destacados os de Pedro Corrêa Reis, na época, dirigente do Sindicato da Construção Civil, e de Waldemar Mendes Andrade chefe da Aliança Nacional Libertadora no município. Vejamos o que disse esse aliancista.

“A polícia deve ter atirado. Uns dizem que era obra dos integralistas. Não foram eles. Foi a polícia. Talvez um discuido, um excesso da polícia , que sempre tem um dedo leve para essas coisas”. (ANDRADE, Waldemar Mendes. Entrevista concedida a Luzimar Nogueira Dias, em 1985).

A versão do também aliancista Pedro Corrêa Reis é muito semelhante ao relato de Guilherme Tavares. Para ex-sindicalistas, já falecido, o que houve foi um confronto em que integralistas e polícias trocaram tiros.
“Na estação estavam operários e trabalhadores de todas as categorias, esperando. O povo de Cachoeiro não queria que o congresso fosse realizado aqui. E não houve conversa. Os integralistas foram logo atirando. O capitão Nicanor Paiva, que estava de prontidão na estação, mandou que os trabalhadores se deitassem e revidou o fogo dos integralistas.” (REIS, Pedro Corrêa. Entrevista concedida a Luzimar Nogueira Dias, em 1988).
Outra testemunha ocular do acontecimento, porém com uma versão diferente das apresentadas, é o ex-militante da AIB, Nelson Silvam, que tinha vinte e três anos e foi um dos fundadores do núcleo

integralista de cachoeiro, inclusive, ocupando o posto de secretario de propaganda da organização. Nelson Silvan entrou para a AIB no ano de sua fundação, segundo ele próprio, após ler o manifesto dos integralistas, publicado em jornais de todo o país, e se identificar com as propostas nacionalistas. Ele é um exemplo evidente de como a mensagem do movimento conseguiu atrair a atenção de uma parcela significativa da juventude do Brasil, boa parte dos militantes da AIB tinha menos de 30 anos.

“chegava uma comitiva com o Gustavo Barroso, Plínio Salgado viria, mais não veio (...) a estação estava cheia de gente, muitos aliancistas, que era como nós chamávamos os comunistas(...) Naquela época era integralismo e comunismo. Então houve um tiro dentro da plataforma (...) nós estávamos na frente, de frente para a praça, quando ouvimos os tiros, entramos dentro da máquina, mas o maquinista botou a gente para fora, nós saímos pelo outro lado quando eu saí e vim em direção a frente da máquina eu vi (...) um cara que era até muito amigo nosso, Quitito, um chofer em Cachoeiro (...) ele com um revolver na mão, entendeu, ele foi alvejado por um integralista que estava, mais ou menos, ali pela casa da borracha (...) deu um tiro e o Quitito caiu. (SILVAN, Nelson. Entrevista concedida a Pedro Ernesto Fagundes, em 29 de Abril de 2004).

O fim ou um novo começo?

O tiroteio na estação ferroviária de Cachoeiro teve como resultado, segundo o Correio do Sul, dois mortos e um ferido. Entre os mortos estava Waldomiro dos Santos, negro, 33 anos, que recebeu dois tiros. A outra vítima fatal foi Orestes Cândido, pedreiro, 26 anos. O outro registro de ferimento a bala, este sem gravidade, foi do integralista, da cidade de Vitória, Milton Prado. Mesmo após quase sete décadas os fatos acontecidos naquela noite de 03 Novembro de 1935 ainda são carregados de desencontros e lacunas.

As principais fontes orais que utilizamos foram os relatos de duas pessoas que foram entrevistadas especificamente para essa pesquisa, são elas: o ferroviário aposentado, de 84 anos, Guilherme Tavares, ainda militante do Partido Comunista do Brasil e o ex-dirigente da AIB Nelson Silvan de 93 anos. Também utilizamos como material histórico os depoimentos de Pedro Corrêa Reis e Waldemar Mendes Costa, dois ex-militantes da ANL que tiveram seus depoimentos coletados pelo jornalista Luzimar Nogueira Dias e publicados na série Documento Histórico.

Antes de tudo, é importante apresentar uma concepção geral sobre História Oral. A metodologia da História Oral tem contribuído de maneira destacada para as investigações na esfera da Historiografia, além de ser determinante para o resgate da memória. Neste trabalho, a utilização dessa metodologia nos permitiu produzir uma série de documentos para posterior análise, principalmente, como já foi dito, depoimentos de ex-dirigentes e ex-militantes da ANL e da AIB, que constituem fontes de valor inestimável.

Utilizar a História Oral oferece para o campo da História Política uma oportunidade ímpar. O fato de a História Oral ocupar um espaço cada vez mais destacado no cenário das pesquisas na área das Ciências Humanas é um fenômeno que tem chamado a atenção de um número crescente de pesquisadores. Progressivamente, como indica THOMPSON (1992), a partir de meados da década de 1970, esse conceito foi se tornando mais presente e familiar aos pesquisadores que militavam nesse campo.

