São Paulo, 20 de dezembro de 2014
Fundação Maurício grabois

Notícias
Você está aqui: Home > Centro de Documentação e Memória > Notícias > Filha do “fotógrafo das lutas sociais” funda Instituto João Zinclar
Publicado em 17.01.2014
Filha do “fotógrafo das lutas sociais” funda Instituto João Zinclar
Por Flaldemir S. Abreu


Victoria Ferraro autoriza guarda do acervo que herdou do pai ao Museu da Imagem e Som de Campinas, e funda instituição para preservar e divulgar seu trabalho.

Fotos – Acervo MIS Campinas e CPT – Comissão Pastoral da Terra.

A primeira reunião para a formação do Instituto João Zinclar foi realizada no Dia do Fotógrafo, em 8 de janeiro de 2014, no Museu de Imagem e Som (MIS) de Campinas. Na reunião que decidiu pela fundação da instituição em homenagem ao pai, Victoria Ferraro Lima e Silva comunicou a autorização da guarda do acervo ao Museu da Imagem e Som de Campinas, onde o fotógrafo realizou exposições, oficinas e palestras voluntárias.

A reunião, convocada por Victória Ferraro deliberou que o Instituto será uma organização civil de interesse público, sem fins lucrativos, responsável pela preservação e divulgação do acervo do fotógrafo falecido em 19 de janeiro de 2013, com 54 anos de idade.

“A fotografia para o meu pai não era apenas uma arte, era uma forma de contribuir para a mudança da sociedade. O que movia o meu pai era a luta política e a convicção da necessidade, mais que urgente, de transformar a sociedade”, afirma ela, que perdeu o pai num acidente entre um ônibus e um caminhão, no dia 19 de janeiro de 2013.

O “Acervo João Zinclar” é composto por documentos, anotações, publicações e milhares de imagens de mobilizações populares registradas em todo o Brasil e na Venezuela. São mais de 25 mil filmes negativos, e mais de 200 mil imagens digitais sob a guarda do Museu da Imagem e Som de Campinas, que solicitou os equipamentos necessários para reprodução do acervo analógico.

João Zinclar nasceu em Rio Grande (RS), mudou-se para Campinas em 1984, se tornando uma das mais respeitadas lideranças operárias da cidade. Segundo Augusto Buonicore, historiador do MIS Campinas, “desde cedo o João se interessou pela fotografia, e ganhou do irmão sua primeira máquina Cânon. Vez ou outra fazia fotos das atividades que participava. Mas somente quando saiu do Sindicato, se dedicou ao que mais gostava de fazer. Disse: “agora eu vou fotografar, mas vou fotografar as lutas sociais”, lembra o historiador.

“A rica trajetória militante e fotográfica de João representa de forma única – pela ótica do povo que luta, nas cidades e nos campos – os últimos 30 anos da História do Brasil. Nela está belamente registrada a luta socioambiental pela vida do São Francisco – Terra e Água, Rio e Povo. Preservar e disponibilizar ao povo a obra de João é continuá-la, educando o olhar, a consciência e a atitude emancipatória”, declarou Ruben Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Articulação Popular São Francisco Vivo.

Foto: Reunião no MIS que discutiu o Instituto João Zinclar

Memória das lutas

Sonia Fardin, historiadora do MIS Campinas, afirma que “o João Zinclar manteve vínculos de identidade afetiva, política e estética com o Museu de Imagem e Som de Campinas, que fará o inventário, classificação e catalogação do seu acervo”.

O Acervo João Zinclar é o registro histórico de um período importante na política brasileira, de Campinas e, principalmente, para os trabalhadores e movimentos sociais que realizaram massivas mobilizações no enfrentamento da luta de classe.

Sonia Fardin observou a preocupação do fotógrafo com a memória das lutas populares, na forma como organizava seu arquivo de imagens, por temas, em ordem cronológica e com anotações.

“A maneira como João realizou e administrou seu acervo diz muito sobre sua opção ideológica, que orientou e deu sentido ao seu trabalho e à vida. Sua preocupação foi manter as imagens e informações sempre acessíveis e disponíveis para uso dos movimentos sociais”, afirmou Sonia Fardin.

Sonia diz que não é exagero observar que o Acervo João Zinclar é um dos mais importantes da história brasileira recente. “Não apenas pela quantidade de imagens, nem pelo período histórico, mas principalmente por ter como agente produtor um olhar forjado ao longo de anos em estudos e leituras, no peso da rotina operária, nos improvisos da vida de andarilho, na autonomia do trabalho artesanal, nos embates da luta sindical, na formação foto-cineclubista, na luta política de esquerda e na troca de olhares vivida em metrópoles e vilarejos.”

Agenda

Diversas atividades organizadas pelo Instituto João Zinclar, com apoio do MIS Campinas, estão previstas para ocorrer durante o ano, e o trabalho do fotógrafo e sua experiência política serão temas de debates.

No dia 20 de janeiro, os Comunicadores Populares realizam no MIS, a partir das 19h, as Rodas de Conversa João Zinclar Presente.

A expectativa é que as programações que serão organizadas pelo Instituto João Zinclar também atraiam produtores de imagens que documentam as lutas sociais, os amigos de militância política e os companheiros que conviveram com o fotógrafo, resgatando o encontro da diversidade social sempre presente nas exposições e palestras que ele realizou no MIS.

Para ampliar a interação com os amigos do fotógrafo, o Instituto também lançou a página Acervo João Zinclar no Facebook.

Imagem militante percorre o mundo

As fotos do “operário da fotografia” são capas de livros, ilustram boletins sindicais, blogs, sites, calendários e outros veículos da imprensa alternativa e popular.

