Especiais - Guerrilha do Araguaia, uma geração de armas nas mãos contra a ditadura

Reportagens sobre a Guerrilha do Araguaia

Publicado em 11.04.2010

A população local tem interesse em mostrar para o restante do país o que foram obrigados a esconder até hoje

Eumano Silva, no Correio Braziliense

Militantes comunistas caçavam na mata, tratavam doentes e jogavam futebol para conquistar a simpatia dos nativos. São histórias que pessoas como Pedro Onça, João Francisco, David Rodrigues jamais esqueceram.

Pedro Onça foi preso em Xambioá quando os militares descobriram em seu poder uma lista de compras feita pelos guerrilheiros.

Pedro Sande, 66 anos, foi um dos maiores amigos dos guerrilheiros do PCdoB durante os combates contra o Exército na década de 70. Ainda vive na região dos Caianos, a 36 quilômetros do rio Araguaia, mesmo lugar onde morava quando viu um militante comunista pela primeira vez.

Naquele tempo, a casa de Pedro era a mais distante do rio, cercada de floresta amazônica por todos os lados. Ganhou fama de bom caçador e o apelido de Pedro Onça. "Perdi a conta de quantos bichos matei", conta.

Os militantes do PCdoB ainda são conhecidos de Pedro Onça pelos nomes de guerra. O médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho, por exemplo, é chamado de Juca. A admiração de Pedro Onça pelos guerrilheiros começou quando Juca o curou de uma malária. "Eles todos eram muito bons para tratar da gente", afirma.

Vizinho do maranhense Pedro Onça, Juca era o responsável pelos serviços de saúde da guerrilha. Especializou-se em doenças típicas da região, como malária e leishmaniose. "Ele cobrava pelo serviço, mas se a pessoa não tivesse dinheiro ele curava assim mesmo", conta Pedro Onça. Juca foi morto num confronto com o Exército em setembro de 1972.

Paulo Mendes Rodrigues era o comandante do destacamento C, um dos três grupamentos montados pelos guerrilheiros. Montou um pequeno armazém e também vendia remédios nas margens do Araguaia. Nos anos 60, não havia farmácia em Caianos.

O economista Paulo tornou-se amigo de Pedro Onça logo que chegou à região. Quando o Exército descobriu a existência do movimento armado, Paulo fugiu com os companheiros para o interior da mata e a casa de Pedro tornou-se um dos principais pontos de referência.

Um dia Paulo procurou Pedro Onça com uma lista de compras escrita em um papel. Como não podia aparecer, Paulo pediu que Pedro fosse à cidade para buscar algumas encomendas. "Ainda falei para ele que aquilo podia ser perigoso, dar rolo, mas ele insistiu e eu topei a parada", diz o caçador.

Um dos pedidos que Pedro se lembra era um par de botinas. Há muito tempo na selva, um dos maiores problemas para os guerrilheiros era conseguir calçados.

Quando chegou a Xambioá, Pedro Onça foi procurado pelo Exército. Os militares perguntaram se as compras eram para os guerrilheiros. Pedro negou, mas eles não acreditaram. Bastou uma simples revista para que a lista de compras fosse encontrada. "Fui preso na base de Xambioá e jogado num buraco redondo, de uns três metros de fundura", diz.

Depois de passar a noite no buraco, Pedro Onça foi levado para São Geraldo, Marabá e Bacaba, cidades paraenses onde também havia bases do Exército. Apanhou, lavou pratos e tomou choques. Depois de 22 dias preso, foi liberado com a condição de ajudar o Exército na captura dos guerrilheiros.

Foi uma época muito delicada para Pedro Onça. Era obrigado a andar pela mata com os militares, mas nunca entregou os amigos. Às vezes, os comunistas apareciam. Sempre conseguiam alguma coisa para comer. Quando o Exército pedia informações, ele não mentia. Com isso, conseguiu sobreviver.

Pedro Onça hoje lembra com saudade dos tempos que os guerrilheiros chegaram a Caianos. "Eles gostavam de caçar comigo", conta. "Teve até um dia em que o Zé Francisco ficou com medo dos porcões do mato e subiu num pau cheio de espinho", lembra, bem-humorado.

O nome verdadeiro de Zé Francisco era Francisco Manoel Chaves, um velho militante comunista. Quando chegou ao Araguaia, tinha mais de 60 anos. Foi morto pelo Exército em 1972.

Falante e hospitaleiro como nos tempos da guerrilha, Pedro Onça leva uma vida feliz ao lado da mulher Francisca e cercado de filhos e netos. Ainda guarda a mesma espingarda que caçava com os guerrilheiros e preservou um pedaço de mata para os bichos cada vez mais escassos na região.

João Francisco Lima, 67 anos, foi um dos primeiros moradores de Caianos a se encontrar com os guerrilheiros. Ainda hoje mora na mesma casa em frente ao rio Araguaia, passagem obrigatória para quem atravessa de Araguanã, no Tocantins, para a região de Caianos. "Eu me lembro direitinho quando chegou o Paulo", diz, referindo-se a Paulo Mendes Rodrigues. "Ele falou que era de São Paulo e comprou um pedaço de terra pertinho daqui".

Paulo apareceu na região em 1967. Nos meses seguintes, outros estranhos desembarcaram na casa de tábua que ele construiu para morar e montar o pequeno armazém. Passaram a ser conhecidos como "paulistas". Dos vinte guerrilheiros do Destacamento C, a mais querida era Dinaelza Oliveira Teixeira, a Dina.

Baiana do município de Castro Alves, cursou Geologia em Salvador, mas no Araguaia todos pensavam que era médica ou enfermeira. "Muitas vezes ela andou muitas horas na mata, de noite, para ajudar uma criança a nascer", conta João Lima. De personalidade forte, Dina tinha fama de atiradora. Entre os militares, foi tão temida quanto Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, principal líder da guerrilha. Carregava sempre um facão e um revólver na cintura.

