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Vamos para a Albânia!

Ana Rocha Publicado em 02.05.2019

Dirigente do PCdoB conta como foi a experiência de viver na Albânia para trabalhar na Rádio Tirana, fazendo transmissões em ondas curtas em português, com notícias sobre o Brasil e a luta contra a ditadura.

Ana Rocha com Dyogenes Arruda em Tirana Foto: Arquivo CDM

Era o ano de 1975. Casada há dois anos com o economista Edson Silva, juntos integrávamos o Movimento Conjunto da Bahia, articulação de profissionais progressistas de diversas categorias, que se reunia no Instituto dos  Economistas da Bahia, em defesa da democracia.

Depois de ter liderado a luta dos estudantes de psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pela regulamentação do quinto ano do curso de psicólogo, sem a obrigatoriedade do vestibular, virei liderança da turma e oradora na formatura. Em seguida fui eleita Secretária Geral da Associação dos psicólogos da Bahia. O ano de 1973 foi marcante. Foi o ano em que me casei com Edson Silva, e o ano em que me filiei ao PCdoB, depois do destaque na luta estudantil. Era um ano de total clandestinidade, fui batizada com o nome de Bárbara. Ambiente tenso depois do AI 5 e da queda do Congresso da UNE em Ibiúna, onde minha irmã mais velha Liege foi presa. Depois ela entrou para a clandestinidade e ficou 5 anos sem contato com a família. O mesmo ocorreu com minha irmã Lúcia que foi para a área de preparação da guerrilha. Ambas na época eram da AP (Ação Popular) e depois ingressaram no PCdoB.

Assim, que por minha casa no bairro de Nazaré, na ladeira do Desterro, passaram vários lideres estudantis, como  Duda Colier, Alanir Cardoso e muitos outros que meu pai apelidava, de Alavanca, Zé Preguinho, Branca de Neve, Mariazinha e por aí vai. Às vezes chegávamos em casa e a sala estava repleta de militantes em reunião e panfletos. Tudo isso antes de 68, quando fiz vestibular e entrei para a Faculdade de Psicologia da UFBA. Já respirava o ambiente de luta contra a ditadura. Com a clandestinidade de minhas duas irmãs a casa ficou calma.

De 1968 até 1973, período que cursei a faculdade, foi o período mais brabo da ditadura e da repressão no país e ouvíamos as notícias censuradas pela Rádio Tirana e pela Rádio Pequim. Uma das primeiras aquisições dos comunistas naquela época era um rádio Transglobe que pegava as ondas curtas dessas rádios. Comunicados dos guerrilheiros do Araguaia, os artigos do jornal A Classe Operária tomávamos conhecimento pela edição em português da Rádio Tirana. Todo dia, às 20hs, fechávamos portas e janelas e ouvíamos as notícias em português de terras longínquas.

O meu marido Edson já era de AP quando nos conhecemos, líder estudantil na Faculdade de Economia da UFBA. Mas entrei no PCdoB via os caminhos da minha própria luta na faculdade de psicologia. Depois ele também entrou no PCdoB. Ambos depois de formados e já casados passamos a atuar no Movimento Conjunto em defesa da democracia. A situação começou a ficar tensa contra nós após uma onda de prisões Brasil afora, sobretudo de dirigentes do PCB e do PCdoB. Meu cunhado Arthur de Paula, foi preso e torturado em Pernambuco. O cerco aumentava aos integrantes do Movimento Conjunto e Edson era um de seus destacados coordenadores. Profissionalmente, depois de trabalhar na Reitoria integrou a coordenação do mestrado em Economia da UFBA. Enquanto eu, era psicóloga de crianças no IAPSEB e professora de psicologia da personalidade na Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Salvador. Estávamos em destaque na profissão e na luta.

Foi em meio a esse ambiente tenso, com risco de prisão, que o PCdoB  propôs que eu e Edson fôssemos para a Albânia, trabalhar na Rádio Tirana, na edição de língua portuguesa para o Brasil. Ninguém podia saber dessa missão, nem mesmo nossos familiares... Era tão secreta a missão, que Edson escreveu em minha mão: “Vamos para a Albânia” Não podia nem falar no assunto, as paredes tinham ouvidos.

Inventamos que íamos fazer um curso na França. Todos ficaram pasmos. Desde o diretor do IAPSEB que não entendia meu pedido de demissão, à Diretora da Escola de Serviço Social que chegou a ligar para meu pai para falar do absurdo que eu estava fazendo, até o responsável de recursos humanos da faculdade que queria me convencer a pedir licença em vez de demissão. Mas, na nossa cabeça nós estávamos partindo para sempre e não sabíamos se algum dia íamos voltar para a Bahia. A despedida dos amigos era cruel. Enquanto eles pensavam que estávamos numa boa, por dentro, nós estávamos dilacerados na perspectiva de que nunca mais íamos vê-los.

