Jorge Dimitrov, figura de destaque da luta proletária, herói da batalha que desmascarou a provocação do incêndio do Reichstag atribuído por Hitler aos comunistas, apresentou ao Congresso, como secretário-geral da IC, o informe principal, que abriu perspectivas novas e brilhantes aos trabalhadores e aos povos de todos os Continentes. Sintetizando a experiência dos comunistas e das grandes massas populares, e apoiado nas geniais idéias de Lênin sobre a aplicação viva do marxismo, contra o dogmatismo que freia o avanço emancipador da classe operária, Dimitrov indicou o rumo correto para o combate ao fascismo, o mais bárbaro e cruel regime engendrado pelo capital financeiro.

As decisões tomadas no 7º Congresso conduziram ao triunfo histórico do proletariado sobre as forças concentradas da reação em desespero de causa, e asseguraram valiosas conquistas ao movimento operário internacional que tinha como principal baluarte a União Soviética de Lênin e de Stalin.
Embora a situação atual se diferencie da do período em Jorge Dimitrov em que se realizou o Congresso da IC as teses fundamentais do informe de Dimitrov – salto qualitativo na compreensão da maneira de trabalhar pela vitória do socialismo – merecem a maior atenção dos partidos marxistas-leninistas empenhados na árdua tarefa de unir e levar à ação a classe operária e as grandes massas contra a opressão, a espoliação e a exploração cada vez maiores do imperialismo e dos regimes retrógrados. Os revisionistas, os maoístas, os titistas, os eurocomunistas, os doutrinadores de "esquerda" manifestam sérias incompreensões quanto ao conteúdo do documento básico do Congresso, refutam-no a partir de posições de direita ou de "esquerda", interpretando-o de um ponto de vista falso. Uns e outros defendem posições oportunistas, distanciadas do espírito do marxismo-leninismo. I

A SITUAÇÃO NO PERÍODO DO 7º CONGRESSO

Ao abordar as questões relevantes tratadas por Dimitrov não se pode fugir ao exame da situação existente naquela época. A década de 1930 apresenta extrema complexidade relacionada com a intensa preparação da Segunda Grande Guerra, com a ofensiva do capitalismo contra a classe operária e a revolução socialista vitoriosa na União Soviética, ofensiva que se expressava igualmente na liquidação das conquistas proletárias e, muito especialmente, na supressão das liberdades democráticas. As contradições essenciais do sistema imperialista tinham-se agravado como nunca. A crise mundial de 1929 a 1932 deixara marcas profundas na vida social – milhões de desempregados, fábricas fechadas, empobrecimento brutal dos trabalhadores. A Itália vivia subjugada pelo fascismo agressivo e espoliador. Adolfo Hitler chegava ao poder na Alemanha e proclamava sua ambição imperialista de conquistar o mundo. Atacava bestialmente os comunistas, os judeus, os partidos políticos democráticos e revolucionários. Na Ásia, o Japão invadia a China e planejava agredir outros países. Mussolini ocupara violentamente a Etiópia e, juntamente com Hitler, lançara a Espanha na guerra civil para esmagar a República e impor o fascismo que levantava a cabeça por toda parte usando linguagem demagógica e nacionalista, explorando o descontentamento das massas contra o capitalismo. O alvo do ataque principal dos nazi-fascistas era a União Soviética que desfraldava corajosamente a bandeira da revolução e despertava simpatias no mundo inteiro.

Os povos tomavam consciência do perigo real de guerra e da feroz opressão que os ameaçavam. Com a classe operária à frente, as massas populares batiam-se em defesa das liberdades e dos direitos dos trabalhadores. Na Espanha firmava-se a resistência heróica ao fascismo contando com ampla solidariedade internacional, na França iniciava-se a formação da Frente Popular antifascista. A China ostentava vigorosa ação armada antiimperialista. Contudo, a social-democracia, preocupada com a perspectiva de avanço do movimento comunista, realizava na prática uma política de capitulação. Recusando a frente-única para barrar os nazistas tornou possível a ascensão de Hitler ao poder. Assim procedendo, dividia suas fileiras em duas alas sendo que a de esquerda se inclinava para a ação comum contra o fascismo.