Filho de João Lima e vereador em Xambioá eleito pelo PFL, Carlos Cacheado gostava de jogar futebol com os paulistas quando era criança. Nunca se esqueceu da bola que ganhou do guerrilheiro Daniel Callado, um dos desaparecidos do Araguaia. Também se recorda quando a professora comunista Áurea Valadão criou a primeira escola de Boa Vista, um povoado seis quilômetros distante do Araguaia.

João Lima levou um susto quando, durante uma viagem a Conceição do Araguaia, no Pará, viu um cartaz com fotos dos forasteiros. Eram todos procurados como "terroristas". Quando voltou para a roça, o Exército estava na casa de Paulo. A partir daquele dia, os "paulistas" se embrenharam na mata e assumiram o papel de guerrilheiros.

David Rodrigues de Souza, 70 anos, estava doente de malária quando os guerrilheiros Raul e Valk chegaram em sua casa. Morava perto de Brejo Grande, no sul do Pará. Raul era o pseudônimo do Antonio Teodoro de Castro, ex-estudante de Farmácia no Rio de Janeiro. Valquíria Afonso Costa nasceu em Uberaba, Minas Gerais, e abandonou o curso de Artes e Educação em Belo Horizonte para lutar no Araguaia.

Naquele tempo, final de 1973, os militantes do PCdoB haviam amargado várias derrotas. Depois de tomar um remédio contra malária receitado por Raul, David resolveu dar um conselho. "Acho que vocês deveriam se entregar e, se quiserem, eu posso levar vocês", disse. "Obrigado, mas estamos decididos a lutar até o fim", respondeu Valquíria. Em seguida, ela deu de presente a David um livreto com as propostas dos guerrilheiros para o Brasil. "Eu me lembro que eles queriam acabar com a pobreza daqui", lembra David. "Lamento sempre que tenha acontecido aquilo tudo com um pessoal que queria ajudar o povo do norte", conclui. Há cerca de um mês, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara desenterrou uma cabeça sem corpo no cemitério de Xambioá. Suspeita-se que seja de Valquíria.

Sinais da repressão

Ex-guia de soldados na selva amazônica revela a crueldade dos métodos utilizados pelos militares para subjugar guerrilheiros do PCdoB. O Correio Braziliense ouviu dezenas de depoimentos de camponeses que presenciaram as atrocidades.

Os moradores do Sul do Pará e do Norte do Tocantins passaram as últimas três décadas com medo. No palco da Guerrilha do Araguaia, a população ainda carrega o trauma do tempo em que o Exército, ajudado pela Marinha e Aeronáutica, combateu militantes do PCdoB. Foram necessários quase três anos de luta sangrenta, entre abril de 1972 e janeiro de 1975, para cerca de dez mil soldados derrotarem 69 comunistas.

Os governos dos presidentes Emílio Garrastazzu Medici e Ernesto Geisel aproveitaram-se da ditadura implantada no Brasil para manter o povo alheio ao que acontecia nas duas margens do rio Araguaia. A crueldade dos métodos usados pelos militares para obter informações sobre os guerrilheiros, porém, não sai da memória dos habitantes da região.

Durante duas semanas, a equipe do Correio Braziliense percorreu cerca de quatro mil quilômetros em busca de pessoas que aceitassem romper o silêncio para contar o que se passou na época da Guerrilha. O resultado foi dezenas de depoimentos estarrecedores. As pessoas eram proibidas de sair de suas casas nas cidades e as mulheres não podiam andar sozinhas porque temiam ser atacadas por soldados.

Velhos camponeses contaram com exclusividade como o Exército torturou e matou guerrilheiros e camponeses sem qualquer respeito à Convenção de Genebra, o regulamento internacional das guerras. Muitas vítimas não tinham qualquer relação com militantes do PCdoB.

As atrocidades narradas pelos sobreviventes parecem não ter limites. Em troca de recompensas financeiras oferecidas pelo governo federal, os militares apresentavam cabeças cortadas de guerrilheiros mortos. Cemitérios clandestinos foram criados e ainda hoje os familiares das vítimas não sabem onde elas foram enterradas.

Cícero Pereira Gomes, 68 anos, foi levado ontem pelo Correio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara para contar o que viu durante os dois anos e três meses em que serviu de guia para o Exército. Tem medo de morrer pelas revelações que fez.
Os camponeses nunca tiveram quem reclamasse por seus mortos e torturados. Agora, o Brasil pode conhecer um pouco do que se passou com aquele povo.

A Guerrilha não será esquecida

As Forças Armadas, principalmente o Exército, quiseram apagar as marcas da Guerrilha do Araguaia. Até hoje não se sabe o local onde foram enterrados os militantes do PCdoB mortos nos confrontos com os militares no início da década de 70. Sabe-se que foram enterrados sem identificação ou queimados na Serra das Andorinhas. Os moradores da região tiveram de se desfazer dos vestígios do conflito armado para não serem acusados de cumplicidade com os comunistas. Pelo mesmo motivo, precisaram ficar calados sobre o assunto.

A Guerrilha começa a entrar para a história oficial de Xambioá, no Tocantins, quase trinta anos depois da morte dos últimos combatentes comunistas. Uma audiência pública convocada pelo prefeito Wilmar Leite Júnior, do PPB, aprovou a criação de um memorial para o movimento armado.

Os nove vereadores do município ficaram a favor da iniciativa. "A população perdeu o medo e sabe da importância da guerrilha para a história e o turismo da região", diz o prefeito.

O monumento planejado terá um museu com objetos relacionados à guerrilha, biblioteca e espaço para oficinas de arte. Abrigará também um mausoléu para enterrar os mortos da guerrilha. Falta saber se somente para os militantes esquerdistas, ou se também para os soldados que tombaram em combate.

Os sinais do interesse turístico começaram a aparecer nos últimos anos. Estudantes, professores, historiadores e militantes de esquerda têm visitado a região em busca de informações sobre a Guerrilha. Como atrativo Xambioá ainda oferece as belezas naturais do rio Araguaia e da Serra das Andorinhas, do lado paraense.