Quanto aos companheiros de militância que não sabiam de nada, nos olhavam atravessado pensando que tínhamos “desbundado”, expressão usada na época para quem abandonava a luta. E nós com aquela fachada de paisagem para não dar pista de nossa verdadeira missão revolucionária. Quando voltamos da Albânia após a anistia, e a minha irmã Lucia ficou sabendo onde estávamos, chorava copiosamente por ter pensado que nós tínhamos abandonado tudo e desbundado.

Para nós, um casal jovem com apenas dois anos de casados, deixar tudo, profissão, parentes, companheiros de militância e amigos foi um desafio muito grande. Uma aventura para o desconhecido, apenas alimentada na confiança da tarefa partidária em prol da democracia e da revolução socialista. Nós estaríamos lá no estúdio da Rádio Tirana falando para os militantes do Brasil.

Partimos em outubro de 1975... Um caminho tortuoso até chegar na Albânia. Primeiro fomos a São Paulo, encontrar a direção Nacional do PCdoB para saber as orientações da tarefa. Os típicos nordestinos chegando a São Paulo numa noite de frio e neblina, em plena Avenida São João procurando um hotel. Achamos uma espelunca e nos instalamos, morrendo de medo. 

No dia seguinte, tínhamos um ponto de rua, daqueles que você anda em tal rua do número tal ao número tal e alguém te aborda levando uma revista e falando uma senha. O nosso ponto era Sergio Miranda. Já nesse primeiro contato, Sérgio demonstrava o seu cabedal cultural e nos falava de livros e discos que poderíamos levar e marcou o ponto onde nos pegariam para levar ao aparelho onde estavam os dirigentes do Comitê Central do PCdoB.  Era um fusca, com um motorista e uma senhora, que depois fiquei sabendo era Elza Monnerat. Fomos de olhos fechados até o local onde seria a reunião.

Grande emoção ao entrar naquela sala e dar de cara com um senhor baixo e moreno, outro de cabelo preto liso e outro senhor de cabelos brancos vestindo um terno jeans. Sabia que era o alto comando do PCdoB, mas só fiquei sabendo os nomes por Arruda, quando chegamos em Paris e ele foi dizendo, o baixinho é João Amazonas, o de cabelo liso preto é Ângelo Arroyo e o de terno jeans é Pedro Pomar. 

A conversa se desenrolou agradável, sobre as características da Albânia e o que íamos fazer lá.  Iríamos escrever artigos sobre o Brasil, traduzir textos para o português e fazer um programa de rádio de uma hora de duração, inclusive locução.  Haveria um revesamento com outro casal que já estava lá. Falaram sobre a situação política, do cerco à Guerrilha do Araguaia e das perseguições ao partido. No ano seguinte, em 1976, houve a chacina da Lapa, onde morreram Ângelo Arroio e Pedro Pomar, outros dirigentes foram presos e torturados.

Dali seguimos para Buenos Aires, onde o ambiente era tenso, prenunciando o golpe militar. Aí encontramos Dyneas Aguiar, que nos passou o contato em Paris, que nos levaria à embaixada da Albânia para pegar o passaporte e visto albaneses, já com outro nome. Passamos a nos chamar Marta e Maurício Souza.

Mas, em Paris, o nosso contato mudou de endereço e não o encontramos. Tivemos de procurar a embaixada da Albânia, que nos encaminhou para a casa do embaixador, que por sua vez nos colocou  em contato com Diógenes Arruda, que estava em Paris.... Foi outro momento mágico o encontro com Arruda, na fria noite parisiense, numa estação de metrô. Aí ele passou a nos revelar quem eram os dirigentes que tínhamos contatado e como chegaríamos a Tirana, capital da Albânia. Nos deu 10 dias para conhecer Paris antes de partirmos para nossa missão. Estava acompanhado de sua mulher Tereza.

Finalmente chegamos à Albânia, já com nova identidade. Fomos recebidos pelo diretor da Rádio Tirana e pelo casal de brasileiros que já estava trabalhando na Rádio, Olívia Rangel e Bernardo Joffily. Assim começou nossa nova vida num país socialista, com uma língua totalmente desconhecida e onde permaneceríamos 5 anos de nossas vidas.

Cheguei lá, não sabia nem bater a máquina e sai jornalista. Cada dia um casal era responsável pela edição do programa em português para o Brasil. Além de traduzir, escrever e “locutar”, tínhamos a missão de estudar albanês e ensinar português a duas trabalhadoras da rádio. Trabalhávamos na seção internacional da Rádio, onde casais de partidos comunistas de vários países do mundo faziam o mesmo papel que nós.  E depois fomos morar todos juntos numa vila dos estrangeiros. Recebíamos salários de ministro e tínhamos direito a um mês de férias na praia.