Foi nesse clima político carregado de ameaças e permeado de lutas democráticas e patrióticas que se realizou o 7º Congresso da Internacional Comunista, em agosto de 1935.

ORIENTAÇÃO CONCRETA E JUSTA

Em seu magistral informe, Dimitrov fez uma análise profunda da correlação de forças em escala mundial e em cada país. Baseado nessa análise, formulou nova tática para o movimento comunista.
"O fascismo – assinalou ele, caracterizando sua verdadeira natureza – é a aberta ditadura terrorista dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro". Tirando ensinamentos da luta de classes em âmbito mundial, chegou à conclusão de que o problema-chave para enfrentar o fascismo e vencê-lo era a unidade da classe operária e uma correta política de frente-única. Desde sua fundação, a IC pugnava por essa unidade como condição fundamental da realização das tarefas revolucionárias. Em face, porém, da ameaça fascista e do crescimento do movimento operário, era necessário reformular uma série de questões táticas encarando-as de maneira nova: quanto à frente-única, à social democracia, aos sindicatos reformistas e a outras organizações de massas. "A primeira coisa que se deve fazer – dizia Dimitrov – é construir a frente única, estabelecer a unidade de ação dos operários em cada empresa, em cada seção, em cada região, em cada país, em todo o mundo, independente do Partido ou da organização a que pertençam". A IC não exigia condições prévias para a criação dessa frente, pedia apenas que a unidade de ação fosse dirigida contra o fascismo, contra a ofensiva do Capital, contra a ameaça de guerra e o inimigo de classe.

A unidade sindical representava etapa essencial à consecução desse objetivo. Por isso, o 7º Congresso manifestava-se a favor do sindicato único em cada indústria, da unificação sindical internacional por indústria, do sindicato único de classe. Recomendava que os pequenos sindicatos vermelhos se filiassem aos grandes sindicatos reformistas, reivindicando, entretanto, o direito de neles defender suas opiniões e de batalhar por um Congresso de unificação dos sindicatos vermelhos com os sindicatos reformistas visando à unidade sindical. "O operário comunista que não adere ao sindicato de massas da sua profissão, que não luta para transformá-lo de sindicato reformista em verdadeira organização sindical de classe, que não luta pela unidade do movimento sindical com base na luta de classes não cumpre o seu primeiro dever proletário", assinalava a resolução da IC. O resguardo dos interesses econômicos e políticos imediatos da classe operária, a defesa dessa classe contra o fascismo devia constituir o conteúdo fundamental da frente-única. A fim de abrir caminho à unidade de ação era necessário acordos em curto e longo prazos com os partidos social-democráticos, especialmente com sua ala esquerda, com os sindicatos reformistas e demais organizações de trabalhadores. A criação de organismos de classe fora dos partidos apresentava-se como a melhor forma de alargar e consolidar a frente-única.

A IC propunha, além disso, em seu Congresso, a formação de uma vasta frente popular antifascista tendo por alicerce a frente-única proletária. Buscava, assim, atrair os camponeses e outras camadas da população para a luta comum.

Lugar de relevo na atividade do proletariado ocupava a luta em defesa das liberdades democráticas que se confundia com o próprio combate ao fascismo. O Congresso chamava a atenção para esse problema, centro de preocupação de milhões de pessoas de todas as classes e das mais diversas tendências políticas. Em certa medida, essa luta servia de referência à delimitação dos campos da forças aliadas e das forças inimigas. Não se justificava, assim, pôr sinal de igualdade entre regimes que respeitavam, de algum modo, as liberdades e os que as golpeavam e destruíam. Nesse período, a opção não era entre a democracia burguesa e a democracia proletária, mas entre a liberdade e a tirania contra-revolucionária. O proletariado e as massas tinham todo interesse em salvaguardar a democracia, ainda que restrita, objetivando alcançar maiores conquistas.