O clima de unanimidade no resgate da história da guerrilha começou há uns dois meses, quando a Comissão de Direitos Humanos da Câmara recebeu a ajuda da população para realizar escavações em busca de covas clandestinas. Os habitantes de Xambioá começavam a perder o medo.

O Correio publicou há duas semanas uma série de reportagens com depoimentos de camponeses sobre os métodos sanguinários usados pelos militares na repressão ao movimento armado. Contaram mais um pedaço da história da guerrilha. Vítima de torturas e desaparecimentos, a própria população tem interesse em mostrar para o restante do país o que foram obrigados a esconder até hoje.

A idéia de construção do memorial começou a deslanchar. O arquiteto Oscar Niemeyer desenhará o projeto e as verbas para a obra são esperadas de uma emenda do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) ao orçamento da União.

Há muita expectativa na cidade para o que sobrou da Guerrilha. São poucas as peças remanescentes de que se tem notícia, mas aguarda-se o aparecimento de objetos escondidos pelos moradores. Pelo relato dos que viveram os tempos da Guerrilha, sabe-se que muitas armas dos militantes do PCdoB foram jogadas no rio Araguaia. Essa medida também fez parte do esforço militar de acobertamento de uma parte da história do Brasil.

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Cortando cabeças no Araguaia

Eumano Silva, no Correio Braziliense

Ex-guia de soldados na selva amazônica revela a crueldade dos métodos utilizados pelos militares para subjugar guerrilheiros.

O medo contabiliza três décadas entre os moradores do Sul do Pará e do Norte do Tocantins. No palco da Guerrilha do Araguaia, a população ainda carrega o trauma do tempo em que o Exército, ajudado pela Marinha e pela Aeronáutica, combateu militantes do PC do B. Foram necessários quase três anos de luta sangrenta, entre abril de 1972 e janeiro de 1975, para cerca de dez mil soldados derrotarem 69 comunistas. Os governos dos presidentes Emílio Garrastazzu Medici e Ernesto Geisel mantinham o povo alheio ao que acontecia nas duas margens do rio Araguaia.

A crueldade dos métodos usados pelos militares para obter informações sobre os guerrilheiros, porém, não sai da memória dos habitantes da região. Durante duas semanas, a equipe do Correio percorreu cerca de quatro mil quilômetros em busca de pessoas que aceitassem romper o silêncio para contar o que se passou na época da guerrilha. O resultado foi a coleta de dezenas de depoimentos estarrecedores. As pessoas eram proibidas de sair de suas casas nas cidades e as mulheres não podiam andar sozinhas porque temiam ser atacadas por soldados.

Atrocidades

Velhos camponeses contaram com exclusividade como o Exército torturou e matou guerrilheiros e camponeses sem qualquer respeito à Convenção de Genebra, o regulamento internacional das guerras. Muitas vítimas não tinham qualquer relação com militantes do PC do B. As atrocidades narradas pelos sobreviventes parecem não ter limites. Em troca de recompensas financeiras oferecidas pelo governo federal, os militares apresentavam cabeças cortadas de guerrilheiros mortos. Cemitérios clandestinos foram criados e ainda hoje os familiares das vítimas não sabem onde elas foram enterradas. Cícero Pereira Gomes, 68 anos, foi levado ontem pelo Correio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara para contar o que viu durante os dois anos e três meses em que serviu de guia para o Exército.

Tem medo de morrer por causa das revelações que fez. Ao contrário dos guerrilheiros - em grande parte provenientes da classe média das grandes cidades -os camponeses nunca tiveram quem reclamasse por seus mortos e torturados. Agora, o Brasil começa a tomar conhecimento do que se passou com aquele povo que vive às margens do Araguaia. É a visão dos que foram obrigados a trabalhar para os vencedores. Cícero Pereira Gomes, hoje com 68 anos, tinha uma posse de terras na região de São Geraldo, no sul do Pará, quando recebeu a visita do Exército em outubro de 1973.

''Os soldados disseram para eu avisar toda vez que visse um guerrilheiro'', contou Cícero em depoimento exclusivo ao Correio na semana passada. ''Sou pai de família e tive de fazer o que eles mandaram''. Na segunda vez que levou notícias aos militares, foi convocado para trabalhar como mateiro, nome usado para designar a função de guia na selva amazônica. O Exército estava à procura de militantes do PC do B embrenhados na selva e empenhados em fazer uma guerrilha para derrubar o governo dos generais com o apoio da população rural. Durante dois anos e três meses, Cícero ficou à disposição do Exército. ''Vi tanta sujeira que nunca mais vou me esquecer'', afirmou o lavrador, agora aposentado. ''Morro e não acaba essa paixão''.

Tortura

No relato feito em várias conversas, Cícero afirmou que perdeu a conta das vezes que viu moradores da região serem torturados para dar informações sobre os guerrilheiros. Fornecer qualquer tipo de ajuda aos comunistas era considerado um crime sem perdão. ''Apanhavam com tala de coco, que faz o couro murchar para dentro, até ficar inchados e, se morriam, eram jogados no mato'', afirmou o camponês. Uma das práticas mais comuns, segundo a testemunha, era afundar a cabeça dos lavradores em tambores de duzentos litros cheios de água. Outra, era pendurar pelos órgãos sexuais os suspeitos de ajudar os comunistas. Os testículos de um deles teriam ficado com meio metro de comprimento. ''Isso aconteceu com o Zé Novato, e eu não sei como ele resistiu.'' Cícero diz que perdeu a conta das vezes que viu moradores da região serem torturados para dar informações sobre os guerrilheiros.

