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Princípios nº 160: chineses comparam governança de China e EUA no combate à pandemia

Cezar Xavier Publicado em 25.01.2021

A edição 160 da revista Princípios traz como destaque o artigo “China versus Estados Unidos na crise da pandemia: governança e política confrontam desafios sistêmicos”, de Dic Lo e Yuning Shi. Os economistas chineses mostram como o que chamam "modelo frouxo" de governança, assentado na absolutização das liberdades individuais, levou os EUA ao fracasso na luta contra o novo coronavírus.

Dic Lo é Professor de Economia na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres e Yuning Shi é doutoranda de Economia na mesma universidade inglesa. Sua reflexão se mostra bastante útil para compreensão do fracasso brasileiro no combate à pandemia, na medida em que o governo brasileiro mimetizou a estratégia de Donald Trump.

Os países que agiram de forma rápida, forte e concisa, obtendo consenso social, conseguiram ter um controle maior sobre o avanço da pandemia, do que aqueles que foram erráticos, controversos, divergentes e dividiram sua população em vez de unificá-la. Este parece ser o contraste entre China e EUA definido e analisado pelos economistas como um modelo de gestão “firme” e outro “frouxo”.

Em vez de partir da dicotomia ideológica hegemônica da “democracia liberal contra o autoritarismo”, os autores usam o quadro teórico da “saída, voz e lealdade” desenvolvido por Albert Hirschman, examinando os dois modelos pela perspectiva das estruturas de governança e das capacidades corretivas dos dois diferentes sistemas políticos. Desta forma, o debate sobre o caráter da democracia é posto em termos de competência, comparando potências que se afirmam economicamente, assim como na dominância geopolítica.

Os autores do artigo observam como preconceitos ideológicos nortearam a análise da resposta chinesa à pandemia, desde a emergência da doença, quando ela estava circunscrita a um único país. A catástrofe estaria diretamente relacionada ao regime político. O fundamento intelectual disso seria o aforismo do economista e filósofo Amartya Sen, culpando “a ausência de liberdade de informação e crítica” à ocorrência de eventos trágicos na nação.

A internacionalização da epidemia, assim como a resposta “miserável” de “democracias liberais” como os EUA seriam, para eles, a evidência de que a frase de efeito não explica o que aconteceu na China. Pelo contrário, o regime político daquele país foi capaz de reduzir os custos econômicos e sociais do evento.

A proposta dos autores é fazer o confronto e contextualização entre o quadro teórico de Sen pela alternativa de Hirschman. Assim, a transparência de informação e a competição política de Sen possuem uma importância central para as opções de “saída” e “voz”, mas são inadequadas para a opção “lealdade”, que eles consideram a opção mais adequada à natureza do combate à crise epidêmica, por meio da aquisição de conhecimento e cooperação política.

Enquanto Sen explica a grande fome na China pela suposição de que um informação existe independente dos atores, Hirschman considera apenas que haja trocas puras, acordadas, aplicadas ou simplesmente abandonadas a partir do consenso entre os atores.

A pandemia, portanto, revelou que conceitos centrais do capitalismo americano como competição e transparência são questionados para valorizar a cooperação política e a aquisição de conhecimento para a governança, elementos centrais da atual cultura política chinesa. A competência técnica perdendo espaço para a política. A mobilização da sociedade para cooperar pelo estancamento do contágio é menor em sociedades muito desiguais em que a pessoas mais vulneráveis são obrigadas a pagar a conta da pandemia, e percebem seu papel na sociedade.

Sendo esse o caso, a comparação expôs a falha de conteúdo fundamental da democracia americana, quando simplesmente se contrapõe ao regime chinês pela abstração do autoritarismo, sem considerar o mundo real da responsabilidade e representatividade dos sistemas políticos para com o povo.

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