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Reflexões sobre o fracasso de um arremedo de golpe

Lejeune Mirhan* Publicado em 12.01.2021

A semana que passou, a partir de quarta-feira, foi marcada pelas notícias bombásticas sobre os episódios da ocupação do Capitólio, sede do poder legislativo federal dos EUA; situação essa jamais vista na história dos Estados Unidos. Este trabalho não será um ensaio longo, mas um artigo de revisão teórica, no qual exponho minha completa divergência sobre tantas coisas que ouvi de “analistas internacionais”.

Donald Trump

A certificação da vitória de Joe Biden perante o Congresso dos Estados Unidos, presidido sempre pelo vice-presidente – no caso o Republicano Mike Pense, também ele de extrema-direita –, estava marcada para as 15 horas, pelo horário de Brasília. No entanto, desde vários dias antes, as redes sociais, em suas páginas de extrema-direita, supremacistas, fascistas, já convocavam, primeiro para um comício de Trump ao lado do Congresso e, depois, para a sua ocupação.

Não sou pela teoria da conspiração que, aliás, grassa pelas mídias. Mas, se é fato que a segurança do legislativo é feita exclusivamente pela polícia legislativa – como aqui no Brasil –, a segurança externa do Capitólio é tarefa exclusiva de agentes federais, guarda nacional, FBI, Swat e tantos outros mecanismos de proteção e de segurança que aquele Estado quase policial possui.

Não precisa ser inteligente para saber que iria ter confusão, ocupação, pancadaria, tumultos. Trump, de forma deliberada e consciente, não providenciou essa segurança externa. Mas, pior que isso. Parte da própria polícia legislativa abriu as barreiras para a turba (massa ignara) invadir o Congresso. Essas e tantas outras cenas chocantes foram amplamente vistas nas redes televisivas. 

É sabido que boa parte, ou até a maioria, das forças policiais no mundo inteiro é de extrema-direita, fascista. Disso ninguém tem dúvida. Só não se imagina a cooperação de parte delas com o ato de maior desrespeito ao poder legislativo ocorrido na história dos EUA. Nunca é demais dizer que, no caso de nosso Brasil, seguramente a maioria esmagadora das polícias estaduais, civil e militar, é bolsonarista na atualidade. 

Nesse mesmo dia dos tumultos – com cinco mortes –, eu tive uma participação no programa Boa Noite 247, com Rodrigo Vianna e Dafne Ashton, das 19 às 20 horas, durante a qual não só desmistifiquei várias questões, como também contestei a maioria dos pontos de vista de analistas, e alguns da própria TV 247 (1). E nesse mesmo programa eu disse que a sessão da tarde havia sido suspensa, mas que ou no mesmo dia, ou no dia seguinte, ela seria retomada e Biden seria homologado, como aconteceu na madrugada seguinte.

Feito esse registro introdutório, quero dizer ainda que ouvi com atenção, nesse mesmo dia 6 de janeiro, quarta-feira, muitas e muitas análises de “analistas internacionais”. Acredito que qualquer jornalista se considera um analista internacional, mesmo sem ter nenhum acúmulo sobre temáticas internacionais. Ouvi muitas aberrações e barbaridades e por isso me motivei a escrever considerações sobre as questões mais centrais e equivocadas – de meu ponto de vista, claro – sobre os debates. Vamos a elas.

1. Golpe de Estado

Foram poucos os analistas dos quais ouvi, em alto e bom som, que NÃO houve golpe de Estado. E muito menos uma intentona golpista. O que ocorreu de fato foi um imenso tumulto, incitado pelo próprio presidente, que convocou seus apoiadores – falou direto às massas como no fascismo – a ocuparem o Congresso. Há vídeos legendados de trechos de seu discurso minutos antes da ocupação (invasão). Ele fala claramente em sair do comício e marchar direto para o Congresso.

