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Favelas e quilombos rebeldes (também) nos mapas

por Antônio Heleno Caldas Laranjeira* Publicado em 11.11.2020

Como territórios periféricos, via plataformas livres, desenvolvem suas próprias representações cartográficas, onde o Google mostra apenas vazios cinzas. Por que o engajamento científico pode ser crucial para resolver dilemas sociais.

No Google Maps, a maior concorrente do OpenStreetMap, muitos territórios seguem invisibilizados. Este é um contraponto ao senso comum que comete um duplo equívoco: de acreditar que o famoso Google Maps é a plataforma que “nos informa tudo” e que tudo é “de graça para nós”.

Em mapas privados nem temos acesso a tudo, nem é graça, nem é para nós. É tudo “sobre nós e sem nós”. Legalmente falando é uma plataforma proprietária (privada) e com fins lucrativos.

A plataforma OpenStreetMap, uma plataforma livre, sem fins lucrativos e igualmente incompleta sobre a totalidade da realidade do mundo, mas que permite que os territórios (especialmente os periféricos) tenham demarcados seus limites e lugares, suas zonas e suas redes.

Em mapas públicos, as técnicas e informações permitem que grupos territorializados localmente insurjam na Internet fazendo seus mapeamentos colaborativos com base em metodologias científicas e tecnologias sociais. Assim qualquer comunidade engajada pode reconhecer, produzir e circular sua representação cartográfica da face da Terra.

Afinal, qual é o mais atualizado banco de mapas das periferias do Brasil? Lutas sociais buscam responder localmente a essa questão.

Territórios percebidos e direitos concebidos

Em 2017, quando me mudei de Aracaju-SE para São Cristóvão-SE, existia uma Ocupação Centro Administrativo, na divisa dos dois municípios, que ganhava evidência entre os movimentos sociais locais.

Tomei conhecimento da luta dessa pequena comunidade, localizada em meio aos maiores órgãos públicos do Estado de Sergipe, através de uma videorreportagem produzida pela Revista Rever, uma mídia alternativa de Sergipe dedicado às pautas “reversas” à grande mídia sergipana.

Naquele ano eu cursava o mestrado em Comunicação pela UFS, e percebia a necessidade de ações engajadas de mapeamentos alternativos das ocupações urbanas com base em mapas públicos, que visibilizam de modo efetivo o que, de fato, é o espaço público em disputa.

Os direitos de uso do território para moradia, lazer e trabalho pelas famílias do Centro Administrativo de Sergipe ainda não estavam concebidos pelo Estado após um ano da reportagem. Apesar da percepção comprovável de que eles ocupam essa parte do bairro há pelo menos 15 anos, conforme relata Alexis Pedrão (NOS/PSOL), a concepção de legitimidade ainda era vaga em 2018.

 

Documentamos esse território no OpenStreetMap com o esforço conjunto de análise das imagens de satélite, mapeamos um campo de futebol, um riacho e diversas habitações. Mas para o Google Maps a ocupação não é legal, portanto não é de interesse público e nem possui visibilidade no mapa.

Em 2018, ainda durante o mestrado, tomei conhecimento de uma notícia da Bahia, sobre um novo muro erguido pela Marinha do Brasil que limitava o acesso ao Quilombo Rio dos Macacos. A notícia, circulada no portal Geledés, logo repercutiu nacionalmente e evidenciava a disputa pelo direito ao território que fica na fronteira entre Simões Filho-BA e Salvador-BA.

Uma busca no Google Maps revelou a invisibilidade sobre a localização do território. Por outro lado, o YouTube circulava um filme sobre o quilombo, produção coletiva que envolveu a participação de personalidades nacionais na luta pelo direito ao território, como Raquel Rolnik, professora e pesquisadora da FAU/USP.

Em 2020, o portal UOL dedicou uma reportagem sobre o acesso à água garantido pelo acesso à terra e a comunicação nessa comunidade rural rodeada de ameaças urbanas por todos os lados.

 

O mapeamento voluntário do Quilombo Rio dos Macacos, em 2020, foi uma ação individual baseado em estudos coletivos e técnicos e também imagens de satélite do território, no entanto afirmamos que esse é apenas o começo. A realidade é dinâmica e diversos lugares podem surgir ou desaparecer.

Por isso é preciso estarmos atentos, individualmente e coletivamente, para garantia de mapas públicos que correspondam ao percebido na realidade local pela comunidade habitante, um esforço contínuo de cooperação de agentes externos e internos, potencial que o Cinema demonstra. Vide a força da mensagem de “Bacurau” sobre territórios invisibilizados.

Cotidiano, mobilidades e pesquisa-ação

Este foi um breve relato autobiográfico de um cientista engajado com “temas comuns” para o pós-capitalismo. O percurso de pesquisa-ação com o tema “mapeamentos colaborativos” comprovou que este é um desafio.

Desafio, primeiro, pela necessidade do diálogo epistemológico e metodológico entre a Geografia e a Comunicação, por vezes abnegado por estudos territoriais das mídias e seus processos. O segundo motivo do adjetivo “tema desafio” é a qualidade incipiente do acesso às redes de engajamento (formação, informação e afirmação) em Comunicação.

O que alguns consideram, em termos éticos e técnicos, como “cientistas engajados” parece-me ser uma “categoria sociológica” na qual meu perfil adequa-se; embora eu acrescente ainda a ideia de “cientistas comuns”, atentos aos “encontros antropológicos” que as mobilidades permitem.

Nos exemplos citados, a postura assumida foi de “estender o lugar social” e “entender a transdisciplinaridade científica” através da identificação e do engajamento de um sujeito híbrido, enquanto pesquisador acadêmico e jornalista, mas também enquanto cidadão e professor de Comunicação.

Esses “encontros imprevisíveis” com as emergências ao longo do cronograma formal do processo de pesquisa acadêmica (no mestrado) certamente constituíram partes singulares para a minha criatividade na formulação de ideias capazes de transformar o imaginário sobre os mapas, esse tema incomum ao conhecimento do campo teórico da Comunicação no Brasil.

Consciente de que os “mapas públicos” da plataforma OpenStreetMap são socialmente poderosos e resultam de encontros de cidadãos e cientistas engajados em uma comunidade e por uma transformação, é possível afirmarmos que este é o “mais atual e mais atualizável” entre todos os mapas do Brasil.

O maior desafio social atual, em termos de dados geoespaciais gratuitos e públicos, de fato, é mais comunicacional do que informacional: a “meta comum” para o pós-capitalismo deve ser estabelecer “outras comunicações”.

*Jornalista pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Pesquisador em Geografias da Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Professor de Geocomunicações do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IPBAD).

Extraído de OutrasPalavras