Especiais - Dia Internacional das Mulheres

Afinal, o que são relações de gênero?

Publicado em 07.03.2010

O conceito de gênero procura explicar as relações entre mulheres e homens. Ele surgiu após muitos anos de luta feminista e de formulação de várias tentativas de explicações teóricas sobre a opressão das mulheres. A idéia de que existe uma construção social do ser mulher já estava presente há muitos anos.

Mas permaneciam dificuldades teóricas sobre origem da opressão das mulheres, sobre como inserir a visão da opressão das mulheres no conjunto das relações sociais, sobre a relação entre essa e outras opressões, como, por exemplo, a relação entre opressão das mulheres e capitalismo. Não existia uma explicação que articulasse os vários planos em que se dá a opressão sobre as mulheres (trabalho, família, sexualidade, poder, identidade) e, principalmente, uma explicação que apontasse com mais clareza os caminhos para a superação dessa opressão.

Nesse sentido, o conceito de gênero veio responder a vários desses impasses e permitir analisar tanto as relações de gênero quanto a construção da identidade de gênero de cada pessoa. O conceito de gênero foi trabalhado inicialmente pela antropologia e pela psicanálise, situando a construção das relações de gênero na definição das identidades feminina e masculina, como base para a existência de papéis sociais distintos e hierárquicos (desiguais). Esse conceito conceito coloca claramente o ser mulher e ser homem como uma construção social, com base no estabelecido como feminino e masculino e nos papéis sociais destinados a cada um. Por isto, gênero, um termo emprestado da gramática, foi a palavra escolhida para diferenciar a construção social do masculino e feminino do sexo do sexo biológico.

Gênero é um conceito relacional, ou seja, que vê um em relação ao outro e considera que estas relações são de poder e de hierarquia dos homens sobre as mulheres. Hoje em dia, esse conceito é usado praticamente pelo conjunto do feminismo, o que proporcionou um salto coletivo na direção da discussão teórica. Ajudou a romper com as dicotomias antes colocadas: divisões entre específico-geral, público-privado, produção-reprodução, porque busca compreender como as relações de gênero estruturam as práticas sociais nas diversas esferas. Ele permite trabalhar generalizações e particularidades, porque podemos perceber o significado de gênero na sociedade como um todo, assim como na experiência individual ou de um grupo.

As contribuições do conceito de gênero

O conceito de gênero trouxe várias contribuições, entre as quais vale destacar:

Ao afirmar a construção social dos gêneros, estabelece que as identidades e papéis masculino e feminino não são um fato biológico, vindo da natureza, mas algo construído historicamente e que, portanto, pode ser modificado. A construção social dos gêneros tem uma base material (e não apenas ideológica) que se expressa na divisão sexual do trabalho.

O conceito de relações de gênero nos leva à noção de práticas sociais, isto é, o pensar e agir dentro de uma determinada sociedade e à existência de práticas sociais diferentes segundo o sexo.

As relações de gênero são hierárquicas e de poder dos homens sobre as mulheres. Essas relações de poder são as primeiras vividas por todas as pessoas e é com elas que começamos a apreender o mundo. Ou seja, a relação das pessoas com o mundo se inicia com base nessas relações de poder e se reproduz no conjunto da sociedade e das instituições. Sendo assim, modificar essas relações implica uma nova correlação de forças, construída pela auto-organização das mulheres e mais favorável a elas.
Gênero supera as dicotomias entre produção e reprodução, público e privado e mostra como mulheres e homens estão ao mesmo tempo em todas essas esferas, só que por meio de seu papel masculino ou feminino. Por exemplo, os homens também vivem no espaço doméstico e mesmo aí a eles são destinadas tarefas que poderiam ser interpretadas como produtivas, tais como trocar lâmpadas ou consertar um móvel.

A análise das relações de gênero só é possível considerando a condição global das pessoas – classe, raça, idade, vida urbana ou rural e momento histórico em que se dá. Assim, embora existam muitos elementos comuns na vivência e condição das mulheres, nem todas foram criadas para exercerem o mesmo papel, sem nenhuma diferenciação. Por exemplo, em nosso país, uma branca rica é ensinada a exercer o seu papel feminino de uma maneira diferente de uma negra pobre, com relação a que tipo de esposa cada uma deve ser, as tarefas de mão, o cuidado com o corpo e aparência, etc.

O conceito de gênero possibilita ver o que há de comum entre as mulheres, porque mostra como mulheres e homens estão no conjunto da sociedade. Mostra também a forma como cada mulher individualmente vive essa condição. Ao explicar a incorporação da identidade masculina e feminina, explica a diferença entre mulheres. É possível olhar a história de cada mulher, como essa identidade foi incoporada com base na aquisição das características masculinas e femininas. Ninguém é 100% masculino ou feminino.

Características consideradas do outro gênero estão presentes em todas as pessoas. Só que são valorizadas de forma diferente, conforme o lugar em que cada uma está. Por exemplo, nos espaços políticos, tradicionalmente masculinos, é comum as mulheres serem cobradas a deixarem um pouco de lado a sua feminilidade e demonstrarem características compatíveis com o modelo estabelecido do que é ser militante, forte e combativa, porque só assim os homens irão considera-las como “fortes”, sem “frescuras”, que é o que se espera na política, segundo a visão mais comum.

Fonte: FARIA, Nalu & NOBRE, Miriam. Gênero e Desigualdade. São Paulo, SOF, 1997 (Coleção Cadernos Sempreviva), p. 29-33. (Transcrição parcial).

(*) Texto disponivel em: http://www.redemulher.org.br/ingles/dia8.htm