Seção Paulista - Deveria ter sido “o grande massacre”

Deveria ter sido “o grande massacre”

Pedro Scuro Neto Publicado em 24.06.2015

Tinha tudo para ser “o maior massacre” dessas eleições, mas por causa de um incompetente, que em entrevistas e debates sempre se mostra “falso e inseguro”, não passou de “uma grande decepção”. Foi assim que o Financial Times (10 Out.), jornal cor de rosa-salmão mais lido pelas elites empresariais, lamentou o resultado do debate entre Guido Mantega, ministro da Fazenda, e o ungido pelo sistema financeiro para conduzir a economia brasileira se o eleitor escolher Aécio Neves para ser o presidente.

Portanto, os ingleses concluíram, não fosse mais esse forfait de ‘Arrocho Fraga’, Mantega teria muito que explicar: segundo o FT, o último relatório do FMI diz que este ano o Brasil vai crescer míseros 0,2%, pior que as todas as economias do mundo. “Zero vírgula três por cento”, corrige (14 Out.) um “professor emérito” do Mackenzie e da Escola Superior de Guerra, também citando o FMI, mas esquecendo, assim como os ingleses, de dizer que não só o Brasil, mas “quase todos os países” tiveram índices de crescimento revisados para baixo.

Configura-se assim uma situação global, sistêmica, gravíssima, causada por duas ordens de problemas. A primeira: “problemas nos mercados financeiros”, “estagnação das economias avançadas” e “declínio do potencial crescimento dos mercados emergentes”. Dilemas exigindo, no Primeiro Mundo, ajuste fiscal e medidas de política monetária, nas economias emergentes, investimento público em infraestrutura, e de forma generalizada, “urgentes reformas estruturais para garantir o potencial de crescimento ou o tornem mais sustentável”.

Tudo solenemente ignorado não só por ‘Arrocho Fraga’, mas pela jornalista que mediou o debate. Ignorando o relatório do FMI, dizendo que “a crise já passou, faz cinco anos” e imaginando que a economia brasileira fosse um planeta habitável distante da Terra, ambos resumiram os problemas aos efeitos de um “modelo populista” (expressão usada pelos ingleses) que não combate a inflação, gera desconfiança no mercado financeiro, depende em excesso do BNDES, e, sobretudo, “não mobiliza capital”.

“Tudo soando como música aos ouvidos dos investidores”, confessa o FT, mas de modo algum atendendo aos reais problemas da economia, nacional ou global. Daí a utilização de recursos por agentes nacionais e estrangeiros que atuam como a ‘mão invisível’ desses investidores e geram tensões políticas e sociais mais ou menos violentas. Justamente a segunda dimensão de causas da crise, que explica – para o FT – o “frio pragmatismo e detalhismo técnico próprios de um banqueiro central” como ‘Arrocho Fraga’, mas que também evidencia toda a sua falsidade e insegurança.

Pedro Scuro Neto é membro da Fundação Maurício Grabois (Secção São Paulo)