As grandes sagas da antiguidade só puderam ser preservadas e perpetuadas com o auxílio dos relatos orais. Historicamente esses relatos passavam de uma geração para a outra com o auxílio, insubstituível, da tradição oral . Isso se deve, fundamentalmente, ao fato de a História Oral ser um dos mecanismos de registro da história, anterior à invenção da escrita.

O caminho que levou a História Oral até a academia foi extremamente longo e cheio de percalços. A História Oral, durante muito tempo, foi vista com certa desconfiança. Para muitos historiadores as fontes orais não apresentavam o mesmo grau de confiança que as fontes escritas. Por esse motivo, as fontes orais só conseguiram começar a romper com as desconfianças que recaíam sobre si, como detecta THOMPSON (1992), após a Segunda Guerra Mundial.

O trabalho dos pesquisadores, primeiramente nos Estados Unidos, teve como objetivo coletar um conjunto de depoimentos de ex-combatentes. Foi a partir das gravações e análises desses depoimentos, que várias universidades da América do Norte começaram a abrir suas portas para pesquisas que tinham como fontes principais o testemunho oral.

Nos meios acadêmicos europeus, sobretudo na Inglaterra, a História Oral só conseguiu ocupar seu espaço e estabelecer-se como prática, entre os anos de 1960 e 1970. Como assinala o autor, a princípio essa metodologia foi vista como a oportunidade de se conhecer e dar voz às minorias como os operários, as mulheres, os negros, os homossexuais e os imigrantes. Nesse período, a História Oral se transformou em sinônimo de história dos excluídos.

Na análise de AMADO e FERREIRA (2001), a utilização da História Oral nas pesquisas científicas é um importante instrumento. Através desta metodologia será possível fundamentar as análises sobre aspectos marcantes do cotidiano dos militantes da AIB e da ANL. As autoras defendem um maior rigor teórico-metodológico, ou seja, a História Oral deve ser entendida como uma metodologia, que através do emprego de suas técnicas específicas, busca suscitar e despertar uma série de questões.

A História Oral não deve ser entendida apenas como um gravar e transcrever de fitas. O caminho que todo pesquisador deve trilhar passa, obrigatoriamente, pela Historiografia, pois é nesse território que os investigadores encontram o espaço para reflexão de seus dados com base em subsídios conceituais sobre a História e a Memória Social. Para as autoras, no momento da realização das análises desses relatos, orais ou escritos, as explicações das questões apresentadas devem estar fundamentadas, imprescindivelmente, na teoria da História. Em particular, esta é também a posição que adotaremos nesta pesquisa.

Em relação a Memória , para LE GOFF (1996), esse conceito pode ser definido como a capacidade de recordar. Essa seria uma característica exclusiva do ser humano, somente o homem enquanto sujeito pode se lembrar de fatos e acontecimentos internos e externos das sociedades. Existem variadas formas e modos de recordar. São os seres humanos que dão forma e conteúdo à memória, ou seja, a memória é um espaço da História. Assim, na atualidade, a História Social busca com seus métodos de análise investigar como e por quê a sociedade se lembra de determinados fatos e acontecimentos e procura esquecer outros.

Para NORA (1993), existiria um movimento dialético da lembrança e do esquecimento. Sendo, dessa forma, passível de serem afetados por manipulações, longos períodos de repetição monótona e repentinas revitalizações. O autor indica ainda que existiria uma diferenciação entre memória e História. Nesse sentido o historiador deveria perceber que a História seria uma representação do passado que demanda análise e discurso crítico, já a memória seria um fenômeno sempre atual: existiriam tantas memórias quanto grupos existentes na sociedade. Caberia ao profissional historiador lançar luz sobre o campo da memória para extrair o máximo de dados para a análise historiográfica.

Assim, depois de apresentarmos esses conceitos teóricos, fica mais compreensível entender a quantidade de contradições presentes nas entrevistas realizadas. Por este motivo utilizaremos os conceitos da chamada “Memória dividida” para analisarmos de maneira mais apurada os fatos. Antes é importante apresentarmos o conceito de memória que adotamos nessa interpretação.

Em relação às contradições dos depoimentos é possível identificar manifestações da chamada “Memória dividida”. Para PORTELLI (2001), ao relatar acontecimentos do passado, principalmente os mais traumáticos, os depoimentos dos atores sociais envolvidos podem entrar em choque. A memória pode estar mais fraturada ainda se os eventos narrados envolverem também choques físicos.

“Com o devido respeito às pessoas envolvidas, à autenticidade de sua tristeza e à gravidade de seus motivos, nossa tarefa é interpretar criticamente todos os documentos e narrativas, inclusive as delas. Como tentarei demonstrar, na verdade, quando falamos numa memória dividida, não de deve pensar apenas no conflito entre memória comunitária pura e espontânea e aquela “oficial” e “ideológica”, de forma que, uma vez demonstrada esta última, se possa implicitamente assumir a autenticidade não-mediada da primeira. Na verdade, estamos lidando com uma multiplicidade de memórias fragmentadas e internamente divididas, todas, de uma forma ou de outra, ideológica e culturalmente mediadas.” (PORTELLI, p. 106, 2001).

