Prosa@Poesia

A cantiga de Jesuíno

Ariano Suassuna Publicado em 15.04.2015

Seu sonho era ver a terra - nobre terra do Sertão – pertencendo a todo mundo, na estrela da Partição, e é por isso que ele canta de Bacamarte na mão:

A cantiga de Jesuíno

 

Senhores que aqui estão
vou cantar meu Desatino:
a Canção do Cangaceiro
que se chamou Jesuíno,
seu Bacamarte de prata
e a Estrela do seu Destino.

 

Queria que a luz de Ouro
de uma Justiça constante
brilhasse pra todo mundo
no Sol de seu Diamante,
e é por isso que seu nome
foi Jesuíno Brilhante.

 

Fazendeiro truculento
desfeiteou seu irmão:
ele vingou esta Ofensa,
fez do sangue seu brasão
e dizem que desde então
galopava nas Estrelas
a cantar esta Canção:

 

“Eu tenho um Espelho de Cristal:
foi Jesus Cristo que limpou ele do pó.
Mas lá um dia a terra se alumia:
ao Meio- Dia se espalha a luz do Sol!”

 

De Guarda-peito e Perneiras,
Chapéu de couro e Gibão,
montado no seu Cavalo
por nome de Zelação,
logo virou Jesuíno
Rei do povo do sertão!

 

Tomava dos Poderosos
O Ouro, a Prata e o Cobre,
dividia o que tomava,
distribuindo com os Pobres,
era Bom, valente e justo,
sangue Limpo de alma Nobre!

 

Seu sonho era ver a terra
- nobre terra do Sertão –
pertencendo a todo mundo,
na estrela da Partição,
e é por isso que ele canta
de Bacamarte na mão:

 

“Eu tenho um Espelho de Cristal:
foi Jesus Cristo que limpou ele do pó.
Mas ele tem uma luz que alumia:
ao Meio- Dia se protege a luz do Sol!”

 

Então juntaram-se os Ricos
e o governo da Nação:
botaram – lhe uma Emboscada,
e ele morre à traição.
Mas o povo não esquece,
sonha com ele o Sertão:

 

“Jesuíno já morreu,
morreu o Rei do Sertão!
morreu no campo da honra,
não entregou – se à Prisão,
por causa de uma Desfeita
que fizeram a seu irmão!”

 

Mas dizem que, ainda hoje,
se em qualquer ocasião,
um Pobre sofre injustiça
nos caminhos do Sertão,
soam tiros de seu Rifle
e o tropel de Zelação!

 

E Jesuíno Brilhante
não falta com sua Ação:
queima o dono da injustiça,
de Bacamarte na mão
e então sua Voz se afasta
cantando a velha Canção:

 

“Eu tenho um Espelho de Cristal:
foi Jesus Cristo que limpou ele do pó.
Mas lá um dia a terra se alumia:
ao Meio- Dia se espalha a luz do Sol!”

 

 


Anteriormente identificado como sendo de Carlos Newton Júnior, a autoria do poema foi corrigida para Ariano Suassuna, a pedido do organizador e prefaciador do livro O Cançago na Poesia Brasileira.
Inédito. Este poema deu origem à letra da canção “Cantiga de Jesuíno”, musicada por Capiba (Lourenço Barbosa) em 1967.