“Sou um comunista que se orienta pelos valores e pela teoria marxista de como interpretar e procurar transformar esse mundo (…) o que me motiva a fotografar é a luta de classes (…) antes de ser fotógrafo, sou um militante. A máquina nada mais é que um instrumento a serviço das mudanças sociais”, dizia Zinclar.

As imagens do “fotógrafo operário” foram expostas em diversos espaços públicos, em varais estendidos nas ruas e carregadas por manifestantes, como instrumento de denúncias, nas mobilizações realizadas em várias cidades brasileiras.

Movimentos populares no Brasil, Inglaterra, Alemanha e México publicaram as imagens produzidas por João Zinclar, que conquistou prêmios e reconhecimento como “o fotógrafo de lutas sociais”.

“A luta de classes não se configura apenas nos embates típicos dos ambientes urbanos, mas exprime-se também nas lutas de homens e mulheres ribeirinhos, dos indígenas, quilombolas, sem-terras, pescadores que resistem à expansão do capital sobre seus patrimônios físicos e culturais”, analisou João Zinclar.

Foco ideológico e identidade política

João Zinclar não foi estranho ao ambiente que fotografou, era parte integrante do cenário dos conflitos de classe e se declarava um “fotógrafo operário e operário da fotografia”, caracterizando sua opção política e profissional.

Apesar da identidade que mantinha com os movimentos sociais, Ruben Siqueira, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), confessa: ”o encantamento geral, primeiro dele, também meu e nosso, convincente para todos os efeitos, evidenciou-se na Ilha da Ingazeira, Manga – MG, em meio às vazantes e seus negros, homens, mulheres e crianças, no I Encontro de Vazanteiros, em 27 e 28 de julho de 2006”.

A arte do fotógrafo operário

O trabalho do João Zinclar extrapola classificações convencionais, e sua compreensão da memória como ação de resistência é um grande exemplo, afirmou Sônia Fardim.

São imagens que esgarçam as fronteiras entre criação e documentação jornalística, que registram inquietações sobre sonhos, frustrações, vitórias, projetos, desejos, contradições e as impermanências com as quais a vida, a luta, a militância e a memória se fazem, disse a historiadora.

O foco ideológico das imagens do João Zinclar revela-se na apresentação do seu último livro, quando afirma: “as reivindicações ambientais, por confrontar a lógica de exploração capitalista, são estratégicas para unificar as mobilizações dos trabalhadores”.

Embora não teve a pretensão de ser considerado um artista, muitas imagens do seu acervo revelam a sensibilidade manifestada em obras de arte, como observou Sonia Fardim: “São imagens que fazem pulsar a humanidade, são criações artísticas que fissuram o real. Isso as fortalece ainda mais como imagens de denúncia”, concluiu a historiadora.

Após lançar seu último livro, João Zinclar focou os estudos em textos ecológicos de autores marxistas, acompanhou o início das obras da usina de Belo Monte, pesquisava a expansão do agronegócio na Região Norte, preparava outra exposição no MIS Campinas, e queria lançar um Blog para aprofundar o debate sobre temas sociais e ambientais.

A vida do operário da fotografia

Em entrevista concedida ao Museu da Imagem e Som de Campinas, João Zinclar falou sobre sua vida, disse que começou a trabalhar como comerciário e depois operário da construção civil na sua cidade natal, Rio Grande (RS).

Aos dezoito anos era encanador industrial e decidiu sair de casa para trabalhar em Cubatão, Campinas, Rio de Janeiro e Salvador.

Em 1976, abandonou a profissão bem remunerada na capital baiana para percorrer o Brasil com o movimento hippie.

No final da década de 70, a luta pela anistia, as greves dos canavieiros em Pernambuco e Alagoas e as mobilizações dos movimentos operários em São Paulo fizeram ele pensar: “tem coisa nova surgindo no Brasil, tá na hora de ver isso mais de perto”.

Em 1981, João Zinclar voltou retomou a vida operária na cidade natal, aprofundou a leitura de jornais e revistas dos movimentos políticos de esquerda, e iniciou a militância, sendo logo recrutado pelo PCdoB que estava na clandestinidade.

Neste período, adquiriu uma câmera fotográfica, frequentou cursos do Foto-Cine Clube Gaúcho e, como membro ativo do PCdoB, recebeu a missão de construir a luta dos trabalhadores em Campinas - SP, onde trabalhou como metalúrgico e foi dirigente sindical entre 1985 e 1990.

De 1990 a 1996, foi diretor de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas, onde conheceu Silvia Ferraro, mãe de Victória. Em 1996 João Zinclar passou a se dedicar exclusivamente à fotografia das lutas sociais.

Após lançar seu em livro em 2010, estudava alternativas de atuação política e profissional.

João Zinclar pretendia morar com a filha Victoria em 2013, quando faleceu no dia 19 de janeiro em acidente rodoviário, causando forte abalo a todos que, além de admirá-lo pela competência, criatividade, compromisso ideológico e autêntica militância, tinha por ele grande estima pessoal.

O Museu da Imagem e Som de Campinas produziu um vídeo com entrevista do João Zinclar, e outros trabalhos sobre sua intensa vida política e profissional foram realizados ou estão em andamento. Acesse a página do Acervo João Zinclar no facebook e conheça mais sobre o fotógrafo.

CONHEÇA ALGUNS TRABALHOS FOTOGRÁFICOS DE ZINCLAR:

1 Pessoa comentou. Comente também.

  • Victória parabéns por disponibilizar o rico acervo do seu pai.Ele é muito rico e histórico.
    Comentado por  Maria Nivea Pinto  em 18/01/2014


Escreva seu comentário


Trocar imagem

Enviar para um amigo

Fundação Maurício Grabois: Rua Rego Freitas, 192 - Sobreloja - Centro - São Paulo - SP
CEP 01220-010 - Tel.: (11) 3337.1578