Atendo-se firmemente à estratégia do movimento revolucionário, sem se afastar dos princípios basilares da doutrina marxista-leninista, Dimitrov desenvolveu uma tática ampla e flexível em consonância com a situação da época. Em relação à questão do poder, afirmava que os comunistas, permanecendo "inimigos irreconciliáveis de qualquer governo burguês", não vacilariam, diante do crescente perigo fascista, em apoiar um governo de frente-única que transformasse em realidade o programa da Frente Popular. Neste sentido, o informe do 7º Congresso contém primoroso capítulo ao estilo staliniano sobre as condições em que se poderia formar tal governo – organismo da colaboração da vanguarda revolucionária do proletariado com os vários partidos antifascistas.

Dentro de uma ótica unitária e frentista, Dimitrov salientava também a importância da frente-única antiimperialista. Referiu-se à China, estimulando o PC desse país "a realizar a mais vasta frente antiimperialista contra o imperialismo japonês e seus agentes chineses" face à ameaça concreta que punha em jogo a existência nacional do povo chinês. Citava igualmente o exemplo do Brasil com a criação da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Dizia que o sucesso da ANL residia em "alargar mais ainda essa frente, atraindo em primeiro lugar os milhões de camponeses", indicação que, lamentavelmente, não foi devidamente considerada pelo PC do Brasil.

Dimitrov ressaltava a questão do reforçamento dos partidos comunistas que precisavam crescer, não de maneira estreita, mas como necessidade de haver um grande partido para cumprir as tarefas da frente-única contrárias ao fascismo e à ofensiva do Capital. A par da ação comum com a social-democracia, cabia aos partidos desenvolver "luta irreconciliável contra a social-democracia enquanto ideologia e prática de conciliação com a burguesia, e contra toda penetração dessa ideologia nas fileiras comunistas". Opondo-se à tendência de voltarem-se para si mesmos, Dimitrov defendia a participação dos partidos comunistas em todos os acontecimentos políticos. "Queremos – afirmava ele – que os partidos comunistas atuem como verdadeiros partidos políticos da classe operária; que desempenhem o papel de fator político na vida de seus países; que apliquem ativa política de massas em lugar de se limitarem à propaganda, à crítica e aos apelos isolados à luta pela ditadura do proletariado".

O COMBATE AO SECTARISMO

A tática ampla que se fazia necessária, e era urgente pôr em prática, não poderia vingar e alcançar êxitos sem o combate tenaz às tendências sectárias, "esquerdistas", que se manifestavam no movimento operário abrangendo os partidos comunistas, afetando seriamente as organizações de massas e a ligação dos revolucionários conseqüentes com os trabalhadores e as camadas populares. Em muitos lugares, constatava o dirigente da III Internacional*, os sindicatos vermelhos mostravam-se estreitos, as Federações Comunistas de Jovens eram organizações eminentemente sectárias, desligadas das massas, o que também ocorria com o movimento de mulheres. Os partidos comunistas, em vários países, apresentavam-se pequenos, sem condições de cumprir suas múltiplas tarefas. O 7º Congresso fez cerrada crítica àquelas tendências, caracterizadas por Dimitrov já não apenas como "doença infantil", mas como vício enraizado que precisava ser erradicado das fileiras comunistas. A resolução do Congresso qualificava-as de sectarismo auto-suficiente, "sectarismo satisfeito com seu limitado espírito doutrinário, com seu isolamento da vida real das massas, com seus métodos simplificados". Ao invés dessa prática errônea, tornava-se indispensável priorizar o trabalho de massas, a luta de massas, a resistência de massas, a frente-única. E concluía ser o sectarismo, a estreiteza, o maior obstáculo à aplicação da verdadeira política de massas dos partidos comunistas.

Ao mesmo tempo, o 7º Congresso advertia estes partidos sobre o oportunismo de direita que poderia erguer-se à medida que se desenvolvesse uma vasta frente-única e progredisse a atuação conjunta com a social-democracia. "É preciso não perder de vista que a tática de frente-única é um meio de persuadir os operários social-democratas da justeza da política comunista e da falsidade da orientação reformista, e não uma forma de reconciliar-se com a ideologia e a prática social democrata", salientava Dimitrov, chamando à vigilância de classe.