Fornecer qualquer tipo de ajuda aos comunistas era considerado um crime sem perdão. José Novato ainda é vivo, mora em São Geraldo, mas recentemente sofreu um derrame e não pôde dar entrevista ao Correio. Cícero disse estar muito doente, com uma dor no peito que não sabe do que se trata. ''Não quero morrer com esse peso na consciência, sem contar tudo o que vi.'' No trecho mais assustador de seu depoimento, contou como assistiu à morte e decapitação do guerrilheiro Adriano Fonseca Fernandes Filho, conhecido como Chicão ou Queixada. ''Ele foi morto por Raimundinho com um tiro de espingarda no peito, a mando do tenente que comandava a operação'', afirmou Cícero. ''Quando recebeu a bala, o Chicão botou a mão na cara e deu um gemido doído que até hoje parece que eu escuto.''

O atirador era um morador da região, segundo Cícero, e o tenente dizia se chamar Dr. Silva. ''Depois, o mesmo Raimundinho cortou a cabeça do Chicão'', afirmou. ''Ajudei a carregar a cabeça dele num saco pelo meio da mata'', destacou o ex-guia do Exército no Araguaia. ''Pesava tanto que até parecia um corpo inteiro''. Seguindo as indicações de Cícero, o Correio tentou encontrar Raimundinho, um camponês, mas o homem acusado de matar Adriano não foi localizado. Cícero conta que assistiu a tudo com uma espingarda na mão e um pé apoiado num toco. Isso teria acontecido no final de novembro de 1973.

Cabeça a prêmio

O guerrilheiro Adriano Fonseca era mineiro de Ponte Nova. Cursou Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e participou do movimento estudantil no final dos anos 60. Em 1971, mudou-se para a região da Gameleira, às margens do rio Araguaia. ''Ouvi dizer que a cabeça dele valia 5 mil cruzeiros em Brasília.'' Nas conversas com o Correio, o ex-mateiro diz nunca ter tirado a vida de ninguém. ''O Exército me mandou matar muita gente, mas cansei de brigar com eles porque eu não estava lá para isso'', afirmou Cícero.

Numa ocasião, tentou evitar que o guerrilheiro Daniel Callado continuasse apanhando. Estirado no chão, Daniel recebia murros e pontapés dos soldados. ''Eu falei para o Curió que, se o homem merecia morrer, que morresse, mas que não deveria sofrer daquele jeito'', disse Cícero, referindo-se a Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como Major Curió, um dos comandantes da repressão militar ao movimento armado do Araguaia. Ex-deputado federal, hoje o Major Curió é prefeito de Curionópolis, cidade localizada no Sul do Pará, próxima ao garimpo de Serra Pelada e batizada em homenagem a ele. Daniel Callado nasceu em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e foi preso pelo Exército no final de 1973.

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Guerrilheiros executados

Ronaldo Brasiliense, no Correio Braziliense

Toda a ação militar foi realizada secretamente, sem que a imprensa, censurada à época, pudesse noticiar qualquer conflito entre o Exército e os guerrilheiros do PC do B na selva amazônica

Na Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, todos os prisioneiros feitos pelas Forças Armadas durante os combates, militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), foram executados. O mais contundente documento registrando a prisão de guerrilheiros, com 34 páginas, protocolado com o número 804, foi produzido pelo CIE - Centro de Informações do Exército - em 9 de novembro de 1972, assinado pelo então tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga, chefe da Agência do CIE no Distrito Federal, à época. O relatório foi encaminhado ao general Orlando Geisel, ministro do Exército no governo do general-ditador Emilio Garrastazu Médici.

O documento militar mostra que o Exército, em uma das ações de combate aos guerrilheiros do PC do B no Araguaia, fez seis prisioneiros, todos integrantes, posteriormente, da lista dos "desaparecidos políticos" durante a ditadura. Mostra também que 12 guerrilheiros foram mortos e relata que, no lado das Forças Armadas, 16 militares foram abatidos, 10 feridos e houve um desaparecido. A relação de presos da Guerra do Araguaia era encabeçada por Dower Cavalcanti, codinome "Domingos", e por Dagoberto Alves da Costa.

A lista oficial de guerrilheiros mortos cita Idalício Soares Aranha Filho, o "Aparício", e Maria Lucia Petit da Silva, a "Maria". Toda a ação militar foi realizada secretamente, sem que a imprensa, censurada à época, pudesse noticiar qualquer conflito entre o Exército e os guerrilheiros do PC do B na selva tropical do sul do Pará e norte do Tocantins.O documento secreto do CIE apresenta em suas páginas iniciais um relato conciso sobre como se deu a infiltração guerrilheira do PC do B na área de influência do rio Araguaia, entre o Pará e o Tocantins, região hoje mais conhecida como "Bico do Papagaio", famosa pelos conflitos armados pela posse da terra e pelos assassinatos de trabalhadores rurais.

A descoberta

O relatório do tenente-coronel Carvalho Braga mostra que as Forças Armadas conseguiram as primeiras informações sobre a presença de uma guerrilha rural no Araguaia após a prisão do estudante Pedro Albuquerque Neto, no aeroporto de Fortaleza, Ceará, em 1971. Segundo o documento, Pedro Albuquerque e sua namorada Ana Cristina estavam sem documentos de identidade e foram detidos para averiguações por agentes da Polícia Federal. Interrogados na sede da Polícia Federal, em Fortaleza, os dois revelaram a existência de um foco guerrilheiro em implantação no Araguaia.

Pedro Albuquerque confessou, conforme o documento militar, que escapou do Araguaia com sua namorada para fugir de uma exigência do Regulamento Militar do PC do B: Ana Cristina estava grávida e o comando da guerrilha exigia que ela abortasse. A partir do depoimento de Pedro Albuquerque, o Centro de Informações do Exército passou a coordenar as ações desencadeadas para aniquilar o foco guerrilheiro.

Operação Axixá

A primeira grande investida das Forças Armadas no combate à guerrilha foi denominada de "Operação Axixá", iniciada em fevereiro de 1972, segundo Relatório Especial de Informações nº 2/12, Protocolo 2.309, encaminhado em 20 de março de 1972 pelo tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga ao ministro do Exército, general Orlando Geisel. O documento, que também chegou às mãos do general Hugo de Abreu, ministro-chefe do Gabinete Militar da Presidência da República e foi encaminhado ainda ao próprio presidente Emilio Médici, faz críticas à primeira ação contra os guerrilheiros e apresenta sugestões de como deveriam ser programadas as próximas operações.

