Especiais - Futebol, beleza e arte que conquistaram o Brasil

Jogador escalado pelo óbvio

Nelson Rodrigues Publicado em 10.04.2014

O portal do Ministério do Esporte publica até o mês de junho, às vésperas da Copa do Mundo, uma série de crônicas escritas por Nelson Rodrigues entre as décadas de 1950 e 1970. Os textos foram publicados no livro “A Pátria de Chuteiras”, lançado em 9 de dezembro pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Confira o 12º texto da série de crônicas de Nelson Rodrigues

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São 40 crônicas selecionadas pelo próprio ministro em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. O futebol foi a metáfora utilizada por Nelson Rodrigues para a apresentação e a divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso.

Confira abaixo a 12ª crônica da série: “Jogador escalado pelo óbvio”. O site do ministério vai publicar dois textos por semana, aos domingos e às quintas-feiras.

"E o óbvio baixou, de repente, no estádio. Não há mais dúvida, não há mais nada. O jogador que o óbvio escala é inarredável, irreversível, assim na terra como no céu."

Jogador escalado pelo óbvio (1)

Amigos, uma das coisas mais fascinantes da televisão, no momento, é o programa do Otto. E, lá, aparece de tudo. Do rajá ao sociólogo, do profeta ao camelô, do psiquiatra ao macumbeiro, do santo ao ventríloquo. Dessa irisada complexidade, tira o Otto um charme inimaginável. Ainda não perdi as esperanças de ver, entre os seus convidados, uma foca amestrada, equilibrando laranjas no focinho.

Ontem, o meu fraterno colega entrevistou uma psicanalista sobre um dos problemas mais agudos do nosso tempo: — a juventude. E aí começa o equívoco. “Do nosso tempo” por quê? O jovem sempre foi problemático e, se não é problemático, estejamos certos: — trata-se de um débil mental que deve ser amarrado num pé de mesa. Vamos dar graças a Deus que a nossa juventude tenha um drama, uma angústia, uma tensão dionisíaca ou demoníaca, sei lá.

Mas a psicanalista começa a falar e logo percebemos o seu raro brilho e o seu casto saber. Por que o jovem está inquieto, tenso, vibrante, explosivo, perplexo e ameaçador? A culpa é da sociedade e da família. Quanto ao próprio jovem, a entrevistada não faz uma tênue insinuação ou uma vaga referência. O que importa é apenas a situação social. Como reles coadjuvante, a situação familiar.

E eu então vi subitamente tudo. Imaginei que, diante de uma prova de natação, a psicanalista havia de concluir: — “Quem nada é a piscina e não o nadador.” Minha vontade foi bater o telefone para a TV Globo e dizer: — “Minha senhora, não se esqueça do nadador.” Se vocês admitirem a comparação, eu diria que há, sim, um nadador no problema da juventude. Sim, o que está por trás da família, da sociedade, das gerações é um velho conhecido nosso, ou seja: — o homem.

Os sociólogos do Otto, os psicólogos do Otto, os educadores do Otto, os professores do Otto — ainda não chegaram ao ser humano e o ignoram com uma crassa e bovina teimosia. É preciso que alguém lhes escreva uma carta anônima, com o furo sensacional: — “O homem existe! O homem existe!” E vai ser um susto, um pânico, um horror quando os citados especialistas perceberem que a besta humana está inserida na nossa paisagem.

Eis a verdade: — todas as segundas-feiras, o programa do Otto apresenta um feroz, um rancoroso inimigo do óbvio. E que dizer do escrete? Passo do Otto para o Campeonato do Mundo. Amigos, um dos mais graves problemas da seleção era o companheiro de Pelé. Oitenta milhões de brasileiros queimam os miolos, sem achar a solução. Onde encontrar esse misterioso, utópico, alucinante companheiro?

Não tem perdão a obtusidade com que insistimos em Servílio. Só no jogo com o Peru é que desconfiamos do óbvio ululante. Não havia nenhuma afinidade entre alhos e bugalhos, ou seja: — entre Servílio e Pelé. Mas no dia seguinte, todo mundo enxergou, de repente, outro óbvio, ainda mais estarrecedor: — Alcindo. O tal companheiro de Pelé, mais esperado do que um Messias, era o formidável centauro gaúcho.

Notem que estava na cara. Mas ai de nós, ai de nós! Nunca enxergamos o que está na cara. Alcindo treinava com uma saúde, um élan, uma fome, uma sede, uma fúria sagrada. Se pusessem um paralelepípedo na arquibancada, ele diria, com o dedo apontado para Alcindo: — “Esse é o companheiro de Pelé!” (Nas minhas crônicas, os paralelepípedos têm dedo.) Mas como eu ia dizendo: — o que um paralelepípedo veria, ao primeiro olhar, nós não vimos. E, por fim, ninguém acreditava mais no tal companheiro. Foi preciso que jogassem o Brasil e a Polônia, lá no Mineirão. E o óbvio baixou, de repente, no estádio. Não há mais dúvida, não há mais nada. O jogador que o óbvio escala é inarredável, irreversível, assim na terra como no céu.

O Globo, 8/6/1966

(1) Título sugerido pela edição do livro A pátria em chuteiras (Companhia das Letras, 1994). A crônica foi publicada originalmente na coluna “À sombra das chuteiras imortais” sem título. (N.E.)