Resenhas

Outras vozes na história do socialismo chileno

Beatriz Guimarães de Carvalho Publicado em 09.04.2018

Livro coloca os trabalhadores, comumente secundarizados, como protagonistas da história recente do Chile

As canções de protesto de Victor Jara e Patricio Manns marcaram a chegada da Unidade Popular (UP) e de Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970. Os intelectuais daquele país, e a esquerda de maneira geral, entraram em ebulição diante das promessas de mudança. São cenas presentes em diversas obras publicadas desde então. Poucas são, porém, as que investigam e narram tal episódio, bem como seus antecedentes e efeitos, a partir da experiência dos trabalhadores. Aí mora a singularidade do livro O protagonismo popular: experiências de classe e movimentos sociais na construção do socialismo chileno (1964-1973), de Márcia Cury.

Fruto da tese de doutorado defendida pela autora na área de Ciência Política, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o livro coloca na posição de protagonistas personagens comumente secundarizados da história recente do Chile, resgatando percursos vividos dentro e fora dos ambientes de trabalho da zona urbana de Santiago. São cinco capítulos: “O movimento operário e a questão social no debate político”; “Construindo identidades: As lutas do cotidiano”; “A hora e a vez da revolução: Projetos de transformação nacional”; “‘Trabajadores al poder!’ Da participação proposta à participação vivida”; e “Crear, crear poder popular!”.

O eixo do livro se dá em torno do sistema de participação que passou a ser implementado nos diferentes espaços de trabalho após a vitória de Allende. Nesse contexto de novas relações sociais e formas de organização, uma grande parcela dos trabalhadores despertou para a necessidade de ir além da transição proposta e alcançar uma atuação mais ativa na condução do trabalho. Diante disso, Cury revela de que maneira o projeto de participação popular da UP foi reapropriado pela classe trabalhadora e, assim, possibilitou o engrandecimento do processo revolucionário.

A movimentação dos trabalhadores naquele período é narrada pela autora em meio a relatos de quem vivenciou – direta ou indiretamente – tal cenário, como operários fabris e da construção, donas de casa, militantes de esquerda, simpatizantes de Allende, simpatizantes da oposição, sindicalistas, atuantes do movimento de pobladores – que lutavam por habitação nos bairros periféricos – e interventores do governo nas empresas. Além das fontes orais, a pesquisa incorpora elementos de jornais e revistas da época, panfletos de cunho político, documentos de empresas e do Ministério do Trabalho, canções de protesto, e os filmes A batalha do Chile e Machuca.

Marcado por ocupações de fábricas e confrontos cotidianos, esse resgate histórico traz à tona a autonomia da classe trabalhadora frente às decisões tomadas pelos partidos, patrões, líderes sindicais e governantes. Apesar das variadas tensões provocadas entre os trabalhadores e o governo, Cury demonstra que nasceu daí um importante compartilhamento de projetos entre a classe trabalhadora e a esquerda chilena, levando à agenda política nacional as reivindicações políticas e sociais dos setores populares.

Como diz a autora, já no encerramento do livro, “é imprescindível retirar a história de protagonismo dos trabalhadores do âmbito do esquecimento deliberado e do proibido, revertendo o espaço destinado a ela para colocá-la como horizonte e como perspectiva, para não se esquecer da capacidade de transformação que têm os sujeitos coletivos e para se pensarem novas formas de construir uma sociedade verdadeiramente democrática”.

 

 
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SERVIÇO

Título: O protagonismo popular: experiências de classe e movimentos sociais na construção do socialismo chileno (1964-1973)

Autora: Márcia Cury

Editora da Unicamp

Páginas: 408

Preço: R$ 66,00

http://www.editoraunicamTp.com.br/produto_detalhe.asp?id=1148

 

Publicado em Jornal da Unicamp