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Manuela quer tirar Temer do Jaburu

Cezar Xavier, com agências Publicado em 07.08.2018

Manuela D’Ávila (PCdoB) e Fernando Haddad (PT) concederam entrevista coletiva nesta terça-feira (7), na sede do PCdoB em São Paulo, como primeiro ato da campanha após o anúncio da chapa PT-PCdoB. Manuela diz que ela e Haddad estão prontos para ganhar eleição em qualquer cenário. 

Em sua primeira aparição pública desde que foi escolhida para ser vice na chapa do PT que disputará a Presidência, a deputada estadual Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) explicou, nesta terça-feira (7), sua decisão de desistir de sua candidatura ao Planalto afirmando que "essa é a saída que mais reúne condições de vencer a eleição".

Segundo ela, seria "um luxo" manter sua candidatura a presidente sendo que a esquerda precisaria vencer a eleição de outubro.

"Seria quase um luxo para manter minha candidatura e não reunir, aglutinarmos mais forças para vencermos as eleições", disse Manuela hoje na sede do PCdoB, no centro de São Paulo.

Apesar de ter sua candidatura aprovada em convenção na última quarta-feira (1o), ela --que usava uma camiseta com os dizeres "nada a temer senão correr da luta"-- ressaltava que não seria um obstáculo para a unidade da esquerda.

 

Unidade possível

O PCdoB, nas últimas semanas, tentou unir PT, PDT, PSB e PSOL, o que não aconteceu de forma efetiva.

O PSB deu uma resposta positiva aos petistas ao se mostrar neutro na eleição, mas sem conceder seu apoio formal a ninguém. Já os outros dois partidos mantiveram suas candidaturas: Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL).

Para Manuela, a unidade conquistada foi a possível. "Essa é a saída que mais reúne condições de vencer a eleição", disse. "Não temos o direito de perder a eleição".

Ela esteve ao lado do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad (PT) durante seu primeiro pronunciamento à imprensa desde que seu partido decidiu abrir mão de sua candidatura. Hoje, a chapa é encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Haddad fez coro ao discurso de Manuela sobre a situação da esquerda. "Lamentamos que essa frente não tenha sido mais ampla".

Manuela, por sua vez, disse que não tentará tirar votos de Ciro Gomes (PDT) ou Guilherme Boulos (PSOL), mas buscará os eleitores que estão sem candidato e desiludidos com a política.

Manuela e Haddad são os vices de Lula. Haddad é o que será registrado no próximo dia 15 de agosto, prazo limite para o registro da candidatura.

Já Manuela irá assumir o posto assim que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) tomar uma decisão a respeito da candidatura de Lula. Isso deve acontecer até 17 de setembro, prazo legal para a alteração.

Preso em Curitiba desde abril e condenado em segunda instância no processo do tríplex, Lula está inelegível. Mesmo assim, o PT irá registrar sua candidatura. A defesa do ex-presidente tentará reverter a situação com recursos. O PT poderá, então, ter como opção manter Lula, com Manuela como vice. Ou, então, colocar Haddad na cabeça de chapa e ter a deputada na composição.

Manuela se diz confiante na vitória e fez uma referência ao atual presidente, Michel Temer (MDB), que vive na residência oficial da vice-Presidência, e não no Palácio do Alvorada.

 “As nossas lives [transmissões de vídeo pela internet] vão se chamar ‘Rumo ao Jaburu’, porque agora quem vai ter o prazer de tirar o Temer do Palácio sou eu”, ironizou Manuela. “O Brasil vai deixar de ter um vice golpista. A partir de agora é xô, Temer, o Jaburu é nosso”, acrescentou.

"Ocuparemos a vaga de vice em qualquer um dos cenários. Eu torço para que eu tome posse como vice-presidente com Luiz Inácio Lula da Silva, mas eu e o Haddad estamos prontos para vencer a eleição em qualquer cenário", disse Manuela. "Na vida real, quem vai tirar o Temer do Jaburu sou eu", declarou, em referência à residência oficial da vice-presidência em Brasília.

