Prosa@Poesia

Je ne regrette rien

Edwin Morgan Publicado em 03.05.2007

em memória de Edith Piaf

Céu esfumaçado.
No vento de outono
caminho pelo cais
na luz tardia,
meu casaco dobra, dobra,
folhas de castanheiros
respingam no Sena.
Olho de relance na janela
e toco meu cabelo, sim
sou pequena como dizem,
pequena como um pardal.
Acendem as luzes agora.
Fico sob a lâmpada,
viro minha gola
em um círculo de chuva
e espero por você.

Está tudo começando de novo.
Folhas mortas ou primavera
retornam, recomeça.
Como eu poderia lutar?
Quando você me abraçou, seus ombros
eram um muro, me abriguei
na sua sombra, começou.
Dizem que não poderia contar meus homens –
em trinta anos eu não poderia contá-los!
Mas quem conta os anos?
Contar os anos quando estive cega?
Crescendo num bordel? Educada pelas putas?
Contar as preces que me trouxeram a visão em Lisieux?
Ou os batimentos da minha filha, aos milhares,
quando eu a tive aos quatorze anos
até que ela morresse de fome?
Contar as migalhas que recebi, ou as que dei?
As espeluncas onde cantei, ou os grandes concertos?
Contar os copos que bebi? Contar as camas
onde deitei, os lábios que beijei?
Não posso contar os cirurgiões que me abriram –
você pensa que meus amantes estão num livro?
Quer que eu comece a contar as lágrimas?
Contar o quê? O custo? Que custo? Eu ganhei!

Não! Deixe partir os homens que me tiveram.
Não me arrependo de nada, nada. Alguns foram gentis.
Mas não ligo se foram gentis!
Eu não lembro se foi ruim.
Não guardo o meu passado no bolso.
Paguei por tudo, esqueci tudo.
Paguei por tudo, esqueci tudo.
Risco um fósforo para minhas memórias,
Elas acendem o fogo e desaparecem.

Aqueço meus braços esta noite
o fogo começa
as estrelas despontam
sim começa
tenho quarenta e cinco
começa de novo
escuto seu passo
sim começa
seus ombros largos
brilham na chuva
posso ver
o cigarro apagado
na sua boca firme
que ele joga para o lado
começa e
não me arrependo de nada

Cambaleamos na chuva
ele esmaga minha boca.
De que eu me arrependeria
se centenas de partidas
me atingiram
como um raio se este
raio de amor
pode atingir e
atinge
de novo!

 


Edwin Morgan
Na Estação Central
Seleção, tradução e introdução de Virna Teixeira
Editora UnB – edição 2006