Sociedade dos Amigos de Lênin (SAL) - Atualidade do pensamento de Lênin

O poema épico de Maiakovski em homenagem a Lênin

Adalberto Monteiro Publicado em 04.02.2015

A Fundação Maurício Grabois lançou, em 2012, em edição especial, a tradução do poema épico de Maiakovski em homenagem a Lênin, como uma ode à Revolução Socialista. Leia abaixo trechos inéditos do poema na internet, em que a tradução foi feita diretamente do russo por Zoia Prestes. Leia também a apresentação pelo poeta Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois.

Canto épico a Lenin e à revolução

Adalberto Monteiro

Este livro-poema foi escrito em 1924 por Vladimir Maiakovski (1893-1930) sob o impacto da morte de Lenin, falecido em 21 de janeiro daquele ano. Em vez de um réquiem, o poeta escreveu um canto forte e flamejante, uma ode à Revolução Socialista de Outubro, ao legado de Lenin e ao Partido Comunista russo. A escolha se deveu ao fato de que a biografia do homenageado não se coadunava com versos enlutados que pretendessem encaminhá-lo ao repouso eterno. O poema proclama que mesmo depois da morte, Lenin/ ainda/ está mais vivo do que os vivos.

Sendo a oficina poética de Maiakovski uma usina soviética de produzir felicidade, essa usina trabalhou por meses seguidos para laborar este livro, em três turnos, por ordens expressas do coração e pelo dever do mandato. É daquelas obras com as quais o autor sofre como uma videira que padece de frio e sede para gestar a uva da qual jorrará o excelente tinto. O talento de Maiakovski foi forçado ao limite. Corpo e alma sugados. Afinal, a Rússia soviética era para ele “a musa das musas”. E Lenin representava a personificação dessa vitória inaugural dos trabalhadores.

Um dado particular demonstra a autenticidade do impulso do poeta: Lenin, no geral, teve uma avaliação comedida sobre o trabalho literário de Maiakovski. Esse juízo, em parte, decorria do conteúdo iconoclasta do futurismo russo em relação aos clássicos e ao passado. Mais adiante, o poeta alterou essa concepção, inclusive enaltecendo Puchkin, ícone sagrado da literatura de sua terra.

Apesar da tensão, Maiakovski escalou bem a montanha. O peso da responsabilidade chegou a atemorizá-lo. Na autobiografia ele reconhece: “(...) Eu tinha muito medo desse poema, era tão fácil descer a paráfrase política. A receptividade do auditório operário me alegrou e me reforçou a certeza da necessidade do poema”.

Na verdade, Maiakovski talvez fosse o único escritor soviético de sua geração cuja trajetória e singularidades conferiam credenciais suficientes para escrever esta homenagem. Ele usou toda a densa poesia, a cultura política e filosófica, e a condição de quem participou diretamente das barricadas que levaram Outubro à vitória.

O militante

Maiakovski aderiu ao Partido socialdemocrata (bolchevique) em 1908, com 15 anos de idade. Aos dezesseis, pela segunda vez seria preso e roeria por 11 meses as grades das cadeias do tsar. Participou diretamente da insurreição. Depois da conquista do poder (1917), de pronto se engajou no Comitê dos artistas. Maiakovski, além de poeta, era pintor, ator de teatro e cinema, roteirista, publicitário e dramaturgo. Colocou toda essa capacidade e diversidade de talentos, literalmente como um operário, em prol da construção da nova sociedade.

Em 1918, “alista-se” na Rosta, uma agência pioneira de propaganda do Estado operário. Transcorriam os anos duríssimos da guerra civil, da fome e da intervenção estrangeira. Exércitos de grandes potências marcharam para esmagar a revolução “no berço”. Como pintor, cria mais de 400 cartazes. Neles e em outras peças escreve 1.600 legendas poéticas. Tratava-se de um tipo especial de propaganda cujo objetivo era alimentar o ânimo dos soldados do Exército Vermelho que padeciam agruras no front.

Passaram-se os anos e Maiakovski se desvincula formalmente do Partido (Porque adquiri muitos hábitos que não são conciliáveis com o trabalho organizado, justificaria.). Diria, no poema “A Plenos Pulmões”, de 1930, que no lugar da carteira do Partido apresentava todos os cem tomos dos meus livros militantes.

O poeta

Gorki o conhecera por volta de 1914, quando o poeta estava ali pela casa dos 19, 20 anos. O autor de “A mãe” soube ver, de pronto, que estava diante de um diamante graúdo e bruto. Maiakovski, quando escreveu “Vladimir Ilitch Lenin”, tinha 31 anos de idade e já havia se tornado um poeta maduro e consagrado. A vida e o trabalho intenso o haviam lapidado.

Se a Revolução dos oprimidos foi o sol de sua poesia, a lua dos seus poemas foi o amor pelas mulheres. Paixões explodiram em seu coração como estrondo de tiro de bazuca. Difícil saber que fogo arde mais em seus poemas: beijo ou lança cravada no peito. Neles, o épico e o lírico se entrelaçam e o sarcasmo é a adaga. Como escritor, Maiakovski se lançou nos debates acesos – e por vezes corrosivos – da busca da arte e da literatura soviética. Foi duramente combatido e boicotado pela mediocridade da qual, desgraçadamente, nenhum sistema político está imune.