O documento não registra os motivos que levaram a primeira operação anti-guerrilheira ao fracasso, mas um militar que participou da operação, hoje coronel da reserva remunerada do Exército, revela que os militares chegaram à região do Araguaia usando de violência indiscriminada contra a população local, exatamente ao contrário do que faziam os guerrilheiros do PC do B que, com habilidade, cativavam a simpatia dos caboclos com atendimento médico e odontológico, distribuindo alimentos e promovendo mutirões. Os guerrilheiros Ciro da Cunha Brum e Paulo Roberto Pereira Matos chegaram a montar uma farmácia no vilarejo conhecido como Palestina, onde davam assistência à população nativa, quase sempre gratuita.

O PC do B contava ainda com militantes como Tobias Pereira Junior e Lucia Maria de Souza, estudante de medicina vindos do Rio de Janeiro, e a enfermeira Luiza Felipe Garlippe, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que prestavam todo tipo de assistência médica aos lavradores da região. Com o aparato de assistência social montado na região, os guerrilheiros do PC do B contavam com o apoio da população, que, na primeira operação das Forças Armadas na região, resistiu a colaborar na localização dos acampamentos da guerrilha.

O Exército, então, tentou obter a adesão dos lavradores à força, obrigando à base de tortura e ameaças que os mateiros servissem de guia para as tropas. Muitas vezes, os caboclos do Araguaia - por vingança - enganavam os pelotões do Exército, fazendo-os caminharem em círculos pela floresta tropical úmida por dias seguidos. A campanha militar foi um fracasso: dezenas de soldados e oficiais contraíram malária, leischmaniose e outras doenças tropicais e muitos desertaram. Os guerrilheiros registravam suas primeiras vitórias.

“Manobrão”

Diante do insucesso da primeira operação militar, o general Milton Tavares, comandante do Centro de Informações do Exército, de linha dura, convenceu o ministro Orlando Geisel a desencadear uma operação de guerra de grande porte, batizada de "Manobrão". Os estrategistas militares decidiram adotar a tática da "bigorna e martelo": ou seja, o grosso do efetivo militar cercava a região, enquanto pelotões invadiam a selva e empurravam os guerrilheiros em direção à tropa.

Mas, mais uma vez, o plano não funcionou. Os chefes militares desconheciam por completo as dimensões territoriais da região onde o PC do B montou suas bases guerrilheiras, uma área maior do que a Bélgica. Sem falar que o "Manobrão" obrigou as Forças Armadas a uma mobilização gigantesca de tropas, a maior que se tinha conhecimento no país em tempos de paz.

Num episódio macabro, o general Antonio Bandeira, comandante supremo do "Manobrão", anunciou aos guias contratados pelo Exército no Araguaia que pagaria um prêmio por cabeça de guerrilheiro morto. Um dos guias levou a ordem ao pé da letra e entregou a cabeça de um guerrilheiro dentro de uma saca de sarrapilha. O episódio chocou os próprios militares que participavam da operação.

O relatório secreto do tenente-coronel Carvalho Braga registra o envio de dois batalhões de infantaria de selva (BIS), uma companhia aero-transportada, um comando reforçado de paraquedistas, uma companhia de fuzileiros navais e um "comando numerado" da Força Aérea Brasileira (FAB). O centro das operações militares foi instalado na cidade de Xambioá, no norte do Tocantins (à época, Goiás), com a montagem de acampamentos, a construção de pistas de pouso e a chegada de caminhões para os transporte de tropas, armamentos e suprimentos.

Xambioá foi tomada por uma tropa de 3.200 homens e toda a aparelhagem militar mais moderna disponível na ocasião, ao longo de oito meses de campanha. A Força Aérea Brasileira enviou para a região um grande aparato bélico, incluindo quatro helicópteros UH, três aviões C-115 (Buffalo), um C-47, quatro aviões D-19, de reconhecimento, e outros quatro aviões T-6, caças de combate. O relatório oficial registra a realização de operações aéreas na região, mas omite o lançamento de bombas sobre supostos alvos guerrilheiros, segundo o depoimento de militares que participaram do "Manobrão".

Esses bombardeios causaram mortes entre a população civil da região. Na página 1037 do documento secreto do CIE, o tenente-coronel Arnaldo Braga apresenta um quadro com os resultados obtidos no combate aos focos de guerrilheiros nos municípios de Marabá e Conceição do Araguaia, no Pará, e Xambioá, em Goiás (hoje Tocantins), às margens do Araguaia. O Exército contabilizava 55 guerrilheiros na região já identificados. Destes, 12 já haviam sido mortos, seis estavam presos e outros 37 haviam conseguido escapar o cerco, mas ainda estavam na região. A guerra continuava.

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O amor nos tempos de guerra

Eumano Silva, no Correio Brazieliense

A agricultora Neuza Rodrigues estava se separando do marido quando conheceu Amaro Lins. A família ficou contra o namoro com aquele homem que ninguém sabia muito bem o que pretendia fazer no sul do Pará. Amaro chegou a região acompanhado de um grupo de estranhos sem intimidade com o cultivo da terra. A diferença de idades também pesava contra o relacionamento amoroso. Ela tinha tinha 21 anos, ele 48. Mas um segredo guardado por Amaro iria interferir muito mais na vida futura do casal.

Alguns meses depois, os dois romperam os preconceitos e resolveram morar na margem paraense do rio Araguaia. Viviam juntos há três anos quando, no dia 11 de abril de 1972, três policiais chegaram na casa deles. Os agentes queriam saber se Amaro conhecia as pessoas com quem ele tinha chegado ao Pará. Ele confirmou e passou dez dias preso. Quando voltou, Amaro contou que a mulher que era um guerrilheiro do PC do B. Junto com os amigos, formavam o destacamento C do movimento armado montado pelo partido para tentar vencer a ditadura militar. Neuza não se sentiu traída.

