Artigos

A Batalha de Jenipapo: onde o Brasil se fez grande e coeso

Ronaldo Carmona Publicado em 19.03.2018

Há 195 anos, em 13 de março de 1823, ocorria a batalha decisiva para que a América portuguesa não tivesse o mesmo destino da América espanhola, fragmentada em mais de duas dezenas de países. Rememorar este feito heroico nas guerras pela independência do Brasil é fundamental neste momento de incertezas quanto ao futuro e de falta de coesão da Nação no enfrentamento de seus desafios.

A historiografia tradicional brasileira, inclusive aquela que é ensinada nos bancos escolares, costuma remeter o episódio da independência tão somente à proclamação de Dom Pedro I às margens do Ipiranga em 7 de setembro de 1822.

O fato é que nossa independência nacional teve um caráter dual: foi sim produto de uma transição negociada, transplantando a estrutura do Estado português aqui estabelecida e coroando sentimento brasílico que vinha se gestando desde os episódios de expulsão dos holandeses nas batalhas de Guararapes, momento de surgimento do Exército brasileiro no século XVII.

Contudo, a independência no início do século XIX também foi conquistada em lutas renhidas, na qual se destacam a guerra da independência na Bahia, e especialmente, pelas características singulares e pelo que resultou, a Batalha do Jenipapo, como veremos aqui.

Os antecedentes da Batalha do Jenipapo, ocorrida na cidade de Campo Maior, ao norte da cidade de Teresina, capital do Piauí, teve seus antecedentes na chegada da Família Real portuguesa no Brasil, em 1808, em caso único na historiografia da realeza europeia na qual a sede de um Reino é transferida da metrópole para a colônia, dada a ocupação de Portugal por Napoleão Bonaparte.

Com a chegada de Dom João VI, um conjunto de medidas importantes começam a ser tomadas, que vai da abertura dos Portos às nações amigas à criação de importantes instituições científicas.

Em 1815, um passo importante é dado, com a elevação do Brasil à condição de Reino Unidos à Portugal, momento o qual, a rigor, deixávamos de ser colônia. Contudo, com a derrota de Napoleão (1815) e a Revolução do Porto de 1820, a Família Real portuguesa é forçada a voltar à Lisboa, movimento o qual põe em risco o status brasileiro, ameaçando-o regredir à situação do país pré-1815, retornando a condição de colônia.  

O passo seguintes nesse movimento de recolonização do Brasil foi a exigência das cortes portuguesas do retorno do príncipe regente Dom Pedro à Lisboa, e a negativa deste, no episódio de 9 de janeiro de 1822 que ficou conhecido como o “dia do fico”, iniciando um período de conflito entre o príncipe e os interesses portugueses e culminando na proclamação de 7 de setembro de 1822.

A proclamação da independência realizada em São Paulo, no entanto, foi abertamente contestada em diversas províncias do Império, que mantinham obediência à Dom João VI, desconhecendo a autoridade do príncipe estabelecido no Rio de Janeiro.

Importante recordar que o Brasil, desde 1621, estava dividido em duas unidades administrativas autônomas, uma sediada em São Luís (MA) e outra em Salvador (BA). O norte do Brasil possuía frágil ligação com o sul do país, e suas relações, inclusive comerciais, davam-se basicamente com Lisboa.

Desde o regresso de Dom João VI a Portugal, este, vendo a inevitabilidade da Independência, buscou minimizar a perda por meio de duas medidas: a primeira, que na secessão o comando do país estivesse nas mãos de seu filho, Dom Pedro I; a segunda, foi organizar uma estratégia visando manter o norte do Brasil fiel a Portugal.

A parte mais essencial desse plano consistiu no envio do experiente Major João José da Cunha Fidié, oficial que havia combatido em Portugal as tropas de Napoleão, para comandar as tropas portuguesas estacionadas no Piauí. O Piauí era naquele momento importante território de contenção à independência, de relevante importância estratégica e econômica.

O Major Fidié chaga à Oeiras, então capital da província do Piauí em 8 de agosto de 1822, um mês antes da proclamação do Ipiranga. À época, o Piauí, e especialmente Oeiras, cumpriam papel estratégico no fornecimento de carne bovina, na forma de charque, a boa parte do Nordeste. Ademais, localizava relativamente próxima de outro forte polo de presença portuguesa, inclusive militar, a cidade de Caxias (MA).

A aspiração dos brasileiro pela independência nesse momento era forte, sentimento que percorria todo o território nacional. No Piauí não era diferente. Assim, em 19 de outubro de 1822, pouco mais de um mês após o Ipiranga, a Câmara de Parnaíba, presidida por João Cândido de Deus e Silva, e com apoio de outras duas figuras icônicas, Simplício Dias da Silva e o alferes Leonardo Castelo Branco, proclamam a adesão à independência.

A notícia da proclamação da Câmara de Parnaíba não tarda a chegar à Fidié, que resolve então sufocar militarmente de pronto a iniciativa, partindo de Oeiras, em 13 de novembro, com cerca de mil homens, em marcha batida rumo à cidade litorânea. Os 660 quilômetros entre Oeiras e Parnaíba são percorridos em um mês e cinco dias, com uma parada estratégica de 12 dias das tropas portuguesas em Campo Maior, para também debelar indícios de rebelião independentista que ali se observava. 

Ao saber da volumosa e bem armada guarnição portuguesa que se dirigia à cidade, os patriotas de Parnaíba abandonam a cidade, num recuo tático, indo se refugiar no Ceará, na serra de Ibipaba, na cidade de Granja. Fidié chega a Parnaíba sem encontrar resistência. Contudo, o principal estava feito: atraiu-se a tropa portuguesa à Parnaíba, deixando quase desguarnecida a capital Oeiras.

