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A hora da verdade

Leandro Pedrosa Publicado em 09.05.2017

O depoimento de Lula no dia 10 de abril é, sabidamente, mais do que um ritual previsto em qualquer processo da Justiça. Trata-se de um embate entre a grande mídia, os poderosos, e um líder popular que teve a ousadia de melhorar minimamente a vida do povo brasileiro.

Lula recebe o abraço do povo, foto de Ricardo Stuckert

O juiz Sergio Moro despiu-se há muito tempo da vestimenta de magistrado. Virou promotor e militante político assumido. Cortejado pelas Globos da vida, incensado pela direita e acobertado pelo STF, o aprendiz de Torquemada curitibano está pouco se lixando para procedimentos processuais elementares.

Moro autoriza grampos ilegais, vaza gravações para “jornalistas” selecionados, prende e tortura psicologicamente suas vítimas, humilha advogados de defesa, faz comícios eletrônicos com mensagens tão convincentes quanto as de vendedores de remédios para calvície. 

Sua última incursão aconteceu no fim de semana. Moro pede a apoiadores da Lava Jato que não compareçam às ruas no dia do depoimento para evitar tumultos (na verdade, para escapar do vexame diante da desproporção esperada entre manifestantes contra e pró-Lula na quarta-feira).

Ao lado de desesperada, a mensagem é reveladora: magistrado que invoca apoiadores denuncia sua parcialidade. Qualquer cidadão, não precisa ser calouro de Direito, tem consciência que um juiz verdadeiro deve ter, acima de tudo, compromisso com provas, fatos e a Justiça.

Moro não está nem aí. Desde o início da Lava Jato mandou os manuais às favas e passou a viver em ritmo de palanque. Lembra personagens que disparam a língua diante de uma luz de geladeira (desde que seja daquelas bem caras).

Agora, o justiceiro arrogante acionou mundos e fundos para transformar o depoimento de quarta-feira no ápice de seu espetáculo inquisitorial.

A presença de Lula em Curitiba estava prevista para o dia 3 passado. Foi adiada por um simples motivo: as “provas” contra ele se mostravam tão frágeis que Moro percebeu estar prestes a amargar um fracasso irremediável.

Resolveu, então, convocar a toque de caixa novos testemunhos de gente que já havia falado pelos cotovelos. A orientação aos convocados, que saltou aos olhos, foi a de que incriminassem o ex-presidente em troca de redução de suas penas.

Dito e feito. Viu-se então um vomitório de imprecações baseadas apenas em declarações destinadas a alimentar manchetes da imprensa oficial.

O último a participar da encenação foi o ex-diretor da Petrobrás Renato Duque. O sujeito, condenado a 57 anos de prisão, produziu um depoimento risível na esperança de abreviar a permanência no xadrez. Parecia estar com um ponto eletrônico avisando-o para incriminar o ex-presidente em cada frase proferida.

Duque afirmou que se encontrou com Lula três vezes –pelas datas, note-se, nas três vezes o ex-presidente já estava fora do Planalto. Detalhe, ora os detalhes. Depois, disse ter percebido que Lula sabia de tudo, comandava o esquema de corrupção e daí pra frente. Qualquer juiz do interior perguntaria sobre provas de acusação tão grave. Mas o que se ouviu por parte de Moro foi um silêncio sepulcral. Simplesmente assustador.

Como é assustador o modo como são gravados os depoimentos. Moro atua tal qual uma voz do além. Não aparece em quadro. A câmera permanece fixa no depoente para ocultar as reações do inquisidor –imagens neste caso são sempre reveladoras. Bem a propósito a defesa de Lula quer o direito de filmar o depoimento, para que o algoz não se esconda atrás de uma voz sem corpo.

Investigado até debaixo da cama de casal e mesmo assim líder inconteste em qualquer pesquisa eleitoral, Lula terá a chance de desmontar a armadilha montada para abatê-lo sem dó nem piedade.

Ao seu lado, em Curitiba, estarão milhares de trabalhadores, trabalhadoras e jovens ansiosos por Justiça com J maiúsculo. Não a justiça sob encomenda dos ricos e golpistas interessados em calar a voz do povo e de suas lideranças.

Publicado por Jornalistas Livres