Trump passa pelo maior isolamento que um presidente em final de mandato já viveu. Não tem apoio nem mesmo da maioria dos membros de seu partido, sejam eles deputados, sejam eles senadores ou da hierarquia da direção partidária. Trump é apoiado hoje, e ainda assim de forma dispersa, apenas por agrupamentos sociais, páginas em redes sociais, sites fascistas. Grupos como os Proud Boys (Jovens Orgulhosos) e um tal famigerado QAnon (Q, da primeira letra de seu fundador que ninguém sabe ao certo quem seria e Anon, abreviação de anônimo). É o maior agrupamento de teoria da conspiração que se pode imaginar, divulgadores de notícias falsas ou de meias-verdades (2).

É preciso ainda confirmar, mas, pelo que tenho visto, Trump já não tem mais apoio nem do agrupamento chamado Tea Party de onde originou a candidatura de Sara Palin, que figurou como vice-presidente na chapa Republicana de John McCain, de extrema-direita, em 2008, derrotada por Obama. Ela foi governadora do Alasca. 

Golpes de Estado (que têm suas variantes de golpe parlamentar e golpe judicial) têm de ter ampla articulação. Não precisa de militares. Basta o apoio deles, ou que apoiem a ideia em si, ou enviem sinais verdes para que a quebra constitucional seja feita. É preciso ampla articulação parlamentar. Apoio de organizações de massa civis. Suporte de agências de inteligência. E talvez o mais importante: apoio da mídia corporativa. Nada disso ocorreu nos Estados Unidos de Trump.

Não se viu, em um só momento, Trump ser apoiado no seu discurso isolado – que parte das pessoas, seja de esquerda, seja de direita, comprou – de que as eleições foram fraudadas. Apenas, claro, seus advogados milionários (pagos em dólar) é que “apresentaram provas” (falsas ou sem consistência alguma). Já vimos esse filme antes. No Brasil, de dezembro de 2014, Aécio Neves, FHC, Serra e outros hierarcas tucanos contestaram os resultados e a vitória legítima de Dilma Rousseff para dar-lhe o golpe dois anos depois. 

À exceção das páginas sociais - no Facebook, Instagram e Twitter, da extrema-direita - que reverberavam os discursos sobre fraude, na grande mídia monopolista, nenhuma delas comprou essa teoria. Pior que isso: chegaram a interromper a transmissão de uma “coletiva" onde Trump não apresentou provas e apenas falou o tempo todo de fraude.

Nos Estados Unidos, neste final melancólico de Donald Trump, muita coisa tem acontecido pela primeira vez. Jamais se viu um presidente telefonar para uma autoridade eleitoral de um estado (no caso da Geórgia), pedindo que arrumasse 11.470 votos (número que faria com que ele vencesse as eleições nesse estado, ainda que isso não afetasse o resultado final). Nunca se viu um presidente derrotado solicitar ao seu vice - presidente do Congresso - para anular algumas votações estaduais, mesmo já haviam sido homologadas pelos respectivos colégios eleitorais estaduais. Por fim, jamais se viu a ocupação e depredação da sede do Congresso Nacional. 

O isolamento de Trump é tão grande que ele não apenas teve de “colocar o rabo no meio das pernas” (como se diz popularmente), recuando na sua verborragia fascista, como também disse que a transição para o novo presidente será pacífica e tranquila, mesmo tendo afirmado que não comparecerá à posse (até esta transição de governo, entre 60 eleições e 45 presidentes, apenas cinco não estiveram na posse de seus antecessores). 

2. Colapso do Império Estadunidense

Impérios não colapsam de uma hora para outra. Por vezes demoram anos e até séculos para encerrar seu ciclo. Não nos esqueçamos jamais que o Império Romano do Ocidente ruiu em 476, e o mesmo Império do Oriente, da Igreja Ortodoxa (do racha de 1050), só desmoronou com a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453.

O que chamamos atualmente de Império Estadunidense (eufemismo de linguagem, claro) é hegemônico no mundo, governa sozinho, desde 1991, quando, em dezembro, foi extinta a antiga URSS. É o que chamamos de mundo unipolar. Não havia desde então um contraponto ao seu poderio. A China ainda não era uma grande potência mundial e a Rússia havia sido liquidada pelos capitalistas que lhe tomaram o poder. 