"Eu disse que continuaria ao lado dele mesmo assim", diz Neuza. "Decidi participar também porque eu não via nada de errado nas coisas que eles faziam". A prisão do marido de Neuza fazia parte da primeira investida do governo federal contra os guerrilheiros do Araguaia. Três meses antes, os companheiros de Amaro tinha desaparecido na mata porque ficaram sabendo de movimentações policiais.

Amaro tinha permanecido para cuidar das terras que os comunistas possuíam. Preso, disse que não pertencia mais à guerrilha. Afirmou que saiu quando decidiu casar-se com uma moradora local. Em parte, o que Amaro disse aos policiais era verdade. Pelas regras internas dos guerrilheiros, nenhum militante podia namorar habitantes do lugar. Quando revelou o amor por Neuza, o PC do B exigiu que ele optasse entre ela e o partido. Amaro escolheu Neuza e passou a ser vigiado de perto pelos militantes do PC do B.

"Amaro tornou-se um prisioneiro do partido e só podia viajar para Araguaina, conta Neuza, referindo-se à cidade que fica do outro lado do rio, hoje no estado de Tocantins. O partido temia que Amaro delatasse a preparação do movimento armado. Aos poucos, os guerrilheiros voltaram a ter confiança nele, mas Neuza continuou sem saber o que se passava até o dia em que Amaro saiu da prisão.

A partir daquele dia, ele passou a ser vigiado também pelo Exército. Só podia trabalhar em mutirão e deveria avisar os militares toda vez que visse os guerrilheiros. Não cumpriu a determinação e continuou ajudando os antigos amigos sempre que podia. Fornecia alimentos e informações aos comunistas. Algum tempo depois, Amaro foi novamente preso. Levado para Marabá, tomou choque elétrico e viu outros guerrilheiros nas mãos do Exército. Amaro mais uma vez convenceu os militares de que tinha abandonado a guerrilha e foi solto.

João Carlos Haas Sobrinho, conhecido como Juca, e outros dois guerrilheiros estiveram na casa de Amaro poucos dias depois. Juca disse que a luta contra o Exército estava muito difícil e perguntou se o casal preferia continuar na casa na beira do Araguaia ou se iria com eles para o meio da mata. Deu um mês para pensarem. "O Exército estava pertinho de casa e eu não sei como o Juca e os outros dois nïo foram vistos", disse Neuza. O casal tinha decidido se incorporar à guerrilha em setembro de 1972, quando recebeu a notícia de que Juca tinha sido morto, traído por alguns moradores que tinham avisado o Exército.

O médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho tombou metralhado no dia 30 de setembro de 1972. Com a morte de Juca, o casal perdeu o contato com o PC do B. A guerrilha foi derrotada dois anos depois e Amaro chorava muito pela morte dos antigos companheiros. Mudaram da casa onde moravam em 1984 para um local conhecido como Lote Oito. Neuza e Amaro tiveram quatro filhos. Helenira, a caçula recebeu esse nome em homenagem à guerrilheira Helenira Resende, morta em setembro de 1972 e Maurício foi uma referência a Maurício Grabois, dirigente do PC do B que tombou no Araguaia.

Outro filho, Valdemir, teve uma filha chamada Áurea por causa de Áurea Valadão, também morta na luta contra os militares. Em 1986, foram viver em São Geraldo para ajudar na campanha política. "Ele nunca traiu o partido", diz Neuza. Com pouco dinheiro e sem as terras que tiveram de vender para mudar para a cidade, passaram a depender da máquina de costura de Neuza. Amaro morreu em junho do ano passado com 86 anos de idade. Em 1996, deu entrevistas para jornalistas e foi localizado por duas filhas que tinha deixado no Rio de Janeiro, onde era pedreiro antes de ir para o Araguaia. "No fim da vida, ele já vivia muito angustiado e nervoso, acho que porque sofreu muito com tudo o que aconteceu", diz.

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Os filhos de Osvaldão

Eumano Silva, no Correio Braziliense

Desde pequenos, Juracy, Antônio e Silmar convivem com a dúvida de serem ou não descendentes do guerrilheiro Osvaldão. Passaram a infância com medo da perseguição dos militares

J uracy Bezerra Costa tem uma história triste para contar. A mãe dele, Maria Viana, vendia comida na periferia de Xambioá quando ele nasceu. O local era freqüentado por homens e prostitutas. Conhecida como Mariazona, ela teve um relacionamento amoroso com Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, o mais conhecido dos guerrilheiros do Araguaia. Na cidade, comentava-se que o menino era filho do militante comunista. A vida de Juracy começou a mudar em março de 1972, quando o Exército chegou para combater o movimento armado implantado pelo PC do B no norte do Tocantins e no sul do Pará.

Os militares começaram a se interessar pelo menino. Mariazona teve medo de que quisessem o garoto para pressionar Osvaldão a se entregar. Naquele tempo, Juracy não tinha registro de nascimento nem havia sido batizado. Era conhecido por Dadá, mas uma irmã o chamava por outro nome, Geovani. O medo do Exército fez a mãe doá-lo para Odília Neves dos Santos e Miguel Francisco dos Santos, um casal amigo, que já havia adotado outra criança, Ponciano, hoje com 45 anos.

O cuidado mostrou-se inútil e, no dia 16 de outubro de 1972, foi pego pelo Exército e levado para o mato. A memória de Juracy registra um período de seis meses vividos na selva amazônica. Pior que isso, guarda cenas de terror. ''Um dia um soldado colocou minha mão no fogo e disse que fazia aquilo porque o Osvaldão havia matado um irmão dele'', diz. Como prova da atrocidade, Juracy mostra a mão defeituosa, marcada por uma cicatriz que juntou os dedos e prejudica os movimentos. A queimadura e uma pneumonia adquirida na selva forçaram a transferência do menino para um hospital militar de Fortaleza. O suposto filho de Osvaldão teve melhor tratamento no hospital.