APLICAÇÃO CRIADORA DAS IDÉIAS DE LÊNIN

O informe de Dimitrov e as resoluções do 7º Congresso da Internacional Comunista não apenas indicaram corretamente as tarefas fundamentais daquele momento. Trouxeram valiosíssima contribuição à assimilação do leninismo, projetaram com grande força as verdadeiras e consagradoras idéias de V. I. Lênin sobre a atividade dos comunistas, objetivando superar os inevitáveis obstáculos da luta de classes na marcha para chegar à revolução e alcançar o socialismo. Criador e revolucionário, o leninismo é inimigo de todo esquematismo, de toda concepção de seita, expressão do oportunismo e do conformismo resignado. Durante sua vida de combatente de vanguarda, Lênin jamais admitiu idéias preconcebidas, completas e acabadas, que servem como receituário para qualquer situação. Vitoriosa a Revolução Socialista na Rússia, fez um balanço do caminho percorrido, carregado de contradições, e mostrou que o bolchevismo era o oposto das fórmulas mortas, sem vida, dos esquemas irremovíveis. Sublinhou muitas vezes que a revolução é obra das massas e que não se consegue esse objetivo atuando isoladamente, sem aliados, recusando qualquer espécie de compromissos. "A história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro – escreveu Lênin – está cheia de casos de manobras, de acordos, de compromisso com os outros partidos, sem excetuar os partidos burgueses". Mestre da estratégia e da tática proletárias, considerava ridículo renunciar a toda manobra, a toda utilização, ainda que efêmera, do antagonismo de interesses existente entre os inimigos, recusar acordos e compromissos mesmo que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais, com possíveis aliados. Orientava os comunistas a rejeitar as fórmulas rígidas, mecânicas, da tomada do poder, a descobrir na ação imediata as formas de abordar a revolução proletária ou de passar à mesma. A fim de chegar à revolução e ao socialismo, disse ele, o importante "é que atuemos em toda parte e até o fim, guiados pela convicção da necessidade de uma flexibilidade máxima em nossa tática".

Lênin sabia relacionar os embates pela democracia com as batalhas por conquistas mais avançadas do proletariado. Dizia ser erro crasso "julgar que a luta pela democracia pode desviar o proletariado da revolução socialista, mascará-la, encobri-la etc. Pelo contrário, do mesmo modo que o socialismo vitorioso é impossível sem realizar a democracia completa, também o proletariado não se pode preparar para vencer a burguesia sem conduzir uma luta detalhada, conseqüente e revolucionária pela democracia".

São ensinamentos como esses que Dimitrov faz ressaltar, e é precisamente neles que se apóia para formular a tática de luta contra o fascismo.

A PROVA DA VERDADE

Não se pode avaliar um movimento de envergadura como o da luta contra o fascismo de maneira subjetiva, abstrata, senão examinando em profundidade seus resultados reais, buscando a comprovação da prática que é o critério supremo da verdade. A política ampla do 7º Congresso preparou as grandes massas para fazer frente à guerra de Hitler e seus sequazes. Quando o bárbaro do Reich abriu as baterias visando a países independentes e, em primeiro plano a União Soviética, a classe operária e os povos já estavam mobilizados, conscientizados, combatendo o nazi-fascismo.

Essa mobilização foi a base da resistência aos projetos criminosos de Hitler. Representou fator importantíssimo da vitória sobre os imperialistas alemães, italianos e japoneses. Estribada numa política de frente-única ampla, a União Soviética, na mira do ataque alemão, saiu triunfante da guerra, o que ampliou imensamente o prestígio do socialismo e da revolução proletária. O alcance dessa vitória à qual estavam ligadas, inseparavelmente, as decisões do 7º Congresso, impulsionou o movimento revolucionário em todo o mundo, em particular na Europa e na Ásia. No curso da aplicação da política traçada no informe de Dimitrov, e como conseqüência do êxito obtido na guerra, os partidos comunistas cresceram muito e se tornaram instrumentos políticos poderosos da classe operária, enquanto a social-democracia, sua ala direita em particular, declinava. O movimento sindical fortaleceu-se internacionalmente, surgiram fortes centrais sindicais sob a direta influência dos comunistas. As idéias do socialismo ganharam força e prestígio.

