Prosa@Poesia

Santa Maria de Belém

Paulo Fonteles Filho Publicado em 26.10.2011

Santa Maria de Belém



No centro da cidade vencida organizo a esperança

e irrompido pelo tempo

clamo

por meus heróis: índios,

negros,

gente miscigenada na seminal revoltosa

dos brutais acontecimentos

da formação brasileira.



Na ponta da lança tupinambá

a mão plena de Guaimiaba

em ataque ao forte da preagem

e da escravização indígena,

no nascedouro povoado

erigido na ponta de terra,

na foz do rio

do tempo presente: Santa Maria de Belém.



No centro da cidade vencida caminha o poeta

com tecidos arbóreos

e um certo temperamento das chuvas

nas ribeiras.



Numeroso

caminha o poeta

procurando na geometria das casas,

a infância perdida.



Quando menino fui pela vida em diversas moradas,

algumas com telhas vermelhas.



Quando menino sonhei

os sonhos marítimos

de meu avô operário.



Quando menino queria ser adulto

e hoje quero voltar a ser menino.



Quando menino as estrelas me pareciam

outros meninos.



A injustiça me faz fogo e vou queimando

minhas vestes com a rouca voz

que me resta.



Em seu testamento

de combatente

e tribuno proletário

meu pai temia mais

perder a identidade

do que a própria vida.



Estava certo meu pai.



Não há porque calar

quando os bestiais

falam.



Não há porque o medo

se as bandeiras de nossa época

tremulam esperançosas.



Não há porque se fragmentar

quando a unidade têm a vocação

para jornadas

altaneiras.



É tarde, madrugada.



Os livros repousam na estante.



Meus filhos dormem com sonos

de desenhos.



Os papéis destas horas guardam

discursos incendiários.



O café e a mesa posta da manhã

comprovam

o pomo de destinos

e certa itinerância

para a alvorada.



No centro da cidade vencida organizo a esperança

e irrompido pelo tempo

clamo

por meus heróis: índios, negros,

mamelucos, mulatos

e proletários.




Paulo Fonteles Filho