O mais humano dos humanos

O poema “Vladimir Ilitch Lenin” enaltece com as notas elevadas de uma sinfonia o protagonista. Contudo, abre as baterias contra a canonização de Lenin. Temo/ que as marchas/ ao mausoléu/ com o estatuto de reverências / inundem/ com o doce fel/ a simplicidade/ de Lenin. (...) Estamos/ enterrando/ a pessoa mais terrestre/ de todas/ que passaram/pela Terra. E dá o testemunho: Ele/ nutria/ pelo companheiro/ um carinho humano. Ele/ se erguia/contra o inimigo/ mais firme que ferro./ Conhecia ele fraquezas que conhecemos,/ como nós/ superava doenças.

Uma conquista para a língua portuguesa

No Brasil, a publicação deste livro-poema é inédita. Alguns trechos dele foram traduzidos por E. Carrera Guerra e publicados no livro “Maiakovski – antologia poética”. Mas a presente tradução de Zoia Prestes, direta do russo, nos proporciona pela primeira vez o texto integral em língua portuguesa. Nosso idioma se enriquece com este trabalho e a sua comunidade de leitores tem agora a oportunidade de desfrutar, através de um poema emblemático, de uma das faces mais marcantes da obra de Maiakovski: a poesia como canto e arma de um povo, aquela que lhe deu título de Poeta da Revolução. Temos certeza de que esta leitura será um deleite aos amantes da poesia e alimento para os que partilham dos ideais desse grande escritor que no crivo de Haroldo de Campos é o maior poeta russo contemporâneo e um dos inventores da poesia moderna.

A tradução desse poema era um sonho de muitos. Não é mero acaso que até hoje não tivesse sido realizada. Os obstáculos são conhecidos. O próprio Maiakovski já alertara: Traduzir poemas é tarefa difícil, especialmente os meus.

Mas Zoia não se curvou ante as dificuldades, de resto, sabidamente pertencentes aos ossos de seu ofício. A tradução preservou rigorosamente o verso escalonado, marcado graficamente, forma que orienta a leitura em voz alta. Entre as pérolas do poema de Maiakovski, colhidas e vertidas por Zoia, destaco esta:

Diante de milhões de olhos
                                           e dos meus dois,
apenas caramelos congelados de lágrimas,
                                  grudados
                                           às bochechas.

Mazé Leite, artista plástica e designer, concebeu e realizou o projeto gráfico, criou a capa e ilustrou o livro. E o resultado é esta bela edição condizente com os altos quilates do poema e com o valor que o poeta atribuía à forma tanto de seus versos quanto das publicações que os disseminavam.

Uma poesia que dialoga com o futuro

Em seus poemas, Maiakovski frequentemente se dirige ao futuro, conversa com as gerações de séculos vindouros. Por este e outros motivos, seus adversários diziam que ele padecia de gigantomania. Os desafetos da atualidade assacam-no: sua poesia teria sido enterrada no mesmo túmulo onde jaz a URSS. Mas, a autoprofecia vai se confirmando. Sua poesia, como uma seta, atravessa a carne macia do tempo. Primeiro porque sua poesia brilha com a luz de cem sóis. Segundo, porque seu lirismo só perderá atualidade se os humanos se tornarem assexuados e destituídos da capacidade de amar. Terceiro, o capitalismo, do qual Maiakovski foi crítico e inimigo, convenhamos, não goza de boa saúde nesta segunda década do XXI. E os ideais da revolução da qual foi poeta – embora derrotada no final do século passado – agora se revigoraram, vicejam e espalham novamente o verde da esperança neste reino cinzento do capital, de guerras, fome e destruição do planeta e da vida que o habita.

A poesia de Maiakovski segue mantendo aceso o sonho de um mundo regido pela solidariedade e pela luta para realizá-lo. Conforme diz Lenin – que, para o desespero dos opressores, hoje continua lido e valorizado como pensador e revolucionário: É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles.

E o sonho na visão de Maiakovski é este:

          No verão da comuna
                                           os anos se aquecerão,
e a felicidade com o doce
de frutas enormes
amadurecerá
                   nas  flores
                                            vermelhas de Outubro.


Adalberto Monteiro é jornalista e poeta, presidente da Fundação Maurício Grabois e editor da revista Princípios

Vladimir Ilitch Lenin ( trechos)
Autor: Vladimir Maiakovski
                    Tradução direto do russo: Zoia Prestes

É hora –
inicio
a história de Lenin.
Não porque
não há mais
desgraça,
é hora
porque
uma tristeza brusca
virou uma dor
clara e consciente.
É hora,
novamente
os lemas de Lenin em turbilhão.