Um militar que o conheceu doente, Antonio Hercílio Azevedo Costa, ficou compadecido e decidiu adotá-lo. Ganhou o nome de Juracy Bezerra Costa e uma data de nascimento fictícia, 12 de novembro de 1966. Por coincidência ficou com o mesmo sobrenome que teria se um dia fosse reconhecido por Osvaldão. Quando estava prestes a chegar à adolescência, Juracy perdeu o pai adotivo num acidente de carro. Passou a ser maltratado pelos avós adotivos e saiu de casa. Fez nova tentativa de morar com os pais de Antonio Hercílio, mas um dia desistiu. Viveu em casa de conhecidos e passou a fazer bicos para se sustentar.

Juracy estudou até quase concluir o 2º Grau e teve vários empregos com carteira assinada. ''Nunca esqueci o que me aconteceu quando era criança'', afirma. Um dia viu na televisão uma reportagem sobre descobertas a respeito da guerrilha do Araguaia e decidiu correr atrás de sua história de vida. Levou mais de um ano para deixar Fortaleza e outros dois para chegar a Xambioá. Com pouco di-nheiro, trabalhava por onde passava para poder seguir viagem. Há cerca de um ano e meio chegou a Xambioá e reencontrou Miguel e Odília, mãe e pai de criação. Hoje, Juracy quer provar que é filho do guerrilheiro. ''A Mariazona me dizia que ele era filho do Osvaldão'', conta Odília.

Antônio Viana da Conceição não podia ver soldados quando era criança. Filho de Mariazona, mãe de Juracy, também era suspeito de ter Osvaldão como pai. ''Eu não saía de casa com medo do Exército'', diz. Conhecido por Zezinho, terminou adotado pelo casal Pedro Martins da Cruz e Maria de Lourdes da Cruz, moradores da região dos Caianos, na margem paraense do rio Araguaia. Solteiro, Zezinho tem 34 anos e leva uma vida tranqüila com os pais adotivos.

Tem um barco para fazer transportes pelo rio e está sempre cercado de amigos. ''Não sei se sou filho do Osvaldão, mas quero saber para não passar o resto da vida convivendo com essa dúvida'', diz. Silmar Rodrigues viveu até os 16 anos sem ter a menor idéia de quem poderia ser seu pai. De repente, começou a ouvir boatos de que poderia ser filho do guerrilheiro Osvaldão. ''Fiquei com medo e orgulho por saber que meu pai poderia ser um guerrilheiro admirado pela população'', afirma.


Tinha medo de que o ódio de militares a Osvaldão na década de 70 se voltasse contra ele. Filho de Iraci Vieira, conhecida como Baleia, tinha dois anos e onze meses quando a mãe morreu de parto. Iraci teve dez filhos. Com a morte da mãe, Silmar passou a ser criado por Vitalina Alves da Silva e Djalma Rodrigues Cruz. Hoje com 29 anos, tem três filhos e separou-se da mulher. Mora na frente da casa dos pais de criação. Silmar trabalhou em vários lugares, mas há dois anos está desempregado. Faz bicos para sobreviver. ''É muito difícil conseguir emprego fixo em Xambioá'', diz.

Juracy, Zezinho e Silmar querem fazer um teste de DNA para esclarecer a dúvida sobre o nome do pai. Há pouco mais de um mês, foram localizados pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que tem interesse na questão. As características genéticas dos três serão comparadas com material coletado de parentes de Osvaldão. Por enquanto, é impossível saber quem tem mais chance de ser filho do guerrilheiro. Pela história de vida, Juracy parece ter muitas chances, mas Zezinho e Silmar são mais parecidos. Além do interesse familiar pelo esclarecimento, a confirmação da paternidade pode levar a um processo de in-denização. O benefício serviria para dar uma compensação financeira pelos prejuízos que tiveram ao longo da vida, suspeitos de ser filhos de guerrilheiros.

O gigante que dançava bolero

De todos os guerrilheiros do Araguaia, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, era o mais conhecido da população. Negro e com quase dois metros de altura, era uma figura inconfundível pelas ruas das cidades e nas casas dos camponeses. Gostava de dançar bolero e divertir-se com as mulheres.

Conversador e prestativo, fez amigos nas duas margens do rio Araguaia. Com a chegada do Exército, tornou-se o mais temido guerrilheiro. Foi comandante do destacamento B, na região da Gameleira, perto dos povoados de Santa Cruz e Santa Isabel. As vitórias em vários combates contra os militares e o misticismo da população renderam a Osvaldão a fama de que era invencível. Para muitos, tinha o corpo fechado.

Tornou-se uma espécie de lenda. Dizia-se que a cabeça dele valia 20 mil cruzeiros em Brasília, quatro vezes mais do que a do guerrilheiro Adriano Fonseca, apresentado na edição passada. Foi um dos últimos militantes do PC do B a tombar no Araguaia. Relatos da população indicam que foi morto por Arlindo Vieira, um nativo que atuava como guia do Exército. Estava exausto por mais de três anos de perseguição dos militares e foi pego enquanto tomava água num riacho.

Antes de ser guerrilheiro, Osvaldão foi campeão de boxe no Rio de Janeiro pelo clube do Botafogo. Fez CPOR no Exército, onde adquiriu intimidade com armas, e era oficial da reserva. Osvaldão era especialista em mine-ração. Cursou Engenharia de Minas na Checoslováquia e trabalhou em garimpos na Osvaldão Bahia antes de chegar no Araguaia. Mineiro de Passa Quatro, foi o primeiro guerrilheiro a chegar à região. Era o maior conhecedor da mata e tinha liderança absoluta sobre os companheiros. Pelas histórias que contava no Araguaia, a fama de galanteador o acompanhou na Checoslováquia. Dizia ter namorado muitas européias e haver trabalhado em um filme feito em Praga.