Após destacar o papel do vice, Manuela pediu para as pessoas verem o exemplo de José Alencar, que foi vice nos dois mandatos do ex-presidente Lula. "Eu serei alguém como sou hoje, do povo, vou auxiliar o presidente, eu jamais faria qualquer traição ao presidente", assegurou. "O exemplo do último vice é que é péssimo: traiu a presidente para depois trair o Brasil", disparou, em referência a Michel Temer.

Valores compartilhados

Haddad se mostrou honrado com a tarefa atribuída a ele pelo partido. "Eu fui convidado para ser vice e aceitei com muita honra. Eu já me sinto honrado com o que aconteceu, não precisa mais nada na minha vida para eu me sentir honrado de estar ao lado do presidente Lula num momento desse", disse.

"Do meu ponto de vista, eu recebi um convite do presidente para figurar como vice neste momento, sabendo que no momento do registro, a candidatura da Manuela a vice se impõe. Esse é o pacto que eu fiz com ele, não tem nada além disso".

Haddad, por sua vez, salientou que há “muitos valores que nos unem”, mas o mais importante é que ambos estão dispostos a unir esforços para construir saídas para o Brasil.

“É importante frisar: nós dois somos pessoas desprendidas em proveito de um projeto em que nós confiamos porque da mesma maneira que a Manuela disse que não precisa estar na chapa em proveito de um projeto para transformar e resgatar o Brasil, eu também não preciso estar na chapa para isso acontecer. Assim que o ex-presidente Lula tiver a sua candidatura homologada, nós vamos estender o tapete vermelho para Manuela ocupar o meu lugar”, destacou o ex-prefeito de São Paulo.

A deputada estadual gaúcha explicou como será a atuação conjunta dos partidos no processo eleitoral presidencial. Haddad falará como representante de Lula, até que se defina a situação eleitoral do ex-presidente, e Manuela como candidata a vice.

“Nós vamos vencer as eleições. Esse é o meu recado como militante, que eu sou há vinte anos, e do lugar que eu mais me orgulho de estar”, disse Manuela em um vídeo nas redes sociais pouco minutos antes da coletiva de imprensa.

Porta-voz de Lula

“Em breve eu serei candidata a vice de Lula ou de Haddad”, disse ela, explicando que, por enquanto, a chapa é Lula e Haddad, até que a questão jurídica do ex-presidente esteja resolvida.

No vídeo, ela explicou que a decisão de retirar a sua candidatura até a definição da situação jurídica de Lula passa pela ideia de que o porta-voz do presidente Lula deve ser o próprio PT, neste caso o Fernando Haddad.

“Não tenho como ser porta-voz de um partido que não é o meu. De um conjunto de ideias que são muito parecidas com as do meu Partido, mas não é o meu”, afirmou. “Num primeiro momento, até que se resolva essa situação jurídica que é de alta complexidade, fica o Haddad como interlocutor e eu fico fazendo campanha onde sempre estive, na condição de militante e de lutadora social, o que para mim é motivo de muito orgulho”, completou.

Manuela lembrou que nas 32 semanas de sua pré-campanha manifestou a disposição e esforço do PCdoB em buscar uma saída unitária do campo progressista.

“Para mim como para qualquer um é extraordinário poder, aos 36 anos, pensar em ser presidente do Brasil e representar o sonho de milhares de mulheres e homens do nosso país. Sempre foi uma prioridade número 1 vencer as eleições porque nós vivemos e sabemos exatamente o impacto da crise no empobrecimento do povo, no desemprego, na subocupação, no aumento da violência, no abandono das universidades e de tudo que esse teste drive do neoliberalismo que é o governo Temer”, salientou.

E acrescenta: “Nós vivemos isso tudo e por isso sempre defendemos uma saída conjunta para a esquerda. Era importante concorrer? Sim. Mas na vida real, o mais importante era vencer as eleições e sempre fomos porta-vozes da mensagem de que a unidade era uma necessidade e de que nós não seríamos óbice”.

Na coletiva, o ex-prefeito afirmou que "não existe projeto pessoal". "Precisamos resgatar o Brasil. O Brasil quer voltar a sorrir", disse. "Estou seguindo o exemplo da Manu, eu sou candidato em defesa da unidade", acrescentou.

