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José Felício Cezare lança Uma Poética Política, em Jundiaí

Cezar Xavier Publicado em 04.04.2018

O escritor José Felício de Cezare lançou, em Jundiaí, cidade onde é professor de História e Filosofia, o livro “Uma Poética Política”. Na obra, o autor expressa um forte senso crítico com o golpe de estado ocorrido em 2016 e os personagens da crise política que arrasta o país por rumos imprevisíveis.

Cezare é um agitador cultural, além de professor da rede pública no bairro de Ivoturucaia. Ele fez uma exposição  no Poupatempo Jundiaí em homenagem à trabalhadores e ferroviários, em maio de 2016, com o nome "Ao vosso trabalho, a nossa gratidão". Também promoveu a exposição "Mais África na Escola", onde pinturas de alunos da Escola Estadual Mons Venerando Nalini foram expostas no Poupatempo e no Museu Solar do Barão de Jundiaí. “O objetivo era fazer valer nossa ancestralidade africana no ambiente escolar, que ainda se apresenta etnocêntrico, racista, misógino e homofóbico”, explicou. Também publica reflexões no blog Memorifique.

Agora, publica pela Editora In House o livro "Uma Poética Política", onde através de poesias e gravuras de sua autoria, faz críticas ao golpe e ao momento sócio político brasileiro. Cezare ressalta a importância do papel da política para a saída de crises institucionais e ecômicas, tão atacado em momentos golpistas como o atual. “Essa obra tomou-se por si, o objetivo de poeticamente suscitar uma nova percepção sobre um assunto que há tempos, ou talvez nunca, tenha sido visto como um modo de trazer soluções aos problemas sociais e não ser o problema: a política. No entanto, a ação política pertence à priori, a nós, cidadãos e cidadãs. Sendo assim, pensar histórica, sociológica, artística e filosoficamente a política, tecendo através de versos e gravuras, uma complexidade que envolva e traga o caos ao senso comum, trazendo às pessoas sua consciência sobre a força política que possuem”, diz ele.

 

O autor entende que vivemos um momento de exceção. “Historicizar, pensar momentos histo?ricos, por vezes, pede imparcialidade. No entanto, se faz presente impreterivelmente posicionamento quando, em momentos de exceção como o que vivemos agora, o controle por parte de opressores conquista ainda mais territo?rios sobre as mentes de um povo que apesar de seus esforc?os dia?rios por uma vida digna, por esse e tantos outros motivos, ainda na?o se apropriou de sua participac?a?o poli?tica”, afirma.

De acordo com ele, intentar por um vie?s poe?tico uma alternativa para um ativismo, um criticismo poli?tico, lhe parece um caminho romantizado, porém, mais contundente - com uma apare?ncia arrogante talvez – de iniciar ou incitar novas e velhas mentes a uma percepc?a?o viva e na?o uma recepção passiva e acomodada pelos meios ja? enraizados de informac?a?o. “Que por meio desses versos novas discusso?es possam surgir, e quem sabe conceber uma pueril, mas na?o inocente e com i?mpeto desmedido, apropriac?a?o poli?tica”, defende ele.

 

Leia alguns dos poemas do livro:

 

 

... !

 

Coloco a mão no peito

tomo fôlego

canto o hino

vejo as cores 

não me identifico

se sou aquilo 

que a mídia fala

se sou aquilo

que a escola ensina 

se sou aquilo

que a igreja doutrina

se sou aquilo 

que a empresa manda 

se sou aquilo

que já fui um dia

se sou aquilo

que não mais sou 

se sou aquilo

que serei

se sou aquilo

que pensei

se sou aquilo

aquele

aqui

acolá 

  

 

 

 

Alegria de hipócrita

 

Bato panela:

Porque quem tem barba é ladrão,

Bato panela:

Porque vermelho é corrupção!

Bato panela: 

Pelo juiz Moro,

Bato panela:

Com a corda no pescoço!

Bato panela: 

Olha a ditadura,

Bato panela:

Contra “La ternura”!

Bato panela: 

Com a camisa da seleção,

Bato panela:

Porque sou sem noção!

Bato panela: 

Contra o corrupto,

Bato panela:

Pra me aposentar no túmulo!

Bato panela:

Porque sou liberal,

Bato panela:

Pro Jornal Nacional!

Bato panela:

Porque sou ignorante,

Bato panela:

Contra manifestantes!

Bato panela:

Aqui do meu prédio,

Bato panela:

Contra os sem tetos!

Bato panela:

Aqui na paulista,

Bato panela: 

Pela coxinha!

Bato panela:

Contra a mortadela,

Bato panela: 

Mas desconheço o Mandela! 

Bato panela: 

Acordei o gigante?

Bato panela:

Nem sei quem é o Gandhi!

Bato panela: 

Contra o comunismo,

Bato panela: 

Mas nem sei o que é isso! 

Bato panela: 

Pelo bem do Brasil,

Bato panela:

Porque sou imbecil!

 

 

 

Pobreza aristocratizada

 

Se não voto, eu me anulo, 

se voto, aí que me preocupo, 

se apoio brigo, labuto,

contra o carrasco, o bocó e o corrupto!

  

Ante a farsa me informo,

sem controle, só eu me manobro.

Nada de indulgências, correto tem vez, 

fujo de acordos, do manejo burguês!

  

Mas a máquina ainda roda, gira. 

as engrenagens podres arrebentam!

Mais planos golpistas? 

As pessoas não mais aguentam!

 

Vou e trabalho, aprendo e ensino! 

Luto contra mentiras e baias,

desse sistema chulo, ambíguo,

que nos retrata como monstros, inimigos!

  

Paro o trabalho, vou protestar!

Nossos direitos, vou proteger!

Para o senso comum: “vão badernar”!

Então o limbo a todos vai abarcar!

  

Não se iluda, aqui não há nobreza,

gritou “fora Dilma”, e está na pobreza!

Seja monarquia ou, seja república,

o pobre é que amarga na dor da rua!

 

Se escrevo, é para ser forte.

Contra coronéis e fidalgos é preciso,

além de muito conhecimento, 

sabedoria, união e sorte!

 

Você pode ter sua opinião crua,

dizer que é tudo culpa do Lula.

Mas saiba, há vagas sob as pontes, 

para paneleiros e bobos da corte!

  

Espero ter sido claro e objetivo,

até Jesus pregou o comunismo,

o bem social, o pão comum.

Privilégios para todos, não de alguns!