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Guerra suja na selva

Ronaldo Brasiliense, no Correio Braziliense

Com um trabalho de inteligência liderado pelo major Curió, o Exército conseguiu virar o jogo após sucessivas derrotas e aniquilar o foco guerrilheiro implantado pelo PC do B no Araguaia

J A Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, colocou em xeque pela primeira vez o poder de reação das Forças Armadas diante de um inimigo que se instalara numa região inóspita, de floresta tropical, entre o sul do Pará e o norte de Goiás (hoje Tocantins). Os guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil tentavam implantar um movimento armado com o objetivo de derrubar a ditadura militar que se consolidara no país após a decretação do Ato Institucional nº 5. Numa primeira fase, haviam conseguido importantes vitórias sobre os militares, que decidiram mudar de estratégia. E foi após um demorado trabalho de inteligência que o Centro de Informações do Exército (CIE) conseguiu, à base da tortura em presos, identificar os principais responsáveis pelo foco guerrilheiro instalado pelo PC do B no Araguaia.

O chefe militar da guerrilha, segundo documentos militares da época, era o ex-deputado federal comunista Mauricio Grabois, que teria chegado à região ainda em 1967, antes, portanto, da decretação do AI-5. Mauricio Grabois seria, segundo os militares, o superior hierárquico de três comandos distintos: o Comando A, liderado por André Grabois, o "Edgar", filho de Mauricio; o Comando B, dirigido pelo técnico em máquinas e motores Osvaldo da Costa, o "Osvaldão"; e o Comando C, que era liderado pelo economista Paulo Mendes Rodrigues. Os militares admitem, no relatório sobre a Guerrilha do Araguaia ao qual O PARAENSE teve acesso, que os guerrilheiros contavam apenas com armamento precário e estariam à espera de armas que seriam fornecidas pela China comunista.

O relatório com o rótulo "secreto" feito pelo tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga se encerra na página 1058, contando que naquela data, 9 de novembro de 1972, por decisão do Estado Maior do Exército, sob orientação do ministro Orlando Geisel, as tropas abandonavam as operações regulares de combate à guerrilha. Os militares reconheciam que não haviam eliminado os focos de resistência comunista. O Alto Comando do Exército decidia, segundo o relatório, deixar tropas das polícias militares do Pará, Goiás e Mato Grosso, sob o comando da unidade do Exército sediada em Marabá, executando as operações no Araguaia. Era o início de uma guerra suja que só se encerraria com o extermínio de todos os 69 guerrilheiros do PC do B destacados para a região do Araguaia.

Guerra suja

A guerra suja deixava de ser uma ação ostensiva para cair na clandestinidade, comandada diretamente pelo Centro de Informações do Exército, o CIE. Aparece na história, então, um personagem que se tornaria célebre na região: Sebastião Curió. Major à época, Sebastião Rodrigues de Moura, com curso de especialização no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), do Comando Militar da Amazônia, ex-lutador de boxe, foi enviado ao Araguaia com o codinome de Marco Antonio Luchini, um engenheiro florestal dos quadros do Instituto Nacional de Colonização e reforma Agrária (Incra), para montar uma operação de inteligência e aniquilar os últimos focos da guerrilha.

Curió montou uma rede de informantes em toda a região do Araguaia. Sua estratégia mais bem sucedida foi a montagem de biroscas para o fornecimento de alimentos e munição ao longo do rio Araguaia, onde obtinha valiosas informações dos caboclos. Mais de uma vez os agentes do CIE recrutados por Curió em quartéis da própria Amazônia - pessoas com características físicas da região - venderam munição sabendo que era destinada aos guerrilheiros, para angariar a confiança dos lavradores.

Dessa forma, sem pressa, Curió conseguiu identificar um a um todos os acampamentos da guerrilha, que passaram a ser atacados por pelotões especialmente treinados para aquele tipo de ação. Na operação mais destruidora, Curió conseguiu executar de uma só vez dois dos principais líderes da guerrilha: o comandante geral Mauricio Grabois e Paulo Mendes Rodrigues, chefe do Destacamento C. Os dois foram surpreendidos na manhã do dia de Natal de 1973 no acampamento da Gameleira, próximo ao rio Araguaia, junto com Guilherme Lund, arquiteto, e Gilberto Olímpio, técnico industrial, genro de Grabois.

Todos foram mortos. Mauricio Grabois, segundo comentou Sebastião Curió com outros militares que participaram da ação, estava praticamente cego.

O fim

O último comandante guerrilheiro a ser morto foi Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, um negro com quase dois metros de altura, o mais temido e procurado de todos os guerrilheiros do Araguaia. Foi executado a tiros em abril de 1974. Trombou de frente com uma patrulha do Exército. Levou o primeiro tiro, de uma espingarda calibre 22, disparado por "Mineiro", um mateiro - como eram conhecidos os guias recrutados pelo Exército na região. Baleado na barriga, Osvaldão foi fuzilado pelos demais integrantes da patrulha militar. O corpo de Osvaldão foi embrulhado num saco de lona verde e içado por um helicóptero. Segundo o relato de um dos participantes da ação, a corda se rompeu no ar, a uma altura de 10 metros e, na queda, o corpo de Osvaldão teve o tornozelo esquerdo fraturado.

Como os outros combatentes mortos, Osvaldão foi enterrado num cemitério clandestino na própria região. A operação Guerra Suja do CIE, ao final dos combates no Araguaia, quando todos os 69 guerrilheiros do PC do B já haviam sido exterminados, concluiu, em relatório secreto enviado ao Conselho de Segurança Nacional (CSN), que a região continuava potencialmente explosiva, sujeita a novos movimentos guerrilheiros porque faltava assistência governamental à população.

O documento militar denunciava a estrutura fundiária injusta, dominada por latifundiários e grileiros. Insistia, também, na implementação urgente de um plano de reforma agrária. O último documento sobre a Guerrilha do Araguaia, assinado pelo próprio Sebastião Curió, alertava que, 15 meses após encerrada a guerrilha, com a morte de todos os militantes do PC do B, apesar de todas as promessas oficiais, a região continuava abandonada pelo governo federal. O que, aliás, até hoje é uma verdade.