 
Ana Rocha e Edson Silva em Tirana (Foto: Arquivo CDM)

Foi impactante viver em um país, onde o mais alto salário só podia ser maior duas vezes e meia que o menor, onde não havia desemprego, onde a educação e saúde eram gratuitas, onde as crianças tinham creche desde os 7 meses, onde havia restaurantes coletivos e habitação para todos.  As crianças eram o centro do mundo, e tinham direito a tudo. Um país que desenvolveu a industria textil com a ajuda da União Soviética e a indústria metalúrgica com a ajuda da China. Mas rompeu as relações com a URSS e depois com a China.  Basicamente se relacionava comercialmente com o leste europeu e alguns países da Europa. Tinha trigo, cobre, cítricos e oliveiras.  O socialismo teve de enfrentar um atraso secular, reforçado por cinco séculos de dominação turca. Era uma sociedade basicamente feudal, sem indústria. O desenvolvimento industrial veio com o socialismo. Com o tempo, as dificuldades econômicas foram minando essa realidade, que se deteriorou totalmente depois da queda do muro de Berlim. Podemos dizer que no tempo que estávamos lá de 1975 até 1980, foi o tempo áureo do socialismo albanês, sob o comando de Enver Hoxha.

Fazíamos toda noite, escuta da rádio Pequim e da BBC de Londres... onde acompanhávamos as notícias do Brasil. Foi numa delas que ouvimos a notícia da queda da Lapa. Só fomos saber detalhes com o retorno de João Amazonas e Renato Rabelo, que estavam voltando da China.... Aliás, eles escaparam da chacina da Lapa porque vieram à Albânia para participar do 7ª Congresso do Partido do Trabalho da Albânia. Em função desse acontecimento, que dizimou grande parte da direção nacional do PCdoB, Renato, Amazonas, Dyneas não puderam voltar ao Brasil e permaneceram algum tempo na Albânia. Depois seguiram para Paris, onde já estava Arruda.  Diante desse fato, tivemos o privilegio de conviver com esses dirigentes de perto, e aprender muito sobre a luta no Brasil e os pressupostos marxistas. A 7ª Conferência do PCdoB foi realizada na Albânia.

A casa de Arruda em Paris, era ponto de encontro de exilados brasileiros que se encontravam para analisar a evolução dos fatos e a fragilidade crescente da ditadura no Brasil. Presenciei o grande debate com Arraes  sobre a possibilidade dessas lideranças voltarem ao Brasil depois da anistia em 1979. Havia polêmica quanto a isso. Tinha o temor de que a democracia não fosse para valer e esses dirigentes serem presos ao voltar. Prevaleceu no PCdoB a idéia da retomada do movimento de massas e aprofundando a democracia, com a anistia e a volta dos exilados. Primeiro voltou Arruda e, em seguida, Amazonas. Tragicamente Arruda morreu no dia da volta de Amazonas.

Muito poderia falar do aprendizado dessa experiência na Albânia. Ficou a oportunidade de ter estudado o marxismo a fundo e presenciar uma experiência, que embora não tenha se consolidado, aportou pistas importantes da construção socialista, dos ajustes a serem feitos em outras experiências. Do ponto de vista pessoal, aprendi uma nova profissão: a de jornalista. Grande foi a emoção quando anos depois recebi do Ministério do Trabalho o registro de jornalista, a partir de um atestado da Rádio Tirana de que tinha trabalhado lá 5 anos. É a evolução dos tempos. Quando fui, ninguém podia saber, senão seria presa. Depois, a legalidade democrática permitiu revelar esse período da minha vida clandestina. Quantas vezes, na Albânia, pensei: Quando vou poder contar para alguém esta experiência... As cartas que vinham para a família só falavam do tempo e eram enviadas da Itália para o Brasil.... Quem diria que tudo isso ia passa, mas passou pela força da luta do povo. E hoje quando ventos conservadores sopram em várias partes do mundo e aqui também, temos de resistir e revelar para os quatro cantos o valor da democracia e da liberdade.

ANA ROCHA - Nasceu em Picos, Piauí, fez faculdade em Salvador. É psicóloga, jornalista e fez mestrado na UERJ. Atualmente Secretária de Políticas para as Mulheres da  Prefeitura do Rio de Janeiro. É da Comissão Política Nacional e do Comitê Central do PCdoB, da Comissão Política e do Comitê Estadual do PCdoB RJ, do Fórum Nacional de Mulheres do PCdoB. Foi editora do Jornal A Classe Operária, órgão central do PCdoB, editou por seis anos a Revista Presença da Mulher e foi Presidente Estadual do PCdoB do Rio de Janeiro de 1996 a 2013.