Esse o balanço fundamental dos resultados do 7ºCongresso da Internacional Comunista que comprovam a sua justeza. Mais uma etapa da luta revolucionária pela emancipação nacional e social dos trabalhadores e dos povos foi vencida. Inicia-se nova fase do combate contra a burguesia imperialista, pelo avanço da revolução mundial.

II
VICISSITUDES DO MOVIMENTO OPERÁRIO INTERNACIONAL

A história das lutas sociais não é uma seqüência ininterrupta de vitórias. Processo extremamente contraditório, comporta também derrotas, sem dúvida parciais, temporárias, que devem ser examinadas à luz da ciência de Marx e Engels a fim de reduzir-lhes os efeitos e propiciar novo auge revolucionário. Onze anos após os sucessos conseguidos
sobre a reação e o imperialismo, ao final da Segunda Grande Guerra, o movimento operário e revolucionário ingressou em situação difícil. O revisionismo de direita, cujo substrato ideológico é a defesa do capitalismo e o abandono da idéia da revolução e da via socialista, triunfou na URSS. Espalhou-se pelo mundo atingindo quase todos os antigos partidos Comunistas que se converteram em organizações de cunho social-democrata. O proletariado perdeu importantes conquistas, entre as quais a fortaleza da revolução proletária, a União Soviética. Em boa parte, a perspectiva revolucionária desapareceu da visão política de grandes contingentes da população do Globo.

Aproveitando-se da maré revisionista, a burguesia tomou a ofensiva ideológica contra o comunismo. Fez, e continua fazendo, tudo quanto pôde para confundir a classe operária. Afirma que o socialismo é inviável e, ao mesmo tempo, prega as "virtudes" do capitalismo que seria nocivo apenas em alguns aspectos corrigíveis no quadro da colaboração de classes… O comunismo fracassou! alardeiam os capitalistas e, com eles, entram em cena os eternos reformadores sociais, que nada reformam, simplesmente se adaptam a uma realidade cruel, fazendo eco ao engodo burguês. É certo que o revisionismo e o imperialismo não conseguiram liquidar o movimento revolucionário. O socialismo resistiu e floresce na Albânia, surgiram e se desenvolvem partidos marxistas-leninistas, apesar das dificuldades, que não são poucas.

O ambiente de desânimo e frustração com a séria derrota do movimento operário revolucionário trouxe como conseqüência o desnorteamento ideológico, gerando uma crise de certa profundidade do marxismo. O oportunismo de direita, e também o de "esquerda”,
prolifera. Ambos, como sempre acontece em situações semelhantes, metamorfoseiam-se de marxistas-leninistas antidogmáticos ou de defensores ortodoxos da orientação comunista. São, na verdade, contra-revolucionários. Centram seus ataques no caminho trilhado pela III Internacional. Tanto os revisionistas como os doutrinadores de "esquerda" distorcem os fundamentos da doutrina marxista-leninista e, como força de sustentação do capitalismo em decomposição, procuram minar a confiança das massas na sua capacidade de luta pela transformação revolucionária da sociedade. Uns e outros denigrem o 7º Congresso, investem contra a experiência histórica da Internacional Comunista que consideram cheia de erros atribuídos a Stalin, continuador de Lênin, grande e firme dirigente da construção do socialismo na URSS. Os revisionistas contemporâneos criticam a IC como sectária e dogmática; os doutrinadores de "esquerda" atacam-na, em particular o seu 7º Congresso, como direitista. Não obstante esse aparente antagonismo, no fundo são idênticas as posições; eles se encontram na mesma trincheira, renegam a concepção proletária do mundo.