No entanto, hoje não é mais assim. Não pretendo enumerar aqui uma série de fatos, datas e dados que mostram os momentos do declínio desse Império. Ele está relacionado com a fundação da OCX e do BRICS e com a criação do seu Banco (2014 aqui no Brasil), acordo de livre comércio mundial que a China estabeleceu, com vetos constantes de Rússia e China às resoluções dos EUA contra países e povos que não lhe são subordinados.

Já vivemos um novo mundo. Portanto, o colapso – apesar do termo excessivamente forte – já vem ocorrendo de forma gradual. Tenho afirmado que o mundo transita entre a unipolaridade de 1991 e a multipolaridade desejada amplamente pela maioria dos países, assim como o multilateralismo. Ou seja, que as principais decisões que afetam a humanidade sejam tomadas em organismos internacionais - que sejam multilaterais - do sistema das Nações Unidas.

Dessa forma, considero indevido o uso do termo, talvez cunhado por portais progressistas de nosso campo que vibraram com os acontecimentos que mostram a decadência dos EUA. Não tenho a menor dúvida de que o colapso geral e total do império chegará, e mais brevemente do que se possa prever. Mas jamais poderemos marcar uma data e provavelmente não terá um momento único, um episódio marcante, uma data concreta. Aguardemos. 

3. Guerra civil

Também ouvi alguns “analistas” falarem que aqueles episódios da tomada do prédio do Capitólio (que acarretou cinco mortes e mais de 90 presos até quando escrevo este artigo) seriam o estopim de uma guerra civil na medida em que todo o povo estadunidense está armado, em especial os grupos supremacistas, fascistas, da extrema-direita, tamanha é a facilidade com que se compra armas naquele país.

Também aqui, coloco-me em completo desalinho com esse ponto de vista. Não há condições nem objetivas e nem subjetivas para que isso ocorra neste início da segunda década do século XXI, ou exatos 156 anos após o término de sua primeira e única guerra dessa modalidade (houve a guerra da Independência com a Inglaterra em 1776 e a guerra em que a Inglaterra atacou os EUA em seu solo entre 1812 e 1815).

No momento em que escrevo, vários sites de extrema-direita nos Estados Unidos, nas suas grandes redes sociais, convocam o “povo” para uma Marcha Armada sobre Washington, rumo à Casa Branca para o dia 17 de janeiro, a três dias apenas da posse do novo presidente. Claro, de fato, isso será – se ocorrer  de fato – um novo e imenso tumulto, mas minha impressão é de que isso será duramente reprimido e, ainda assim, não deverá ser estopim de nenhum confronto armado entre estadunidenses (3). A conferir. 

4. Luta de classes

Aqui é que a coisa fica mais complicada. Os pseudomarxistas que “analisaram” o conflito (tumulto) no Capitólio, ou têm grande deficiência de estudos do marxismo, ou são mesmo pessoas completamente equivocadas,  falarem em “aguda luta de classes”, naquele episódio, é um erro grave. Quais classes estavam naquele momento em luta entre si? 

O episódio deixou claro que havia na manifestação apenas uma classe social em luta: a burguesia estadunidense, caracterizada por brancos, supremacistas, membros da Klan, republicanos fascistas, wasp (white, anglo-saxon and protestant, brancos de origem inglesa e protestantes). Contra quem eles se digladiavam (literalmente)? Contra outra facção da mesma classe social!

Essa é a distinção que temos de fazer. Marx e os seus sucessores, e que desenvolveram o seu pensamento, já trataram exaustivamente sobre isso. Internamente entre as duas grandes e principais classes sociais em uma sociedade - o proletariado e a burguesia - existem cismas. Nenhuma dessas classes é unificada, forma um bloco único homogêneo. Existem as chamadas “frações de classe”. Até entre o proletariado isso ocorre. Alguns mais da sua elite e outros assalariados, de ocupações que não requerem mais anos de estudo. 

5. Comemoração dos acontecimentos

Aqui não é um confronto teórico que aponho aos e às camaradas que cometeram tantos e tamanhos equívocos nas suas análises sobre aqueles episódios. Aqui minha divergência é comportamental. Vi em alguns canais a reação de alegria de comentaristas. Recebi muitos zaps com memes alusivos ao episódio da invasão, todos com um fundo de incêndio.

