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Tânia Bacelar: heranças, desigualdades e desafios

Osvaldo Bertolino Publicado em 16.03.2010

A Fundação Maurício Grabois recebeu no sábado (13) a visita da professora Tânia Bacelar, economista e socióloga da Universidade Federal do Estado de Pernambuco (UFPE), na série de consultas para aprofundar temas do Novo Programa Nacional de Desenvolvimento (NPND), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Participaram da conversa o diretor de Estudos e Pesquisas da Fundação Maurício Grabois Sérgio Barroso, o economista e jornalista Dilermando Toni e o jornalista Osvaldo Bertolino.

Dilermando Toni, Sérgio Barroso e Tânia Bacelar
Tânia Bacelar iniciou sua exposição falando sobre as desigualdades regionais, destacando que a diversidade cultural brasileira, uma herança histórica positiva, convive com a herança das bases produtivas desiguais. Para ela, o mix da cultura do país acentua a presença da população indígena no Norte, enquanto os negros são mais concentrados no Sudeste e Nordeste, e os europeus no Sul. Como as bases produtivas regionais não dialogam entre si, o potencial de um desenvolvimento mais harmonioso fica minimizado.

Ela explicou que a base industrial inicialmente concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo reduziu a capacidade de convívio com a diversidade por conta de outra herança negativa: a desigualdade. A industrialização do país predominante nestes dois Estados, disse a professora, propiciou uma divisão social bem marcada. Ela citou como exemplo a alta concentração econômica e populacional em São Paulo. Segundo Tânia Bacelar, o Estado, com sua larga fatia do Produto Interno Bruto (PIB) e seu elevado número de habitantes, explica muito bem o que é o Brasil.

Desconcetração

A professora disse que a comparação de São Paulo com o restante do país revela um resultado bem interessante — a realidade do Estado encobre as potencialidades de outras regiões brasileiras. Tânia Bacelar explicou que essa concentração industrial decorre da colonização do país, que chegou ao final do século XIX e ao começo do século XX com um ciclo econômico fortemente estabelecido no Sudeste. A presença econômica acentuada na região, lembrou, resultou também na concentração da base universitária e do conhecimento científico.

Ela, que é especialista em economia regional e tem um pensamento multidisciplinar, transitando pela geografia, o urbanismo e a política, destacou que desde o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) o Brasil não tem um projeto para enfrentar suas assimetrias. Para Tânia Bacelar, só agora o país começa a passar por uma tímida desconcentração da sua economia, com o avanço da agroindústria para o Norte e o Centro-Oeste — o “miolo” do país — e a migração de empresas para outros pólos.

Universidades

Mas nem por isso São Paulo perde a sua capacidade industrial, que, segundo ela, enfrenta uma reorganização com o avanço de outras modalidades econômicas. Ao mesmo tempo, explicou a professora, a migração industrial leva consigo o aumento da densidade populacional. Com isso, cresce no país o número de cidades médias — com população entre 100 mil e 500 mil habitantes. Para ela, esse é o tamanho ideal de uma cidade, que oferece condições para se enfrentar problemas estruturais, como saneamento e planejamento.

Tânia Bacelar, que foi secretária de Planejamento e da Fazenda do governo Miguel Arraes (1987-90) em Pernambuco e recentemente encabeçou o processo (não concluído) de reorganização da Sudene, destacou que o Brasil chegou a ter 80% da sua produção industrial brasileira no Sudeste, 44% na Grande São Paulo, na década de 1970. Para ela, trata-se de um padrão de concentração inusitado e inaceitável em um país continental e pleno de tantas potencialidades. Segundo a professora, a decisão do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva de interiorizar as universidades e o ensino merece aplausos.

Educação


Ela elogiou ainda as políticas sociais do governo, que tem favorecido o Norte e Nordeste por conta do peso maior das carências, e ressaltou que merece menção especial também a grande relevância das medidas econômicas que estão dotando essas regiões com fontes de rendas estruturais. Segundo a professora, são iniciativas que fazem a máquina econômica girar e dinamizam a vida das populações locais. Para Tânia Bacelar, o governo mostrou sensibilidade ao perceber o potencial dessa dinâmica quando se voltou para o que ela chamou de “consumo insatisfeito”.

A professora discorreu ainda, resumidamente, sobre o debate cambial — que para ela “tem fundamento” —, comentou a importância que o país vai assumindo na indústria do petróleo e destacou o potencial que o Brasil tem para ocupar um importante lugar na produção de alimentos. Tânia Bacelar explicou que a demanda alimentar vai crescer significativamente — segundo dados da FAO — por conta da elevação do padrão de vida em países como China e Índia. E terminou enfatizando que o grande desafio do país é melhor rapidamente os níveis de educação dos brasileiros.

Segundo descreveu Sérgio Barroso, que destacou a excelência da conversa, “a professora Tânia nos deu emocionada aula de Brasil". "Na verdade, quando ela adentra pelas marcas salientes da nação, consegue compor essa aquarela de cores luminosas e sombrias que mesclam nossas potencialidades e tragédias, nosso passado e um futuro do presente”, enfatizou.