Com isso, a estratégica capital da província, em 24 de janeiro de 1823, adere a independência sob liderança do lendário Brigadeiro Manuel de Sousa Martins, futuro visconde de Parnaíba.

Fidié resolve então retornar à Oeiras, a fim de retomar o controle da capital da província e parte de Parnaíba em 1º de marco de 1823. Pouco antes, em 12 de fevereiro, uma coluna com 180 patriotas cearenses, lideradas pelo capitão Luís Rodrigues Chaves, chegara a Campo Maior, sendo acolhida com entusiasmo pela população. Outra coluna de patriotas, liderada pelo alferes Castelo Branco, tem a primeira fricção com guarnição de Fidié na cidade de Piracuruca, localizada no caminho entre Parnaíba e Campo Maior, no episódio que ficou conhecido como confronto da Lagoa do Jacaré.

Em Campo Maior organiza-se numerosa força popular, composta por pessoas do povo, sem experiência militar, e com precário armamento – em geral foices, espingardas rudimentares e chuços -, porém com enorme entusiasmo cívico pela independência.  

Com a aproximação das tropas de Fidié, o Exército popular brasílico se posiciona às margens do leito quase seco do Rio Jenipapo, no qual poderia armar uma emboscada às tropas portuguesas.

Fidié, contudo, experiente militar, dividira suas tropas em duas colunas, uma à direita e outra à esquerda. Os patriotas, apesar de muitas centenas de combatentes, tinham escassa experiência militar, e tampouco possuíam dados de inteligência mais apurado quanto às tropas portuguesas.

Assim, quando a vanguarda das tropas de Fidié aparecem, os brasileiros os atacaram imaginando ser a totalidade da tropa portuguesa. Nesse momento, a outra coluna portuguesa, muito mais volumosa e bem armada, realizou uma manobra de envolvimento, cruzando o leito do Jenipapo e abrigando-se exatamente na posição anteriormente ocupada pelos brasileiros. Com isso, os patriotas viram-se cercados pelas tropas portuguesas, que muito bem armadas, realizam verdadeiro massacre dos brasileiros.

Estima-se que cerca de dois mil heróis brasileiros tenham caído em Jenipapo, contra uma ou duas centenas de portugueses. Contudo, como diz o historiador militar Cel. Bento, em celebre análise militar do conflito, a batalha de Jenipapo constituiu “uma derrota tática, mas uma vitória estratégica”.

As tropas portuguesas, submetidas a tensão extrema, marchando a pé pelo sol escaldante e com baixas importantes – ainda que, pelas características, muito inferior às brasileiras -, tiveram ademais, no calor da batalha subtraído seu “trem” de mantimentos, pólvora e possivelmente importante quantia de ouro – no que a lenda oral chama de “o tesouro do Fidié”.

Nesse contexto, e diante da incerteza do que encontraria no caminho até Oeiras e na própria cidade de Oeiras, sob controle dos patriotas, Fidié resolve deslocar-se à Caxias (MA), onde contava obter apoio para reorganizar suas tropas, renovar os suprimentos e então partir à então capital piauiense.

Contudo, ao chegar à Caxias, onde se abriga do morro das Tabocas, hoje morro do Alecrim, Fidié passa a ser combatidos pelas tropas patriotas, resistindo ao longo de três meses, entre abril e 31 de julho de 1823, quando finalmente, restando apenas 90 homens sob seu comando e totalmente sem suprimentos, capitula e é preso.

À 1º de agosto de 1823, os patriotas entram na cidade de Caxias e proclamam a independência.

Lições dos heróis do Jenipapo

O sangue dos brasileiros corrido nas margens do Rio Jenipapo na encarniçada Batalha de 23 de março de 1823 não foi em vão.

Tivesse Fidié percorrido sem contratempos sua marcha até Oeiras, esta muito provavelmente teria sido sufocada e o folego do domínio português sobre a parte norte do Brasil renovado e fortalecido.  O Maranhão, a começar de Caxias, teria mantido sob domínio português e as províncias rebeldes à autoridade de Dom Pedro I permanecido fieis à Dom João VI e à Lisboa. O Brasil provavelmente consolidaria sua cisão em duas partes, nos moldes da divisão administrativa colonial há muito vigente.

Os heróis de Jenipapo, com sua bravura e honradez, alteraram o curso dos acontecimentos, e apesar da derrota tática, consolidaram a vitória estratégica da proclamação do Ipiranga na parte norte do país.

No centenário da batalha, em 23 de março de 1923, os heróis de Jenipapo receberam sua primeira e justa homenagem com a inauguração de pequeno obelisco, até hoje preservado, em meio ao cemitério onde estão enterrados, às margens do Rio Jenipapo.

Em 1973, sob a liderança do então governador do Piauí, Alberto Silva, o Estado rende homenagem merecida e inaugura um Memorial à altura dos combatentes de Jenipapo. Desde então, anualmente, é comemorada esta Batalha que decidiu a unidade territorial e a grandeza do Brasil.

Louvemos a grandeza destes homens e mulheres cujo sangue não correu em vão.

***

 

 

Observação: o autor deste artigo, colaborador da Fundação Maurício Grabois, foi agraciado no último dia 23 de março no Memorial às margens do Rio Jenipapo com o título de Comendador, pela Ordem da Renascença do Piauí, conferida pelo Governador do Estado, Wellington Dias, em homenagem aos heróis tombados na épica Batalha aqui retratada.