COLABORAÇÃO DE CLASSE – O POSICIONAMENTO REVISIONISTA

O revisionismo contemporâneo atribui os pretensos erros de esquerda da IC à sua atitude diante da social-democracia. Deturpando o ponto de vista de Lênin, claro e preciso, sobre a social-democracia por ele qualificada de agência da burguesia no movimento operário, Palmiro Togliatti. por exemplo, intenta demostrar que o chefe da Revolução de Outubro propendia à conciliação com essa tendência oportunista. A partir de tal distorção julga errôneas as posições da Internacional Comunista desde o seu 5º Congresso (1924) que combatia o social-democratismo. Interpreta o 7º Congresso como mudança radical na orientação anterior da IC, uma espécie de correção de seus "erros" no que respeita à social-democracia. E vai mais longe: afirma que o 7º Congresso constituiu uma viragem de 1800 no esquema estratégico da III Internacional. Suas decisões não se circunscreveriam a problemas táticos, formulavam nova estratégia, o que possibilitaria, ao longo do tempo, aliança e colaboração com correntes daquela tendência; já não se poderia meter no mesmo saco capitalista os social-democratas e os partidos políticos da burguesia.

Todo esse arrazoado dos revisionistas atesta que eles deturpam a verdadeira linha do 7º Congresso, onde, de modo nenhum, se adotou nova estratégia do movimento comunista. A estratégia mantida até hoje, desde a época de Lênin, assim se define: "após a revolução burguesa a etapa estratégica do movimento operário terá apenas um objetivo direto – a luta pela ditadura do proletariado". Na prática e na teoria, os revisionistas renegaram a política da luta de classes que constitui o fundamento do materialismo histórico e passaram para o campo da social-democracia, da colaboração de classe do proletariado com a burguesia, aceitaram o chamado caminho pacífico da revolução. Inegavelmente, em certas circunstâncias, é admissível a frente-única com os setores mais avançados da social-democracia, como propôs o 7º Congresso. Mas não se pode transformar esse tipo de aliança temporária em aliança permanente, nem tampouco obscurecer a luta ideológica essa, sim, permanente – ao social-democratismo.

O OPORTUNISMO DE "ESQUERDA"

Por sua vez, os doutrinadores de "esquerda" agridem o 7º Congresso tomando por base a interpretação que lhe deram os revisionistas de direita. Incapazes de compreender o real conteúdo desse Congresso, caracterizam suas resoluções fundamentais como direitistas. As críticas que articulam são pueris e até ridículas. À guisa de argumento, proclamam nesciamente que no informe de Dimitrov não há uma única palavra sobre a derrubada revolucionária do regime… Vê-se que essa gente nem sequer tomou conhecimento das teses leninistas desenvolvidas pelo secretário-geral da IC a respeito da momentosa questão das formas de abordar a revolução, formas de transição ou de aproximação da revolução proletária. O governo de frente-única, indicado no 7º Congresso, dava vida precisamente às teses de Lênin sobre os meios de alcançar a derrocada do poder burguês, o que aconteceu em vários países de democracia popular. Segundo os oportunistas, o Congresso teria apostado tudo numa larga oposição unida, pondo à margem, como sectária, a linha de "classe contra classe" defendida no 6º Congresso da IC. Sustentam também que o revisionismo emergiu da "teoria antifascista dimitroviana" que, supostamente, punha de lado a luta antiimperialista e teria conduzido à inoportuna dissolução da Internacional Comunista, em 1943. A verdade incontestável, porém, é que a luta antifascista proporcionou a vitória grandiosa da União Soviética e, portanto, da revolução proletária, desfechou profundo golpe no imperialismo em escala mundial. Jamais as decisões do 7º Congresso fugiram à lógica da luta de classes. As alianças políticas indispensáveis à superação de determinados obstáculos não contradizem o princípio da luta de classes, ao contrário, o afirmam categoricamente. É pura ilusão acreditar que se ainda existisse a Internacional Comunista quando do impacto do revisionismo de Kruschev a ofensiva oportunista teria sido derrotada. Provavelmente a IC, no quadro de uma situação tão confusa como a criada pelo XX Congresso do PCUS – partido que gozava de merecida autoridade no plano mundial – apoiaria a orientação revisionista. Basta citar a reunião, em 1960, dos 84 partidos comunistas, em Moscou: à exceção de três, entre os quais o PTA, todos os demais aprovaram e defenderam as teses kruschevistas.