Também recebi comentários dirigidos diretamente a mim, alguns que tinham me assistido nos vários canais em que comentei os episódios. E diziam mais ou menos assim: “quero ver o circo pegar fogo” ou “pega fogo cabaré” e coisas parecidas, como se refletissem um espírito de quanto pior melhor e de que aqueles episódios poderiam contribuir para o fim do império e isso seria muito bom para todos nós de esquerda. 

Ledo engano. Exatamente o contrário. Quem torceu para o quanto pior melhor, e que vingaria a eventual anulação da posse de Biden, os que mais perderiam, e estariam ferrados, seriam exatamente os que lutam contra tudo aquilo que os EUA representam. Os comunistas seriam os primeiros. Depois viriam os socialistas, trabalhistas, democratas. O fascismo cresceria, ele mesmo, que se encontra ferido e golpeado, mas jamais morto. 

Breve conclusão

Como se diz popularmente, muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte. Muita coisa pode acontecer até o dia da posse, em 20 de janeiro. Vários conflitos poderão eclodir ainda. Em solo estadunidense e fora dele. Quem nos garante que Trump não possa vir a adotar atitudes tresloucadas de atacar o Irã, via Israel ou mesmo a partir de um dos seus 270 aviões mantidos nas plataformas dos três porta-aviões nucleares que estão neste momento nas águas do Golfo Pérsico? (normalmente lá só fica o Nimitz, da 5ª Frota, baseada na ilha do Bahrein).

Andou-se falando em aplicação da 25ª emenda, que garante a um percentual do secretariado do presidente (lá eles não têm ministérios) poder pedir o afastamento do presidente se perceber que ele perdeu a capacidade de governar o país. Falou-se ainda até de impedimento. Não prospera nada disso. Impedimento não passa no senado e tem um rito a ser cumprido, demorado, pois é preciso assegurar amplo direito de defesa até para fascistas. Até o moderadíssimo Biden já se disse contra essas medidas. 

O que tenho certeza é de que esses episódios mostram uma profunda crise política e mesmo institucional interna nos Estados Unidos. Esse país, que nunca pode dar lições de moral aos países que ele atacou, guerreou e invadiu, vê-se agora às voltas com o maior tumulto, baderna, conflitos dentro de seus territórios. Está claramente desmoralizado perante o mundo. A sua tão propalada “democracia”, que já desmascaramos muitas vezes, está profundamente questionada.

Será a falência total e completa do seu sistema político antidemocrático? Haverá mudanças de alguma grandeza na sua “democracia”? Que mudanças o mundo presenciará após a posse do novo presidente em 20 de janeiro?

Temos que nos perguntar uma questão simples, e isso vai aos e às que vociferaram aos quatro cantos que Biden e Trump são tudo igual e farinha do mesmo saco (sic): Por que Trump está fazendo de tudo para impedir a posse de Biden, com o risco do desgaste que sofreu? Minha resposta inicial é simples: porque não são iguais, certamente, e que mudanças ocorrerão em vários aspectos (4).

(1) Quem quiser assistir a esse programa é só clicar aqui: , já com mais de 60 mil visualizações.

(2) Vejam, neste pequeno vídeo, o significado desse agrupamento: .

(3) Vejam, nesse endereço, o alerta do documentarista Michael Moore: .

(4) Veja meu artigo de 17 de novembro sobre o mundo após a era Trump e sobre o governo Biden: .

* Sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor de 14 livros, pesquisador e ensaísta. Atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista da TV dos Trabalhadores, da TV 247, do Canal Resistentes, do Canal Outro lado da notícia, do Canal Iaras & Pagus e eventualmente da TV DCM, todos por streaming no YouTube. Publica artigos e ensaios nos portais Vermelho, Resistentes, Grabois, Brasil 247, Outro lado da notícia e Vozes Livres. O site da sua editora é www.apparteditora.com.br e seu site pessoal é www.lejeune.com.br. Recebe e-mails no endereço lejeunemgxc@uol.com.br.