Seção Paulista - Contra o avanço do atraso

Contra o avanço do atraso

João Quartim de Moraes Publicado em 06.07.2015

O traço peculiar dos fachos é o apelo às modalidades mais sórdidas de violência: em pleno recinto da Câmara Municipal de Campinas, quando defensores da emancipação humana enfrentavam verbalmente os da opressão, um chefete integralista, sob o olhar complacente da Guarda Municipal, golpeou várias vezes no rosto a jovem professora Carolina Figueiredo, que se manifestava contra o obscurantismo.

Carolina Figueiredo registrou o boletim de ocorrência após o caso

Às vésperas da apoteose reacionária de 15 de março passado, os chefetes coxinhas mais otimistas anunciavam ao cartel dos capitalistas mediáticos (sempre prontos a apoiá-los) que esperavam juntar cem mil manifestantes na Av. Paulista. Juntaram o dobro, o que por si só foi um grande êxito para a direita: desde o golpe de 1964 ela não mobilizava tão ampla e aguerrida multidão.

Sempre pronta a subestimar escandalosamente o número dos participantes de manifestações de trabalhadores e da esquerda, a polícia de Alkmin empolgou-se com o espetáculo da enorme multidão babando ódio contra o PT e os vermelhos em geral. Em “O Exército fantoche da PM” (CLIQUE PARA LER), descrevemos a peculiar contribuição oferecida pelo “COPOM ON-LINE” da PM/SP à revanche da direita: ele acionou uma “ferramenta tecnológica” de araque para produzir o espantoso milagre da multiplicação dos coxinhas, que em menos de uma hora, foram orçados em cem mil, depois duzentos mil e no fim em um milhão e duzentos mil. A foto que ilustra aquele artigo documenta a fraternização ostensiva dos policiais com os golpistas: riem felizes, abraçados.

Retomado em coro, com a habitual desfaçatez, pelos jornais e TVs do cartel mediático (com a exceção do Data Folha, que preferiu resguardar sua credibilidade, falando em 210 mil participantes), o conto do milhão reforçou de imediato nos chefetes cripto-fascistas a sensação de “donos do pedaço”. Afinal, tinham articulado a primeira grande manifestação de massa da direita desde as tenebrosas Marchas da Família, com Deus pela Liberdade, que proporcionaram base social ao golpe de 1964.  Convocando um novo vagalhão reacionário para 12 de abril, um daqueles chefetes proclamou que ele seria “O DIA D” do movimento para derrubar a presidente Dilma. Vindo de quem veio, a visão hollywoodiana sobre a II Guerra Mundial não espanta. Em miúdos, a expectativa era ampliar a mobilização da pequena burguesia reacionária de modo a decidir vitoriosamente a parada golpista.

Calcularam mal. A massa que ocupou a av. Paulista em 12 de abril encolheu consideravelmente em relação a 15 de março. Enredada na própria tapeação, a PM atucanada falou em 275.000 manifestantes, mas ao fazê-lo, assumiu implicitamente que eles eram praticamente um milhão a menos que na manifestação anterior. A mentira não só tem pernas (e coxinhas) curtas, mas pode ser contraproducente para o mentiroso. Os números mais sérios divulgados pelo Data Folha indicam que a mobilização da direita caiu para um pouco menos da metade, de 210 mil para cerca de 100.000. Do ponto de vista dos projetos golpistas, o 15 de abril foi um fracasso, porque  interrompeu a escalada reacionária de massas. Resta saber por quanto tempo.

Uma certeza a esse respeito: embora a ofensiva golpista de março-abril tenha fracassado, o ódio reacionário continua sendo intensamente realimentado, principalmente em São Paulo e no Paraná, em largos círculos da burguesia (da grande, da média e da pequena). As manifestações deste ódio são incontáveis. A última em data ocorreu dia 29 de junho na Câmara dos Vereadores de Campinas, durante a votação do projeto obscurantista do vereador Campos Filho (DEM), que proibiu qualquer referência no currículo escolar ao que ele chamou “ideologia de gênero”, isto é, à liberdade de orientação sexual. Esse projeto intolerante será provavelmente barrado no STF por ser inconstitucional, mas o mero fato de que tenha sido aprovado por vinte e cinco vereadores contra cinco mostra o avanço do atraso nas instâncias legislativas. Ser contra uniões homossexuais é ser culturalmente conservador, mas não necessariamente fascista. O traço peculiar dos fachos é o apelo às modalidades mais sórdidas de violência: em pleno recinto da Câmara, quando defensores da emancipação humana enfrentavam verbalmente os da opressão, um chefete integralista, sob o olhar complacente da Guarda Municipal, golpeou várias vezes no rosto a jovem professora Carolina Figueiredo, que se manifestava contra o obscurantismo. Na sequência, cumprindo o papel de guarda costas de integralista, os policiais deram cobertura à fuga do autor da boçal agressão, documentada em vídeo:

A proteção policial aos fachos embrulha o estômago, preocupa, mas infelizmente não surpreende. Numa situação como a atual, em que a direita golpista dispõe de reservas estratégicas para permanecer na ofensiva, os meios estatais de coerção assumem sem pudor seu caráter de classe, sobretudo nas zonas mais ricas do sudeste, onde governadores de direita lançam a PM contra professores, aplicando o lema menos giz, mais bala.

Os professores da rede pública paranaense e paulista, os manifestantes anti obscurantistas de Campinas e de todo o Brasil, os sindicalistas e os movimentos sociais em luta por seus direitos estão todos resistindo corajosamente às forças do retrocesso, do atraso e do fascismo. A iniciativa de uma frente dos partidos de esquerda para defender a democracia e as conquistas sociais dos trabalhadores constitui um passo importante para reequilibrar nas ruas e no Congresso a relação de forças entre avanço e atraso. A direita está mostrando a cara, que é muito feia.  Mas a esquerda não tem medo de cara feia.