Haddad, que também é coordenador do programa de governo de Lula, aproveitou para defender a democratização da comunicação. "Queremos mais vozes se manifestando e mais liberdade de expressão. Sempre tem uma família dona de um meio de comunicação importante, só existe uma opinião no Brasil", avaliou. "Queremos radicalizar a democracia".

Convergindo sua posição com a de Haddad, Manuela disse que "pensar comunicação é pensar em diversas reformas".

Vice-presidente de luta

Manuela cutucou a direita que tentou por meio das redes sociais desqualificar a sua decisão de ser vice. “Isso é um pouco do que nos diferencia da elite. Para mim o espaço político é o de quem luta, tanto formalmente na chapa como estarei sendo com o Lula ou Haddad, ou não. O mais importante é seguir lutando para que o Brasil tenha esse projeto interrompido e para que o nosso campo político possa vencer as eleições”, destacou.

Manuela voltou a criticar o machismo na política. "Quando a vice de Alckmin é indicada, isso é motivo de festa, quando eu sou indicada a vice, sou vítima de machismo. Isso é medo de mulher na vice- presidência", disse, citando o caso da senadora Ana Amélia.

“Quando uma mulher toma uma decisão de ser vice de um homem não está desdizendo o feminismo. O problema de vocês é que eu luto demais como uma garota. O problema de vocês é que vou ser vice-presidente do Brasil. Esse é o raciocínio de um machista. Uma mulher como eu não nasceu para ser mandada ou mandar, mas para lutar.”

Vaquinha

Sobre a verba que sua campanha já havia arrecadado com doações virtuais, cerca de R$ 45 mil, Manuela disse que ela será usada na chapa da qual ela faz parte agora. "Como candidata a vice, posso fazer uma vaquinha para a minha campanha".

Até o registro da candidatura, Manuela e Haddad disseram que deverão unificar os programas de governo que haviam sido preparados pelos dois partidos. Para o ex- prefeito, isso será fácil. "99% do que está nos dois textos é comum."

A dupla ainda irá definir a agenda de viagens pelo Brasil representando a candidatura de Lula. O ex-prefeito ainda precisa tomar decisões quanto a suas atuais atribuições.

Ele irá se licenciar do Insper, faculdade particular onde dá aulas em São Paulo. "A partir de amanhã, talvez eu esteja licenciado".

Haddad não descartou que ele deverá assumir a cabeça de chapa, mas que esse não é o tema para agora. "No momento adequado, nós vamos tomar uma decisão". Ao falar sobre um comentário do ex-presidente Lula, de que ele estaria em "estágio probatório", Haddad afirmou ter recebido "nota dez" no primeiro dia como vice.

A dupla não pretende atacar Ciro, que, após o acerto entre PT e PCdoB, ficou isolado. "Da minha parte, esse pacto [de não agressão] sempre existiu".

Cadeira vazia

O PT tem insistido na presença de Lula no debate que será realizado na quinta-feira na TV Bandeirantes, e um dos coordenadores da campanha petista, José Sergio Gabrielli, afirmou que o partido buscará meios judiciais para garantir a participação do ex-presidente.

"Vamos insistir na presença do Lula. Lula é o candidato. Se não tiver como, queremos a cadeira vazia com o nome dele", disse Gabrielli a jornalistas após a coletiva de Manuela e Haddad.

O PT aposta que, após o dia 15, com o registro da candidatura de Lula, as decisões sobre a execução da pena deixarão Curitiba e passarão a ser tomadas pela Justiça Eleitoral.

Haddad e Manuela afirmaram que planejam protagonizar um debate paralelo ao que será realizado nesta quinta-feira (9) pela Rede Bandeirantes de TV.

Como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem permissão legal para participar do debate, a dupla deverá, com o uso de um telão, comentar e responder a questões feitas aos presidenciáveis, que estarão no estúdio da emissora.

Coordenador da campanha de Lula, o ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli explicou que a ideia é que Haddad responda às perguntas e comente as propostas dos adversários.

De acordo com Haddad, a legislação dá a candidaturas sub judice, como deverá ser o caso de Lula, todas as prerrogativas garantidas às demais candidaturas e, por isso, o PT acredita que o ex-presidente poderá participar da propaganda eleitoral no rádio e na TV, assim como de debates.