Não devemos
nos derramar
em poças de lágrimas, –
Lenin
ainda
está mais vivo do que os vivos.
É nosso saber –
nossa força e arma.
As pessoas são barcos.
Apesar de estar no seco.
Viverás,
o teu,
enquanto
uma variedade
de conchinhas sujas,

gruda
em nossos
cascos.
E depois,
ao superar
a tempestade em fúria,
sentas
bem junto ao sol,
e limpas
as barbas verdes
de algas
e o
muco carmim das medusas.
Eu
me
purifico com Lenin,

 

para fluir
na revolução em frente.
Temo
essas linhas aos montes,
como um menino
que a mentira teme.
A cabeça reluz da coroa,
inquieto-me,
não quero que cubram
a verdadeira,
a sábia
e humana,
a enorme
testa de Lenin.
Temo
que as marchas

 


ao mausoléu
com o estatuto
de reverências
não inundem
com o doce fel
a simplicidade
de Lenin.
Temo por ele
como menina dos olhos,
para que não
seja
caluniado pela beleza.
Meu coração pede –
tenho que escrever
pelo dever do mandato.

 

Toda Moscou.
A terra congelada
treme com os apitos.
Sobre as fogueiras
queimadas desde a noite.
O que ele fez?
Quem é
e de onde?
Por que
é
tão honrado?
Palavra por palavra
puxando pela memória
não direi
a ninguém –
vá para o seu lugar.

 

Como é pobre
no mundo
a oficina da palavra!
Onde a mais adequada
pegar?
Temos
sete dias,
temos
as horas que são doze.
Impossível viver
mais longo que si.
A morte
não sabe pedir desculpas.
Se
com as horas é ruim,
se é pequena

 

a medida do calendário,
nós falamos –
“época”,
nós falamos –
“era”.
Nós
dormimos
à noite.
De dia
realizamos atos.
Gostamos
de malhar
em
ferro frio.

 

E se
por todos pôde
direcionar
os fluxos dos fenômenos,
nós falamos –
“profeta”,
nós falamos –
“gênio”.
Nós
não temos queixas, –
não nos chamam –
não nos metemos,
somos admirados
por nossa esposa,
e com isso
estamos satisfeitos até não poder mais.

 


Se estás
de corpo e alma fundidos,
encara-nos
um desconhecido
espionamos –
“aparência de rei”,
nos admiramos –
“dom de deus”.
Dirão assim, –
revelou-se
nem sábio, nem tolo.
As palavras em suspense
fluirão feito fumaças.
Nada
conseguirá
dessas cascas de ovo.

 

Imperceptíveis
às mãos e à cabeça.
Como é possível
medir Lenin
com essa medida!
Pois com os olhos
via
a cada um –
a “era”, essa
passava pelas portas,
sem
bater com a cabeça
no umbral.
Será que
sobre Lenin também:

 

“líder
por graça divina”?
Se ele
fosse
real e divino,
eu
de raiva
não temeria,
eu
me poria
través à marcha,
través
das reverências e multidões.
Eu
encontraria
palavras

 

para praguejar o vozeirão
e, enquanto
pisoteado,
eu
e o grito meu,
lançaria
ao céu
blasfêmias,
no Kremlin
com bombas
de metal:
Fora!
Mas, são firmes
os passos de Dzerjinski
ao caixão.

 

Hoje
poderia
sair dos postos
a TcheKa1.
Diante de milhões de olhos,
e dos meus
dois,
apenas caramelos congelados de lágrimas,
grudados
às bochechas.
Para Deus
as honras oficiais
não são novidade.
Não!
Hoje
de dor verdadeira

 

gele, coração.
Estamos
enterrando
a pessoa mais terrestre
de todas
que passaram
pela Terra.
Ele é terrestre,
mas não daqueles
que com um olhar
fixam-se
em seu umbigo.
Abraçando
a terra
toda de uma só vez,
viu

 

o que
ficava encoberto pelo tempo.
Ele, como vocês
e eu,
é o mesmo,
apenas,
pode ser que
próximas dos olhos
as ideias
mais que em nós
enrugam a pele,
e são mais risonhos
e mais firmes os lábios
do que os nossos.
Não é a rigidez de um sátrapa,
do carro triunfal

 


que passou
por ti,
puxando as rédeas.
Ele
nutria
pelo companheiro
um carinho humano.
Ele
se erguia
contra o inimigo
mais firme que ferro.
Conhecia ele
fraquezas
que conhecemos,
como nós,
superava doenças.

 

Digamos,
a bilharda em mim –
faz crescer o olho,
o xadrez para ele –
é mais útil
aos líderes.
E do xadrez
ao passar
para o inimigo ao vivo,
transformando em gente
o exército que era de peões,

 


tornava-se
trabalhadora-ditadura humana
sobre a torre da prisão
e do capital.
Para ele
e nós
o mesmo é valioso.


Vladimir Ilitch Lenin
Autor: Vladimir Maiakovski
Tradução: Zoia Prestes
Ilustrações: Mazé Leite
Número de páginas: 232
Editora Anita Garibaldi e Fundação Maurício Grabois
São Paulo - 2012