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Publicado em 02.07.2012
As armas contra os livros
Por Carlos Pompe *


A perseguição ao pensamento – em especial ao pensamento discordante – é uma característica ditatorial.

No Brasil republicano, em especial (mas não somente) durante a ditadura militar de 1964-85, a censura imperou em todos os meios de comunicação. Antes, na maior parte do período colonial, o Brasil sequer podia ter uma gráfica. Mas, contra esses fatos, sempre houve o contraponto – revolucionários e intelectuais que chegaram a dar a própria vida na luta pela liberdade.

No Brasil, a Comissão da Verdade está começando a fazer seu trabalho na investigação à tortura e violação dos direitos humanos. Já de algum tempo, alguns estudiosos fizeram levantamentos sobre a censura no cinema, na música, no teatro, no rádio e na televisão. Em dezembro do ano passado, a Edusp/Fapesp lançou Repressão e Resistência: Censura de Livros na Ditadura Militar, de Sandra Reimão, analisando este setor específico de comunicação.

 

A autora constatou, na documentação que encontrou de uma lista de quase 500 livros, de ficção ou não, submetidos ao Departamento de Censura e Diversões Pública da ditadura, que cerca de 140 eram de autores nacionais, dos quais 70 foram proibidos.

Ela considerou mais emblemáticas a censura aos romances e contos Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca; Zero, de Inácio de Loyola Brandão; Dez Estórias Imorais, de Aguinaldo Silva; Em Câmara Lenta, de Renato Tapajós; Mister Curitiba, de Dalton Trevisan; e O Cobrador, de Rubem Fonseca. Dos estudos e análises proibidos pelos ditadores, ela destacou O Mundo do Socialismo, de Caio Prado Jr.; A Universidade Necessária, de Darcy Ribeiro; A Mulher na Construção do Mundo Futuro, de Rose Marie Muraro; O Despertar da Revolução Brasileira, de Márcio Moreira Alves; História Militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré; e O Poder Jovem, de Arthur José Poerner.

Não apenas obras, mas também editoras foram fechadas ou perseguidas pelos militares. Logo no dia 3 de abril de 1964, os golpistas fecharam a Editorial Vitória, do Partido Comunista Brasileiro, PCB.

Em entrevista ao Jornal da ABI, edição de maio de 2012, Sandra disse que, do golpe até o Ato Institucional número 5, de dezembro de 1968, “a censura a livros no Brasil foi marcada por uma atuação confusa e multifacetada e pela ausência de critérios, mesclando batidas policiais, apreensões, confiscos e coerção física”.

Em 26 de janeiro de 1970, os ditadores baixaram o Decreto-Lei 1.077, assinado pelo general Emílio G. MédIci e pelo ministro Alfredo Buzaid, considerando que a Constituição não tolerava “publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos costumes” e que era necessário “proteger a instituição da família, preserva-lhe os valores éticos e assegurar a formação sadia e digna da mocidade”.

Os donos do poder vituperavam “algumas revistas” que faziam “publicações obscenas” e programas de televisão “contrários à moral e aos bons costumes”. Atacavam também livros que ofendiam “frontalmente à moral comum”, insinuavam “o amor livre”, assim ameaçando “destruir os valores morais da sociedade brasileira”.

Por trás de tais obras estava “um plano subversivo, que põe em risco a segurança nacional”. Era ordenado, então, que o Departamento de Polícia Federal não tolerasse “as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação”.

Para isso, a polícia ficava incumbida de “verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria” que fosse “ofensiva à moral e aos bons costumes”. Publicações vindas do estrangeiro também ficavam sujeitas à verificação. Os infratores, além da responsabilidade criminal, ainda seriam multados e obrigados a queimar os exemplares da publicação.

A pesquisadora diz que os censores faziam “uma correlação clara entre a destruição dos valores morais e a segurança nacional”. Devido ao protesto de escritores como Jorge Amado e Érico Veríssimo, os governantes liberaram de avaliação prévia as obras “de caráter estritamente filosófico, científico, técnico e didático, bem como as que não versarem sobre temas referentes a sexo, moralidade pública e bons costumes”.

No entanto, continuaram perseguindo autores e editores, prendendo-os ou impossibilitando a continuidade das empresas editoriais, valendo-se da pressão econômica, como fizeram com Ênio Silveira e sua Editora Civilização Brasileira, que será assunto do próximo artigo.

Fonte: Portal Vermelho

 

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  • O artigo apresentado efetivamente aborda um procedimento condenável por todos os títulos, ocorrido no Brasil de 1964 e anos sequintes. Infelizmente, toda revolução é em si mesma um processo subversivo e censurador em relação a cultura contra quem se impõe. Apenas para termos um limite temporal, a partir da Revolução Francesa a cultura revolucionária censurou impunemente em todas as revoluções, dentre as quais as mais estudadas foram a Revolução Russa, o Franquismo, na Espanha, o Nazismo, na Alemanha, o Salazarismo, em Portugal e a Revolução Chinesa. Evidentemente, devem ser incluídos no processo todos os golpes de Estado havidos na América Latina, inclusive, no Brasil.Em todos estes movimentos revolucionários, revistas e jornais foram em grande número censurados ou fechados. Vários autores tiveram as suas obras proibidas e destruídos os volumes encontrados. Os revolucionários de 1964 cometeram um erro ainda maior, censurando obras pouco lidas pela população brasileira, de vez que, a nossa cultura literaria, naquela época como agora, é extremamente raquítica. Aliás, na América Latina, os censores apenas cumpre tarefa porque o número de leitores é muito pequeno. No Brasil, por exemplo, nenhum jornal ou revista conseque vender, para uma população de 190 milhões de pessoas, 600 mil exemplares. As tiragens ficam sempre abaixo disso. Na Alemanha, com uma população bem menor que a nossa, apenas o Bild vende 3 milhões de exemplares diariamente. ´É uma questão de cultura!. Para finalizar, recentemente foi publicado um levantamento bastante interessante. No Brasil, os prisioneiros, lêm em média 3,1 livros por ano, enquanto que os estudantes universitários lêm 1,2 livros por ano.
    Comentado por  Orlando  em 02/07/2012


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