A partir desse esclarecimento, podemos passar para a análise das contradições. Uma das maiores dúvidas é sobre a autoria dos disparos no conflito da estação. Para o dirigente comunista os disparos foram feitos pela polícia militar, ou seja, não teria ocorrido um conflito e sim um massacre. Já para Nelson Silvan, e a matéria do Correio do Sul referente ao fato, o assassino do chofer Quitito foi o integralista Arnaldo Pretti, comerciante da cidade de Colatina-ES. Entretanto, nem o ex-dirigente integralista nem o jornal informaram qual, ou quais, foram os responsáveis pelos tiros que mataram o pedreiro Orestes Cândido e feriram o jovem integralista Milton Prado.
Fica a grande dúvida que pode ser esclarecida a partir da análise critica dos dados. Se a AIB se organizava em forma de milícia armada e se como aponta o depoimento de Nelson Sivan, sobre a presença de integralistas armados, muito provavelmente o assassino do pedreiro foi um filiado da AIB ou até mesmo um policial. Relembremos o que afirma o ex-dirigente integralista sobre presença de armas no evento analisado.

“(...) vinha a polícia lá pela rua gritando (...) um trem feio!. Eu e o companheiro que estava comigo, aí eu disse para ele, vamos lá para atrás da estação, corremos lá para o Hotel da Estação, lá eu vi outros companheiros e disse que o negócio estava muito feio e para quem tinha arma esconder. Aquele negócio todo, e aí a polícia apareceu lá, fez a revista e não viu nada.” (SILVAN, Nelson. Entrevista concedida a Pedro Ernesto Fagundes, em 29 de Abril de 2004).

Se houve um tiroteio é obvio que dele participaram apenas as pessoas que portavam armas de fogo. Se relembrarmos que Guilherme Tavares afirmou que os membros da ALN estavam armados apenas de paus e pedras fica mais evidente que, muito provavelmente, apenas os Integralistas e os policiais militares poderiam dispor de armas para alvejar a multidão. Outra fonte que pode reforçar essa versão é o trecho final da matéria do Correio do Sul.

“Foram aprehendidas inúmeras armas: revolveres, garruchas, etc. Uma nota curiosa: foi aprehendido também um revolver de pau, que o portador utilizava, com certeza, para fazer medo.” (Jornal Correio do Sul, pg. 01, 06/11/1935).

Um outro dado relevante é o fato do jornal refutar a possibilidade de policiais terem disparado contra a população apenas com o intuito de negar as noticiais surgidas, em jornais de Vitória e de Campos, que afirmavam esse fato. Porém, volto a insistir, é importante recordar que Cachoeiro recebera, naquele dia, um reforço policial de outros municípios do Sul do estado e também de Vitória, num total de quase 90 homens completamente estranhos ao cotidiano da cidade.

Todas estas informações podem apenas indicar novas hipóteses sobre o caso, entre elas: os membros da AIB de Cachoeiro contavam com o apoio das autoridades para realizar suas atividades ao contrário dos aliancistas. Sobre o tiroteio da estação, possivelmente, os autores dos disparos que mataram o pedreiro Orestes Cândido, foram elementos da polícia militar ou da AIB.

Porém, apesar de todas as tentativas que se podem observar nos últimos anos na região Sul de romancear a matriz política da AIB, o mais importante é que esse acontecimento ainda é um campo aberto para futuras investigações de cunho historiográfico. O mosaico de versões e memórias dos fatos acorridos em 1935 é apenas uma mostra de como a Memória pode ser plural, entretanto, devemos considerar a importância de todos os testemunhos sobre o caso. E termos claro que em vez de colocar um ponto final nesse episódio esses relatos apenas abrem espaços para novas interrogações, como, por exemplo, qual teria sido a real participação da Polícia Militar nos eventos relatados?

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 1 Segundo THOMPSON (1992), essa prática de preservação da memória, via relatos orais, continuou mesmo depois da invenção e difusão da escrita. O autor cita, como exemplo, a existência dos relatos orais, mesmo durante a Idade Média, como importante meio de registro e preservação das lendas e estórias, entre as comunidades que estavam excluídas de acesso à escrita, pois nesse período os representantes da Igreja Católica monopolizavam esse conhecimento. Algumas comunidades africanas utilizariam até hoje a prática do registro de relatos orais como uma das suas principais fontes de preservação histórica. Os arquivos orais das comunidades africanas há muito tempo servem de base para as pesquisas de etnógrafos e antropólogos.

BIBLIOGRAFIA:

AMADO, J. e FERREIRA, Marieta de Moraes. (ORG) Usos & Abusos da história oral. 4ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001.

ARAÚJO, Ricardo Benzaquem de. Totalitarismo e Revolução – o integralismo de Plínio Salgado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988.

BERTONHA, João Fabio. Fascismo, Nazismo, Integralismo. 1ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2002.
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Doutor em História Social (UFRJ)

* Texto apresentado no V encontro regional da ANPUH-ES - Simpósio I – História e Memória