A fonte do revisionismo contemporâneo não se encontra no 7º Congresso, nem nas posições adotadas pela III Internacional. Resultado em grande parte da pressão ideológica cada vez mais forte do imperialismo, acompanhada de chantagens belicistas e ameaças de confrontos guerreiros, o revisionismo surge na União Soviética em meados da década de 1950, como capitulação da direção vacilante do PCUS, imbuída de concepções pequeno-burguesas. Carente de têmpera bolchevique, mostrou-se incapacitada para resistir à pressão do inimigo de classe. Cedeu, buscou a linha da menor resistência, abandonou o caminho da revolução, caminho que Lênin e Stalin sempre defenderam nas condições mais adversas. O prestígio internacional do PCUS favoreceu a propagação do surto revisionista em quase todos os partidos. É certo que tendências revisionistas embrionárias, em potencial, existiam e existem em todos os partidos comunistas; há sempre "companheiros de viagem", gente temerosa do acirramento inevitável da luta de classes, pronta a trocar de campo assim que as nuvens se turvam no horizonte político. Também havia na União Soviética, Lênin as combateu. E Stalin, pouco antes de morrer, em Problemas Econômicos do Socialismo na URSS, atacou-as abertamente. Tais tendências, no entanto, unicamente se transformam em "doutrina oficial" imperante no movimento operário, quando se apossam da direção do partido comunista, em geral nos momentos de maiores dificuldades.

MÉTODOS FALSOS NA DEFINIÇÃO DAS TAREFAS

Os revisionistas de direita e os de "esquerda", raciocinam de maneira mecânica, antidialética. Sua forma de pensar é idealista. A dialética ensina que, em política, o que serve para determinada situação é inaplicável a situações diferentes. A marcha dos acontecimentos históricos não se dá de forma linear. É por isso que os Congressos do movimento comunista não podiam nem podem seguir uma linha horizontal, são obrigados, usando linguagem figurada, a adotar uma linha quebrada, com muito ângulos, altos e baixos.

Quando se realizou o 6º Congresso da IC duas questões muito importantes apresentavam-se: a estabilidade relativa do capitalismo que tendia a criar ilusões nas fileiras proletárias e a particularidade de serem jovens os partidos comunistas, ainda insuficientemente formados do ponto de vista ideológico. Justificava-se, pois, a palavra-de-ordem de classe contra classe que destacava a necessidade de os partidos reforçarem sua consciência política, manterem-se em guarda contra a colaboração de classes pregada pela social-democracia que, nesse período, desfrutava de grande influência entre os trabalhadores e dominava a direção das organizações sindicais reformistas. A orientação do 6º Congresso ajudava à formação e à consolidação dos partidos revolucionários criados havia pouco tempo.

Na época do 7º Congresso, outras eram as questões candentes no cenário político. Agravaram-se seriamente as contradições da sociedade capitalista. Ante a classe operária e os povos levantava-se grave ameaça representada pelo fascismo que preparava intensamente a guerra, e investia contra o movimento democrático e progressista. Daí a justeza da orientação flexível e unitária, a imperiosidade da política de frente-única e frente popular promovidas pela IC em oposição ao fascismo opressor e sanguinário. Sem semelhante política voltada para as massas, o fascismo possivelmente teria causado ainda maiores danos à humanidade e (quem sabe?) avassalado boa parte do mundo.

Logo em seguida ao fim da guerra, vencido o nazi-fascismo, surge nova situação prenhe de perigos para os povos. Face às grandes vitórias democráticas alcançadas e ao ascenso da revolução em todo o mundo, o imperialismo – tendo à frente os monopolistas norte-americanos que se haviam incorporado à luta contra Hitler e os militaristas japoneses na defesa de interesses próprios, passa ao ataque aberto à revolução, invade a Coréia – esmaga as liberdades em toda parte e orienta-se para a agressão à União Soviética brandindo a bomba atômica. Outras tarefas colocavam-se diante do proletariado revolucionário, a luta de classes tomava feições distintas. Impunha-se determinar tarefas consentâneas com a realidade. Em fins de 1947, A. Zhdanov, em nome do PCUS, apresentava no COMINFORM (Comitê de Informações de Partidos Comunistas europeus) um Relatório no qual caracterizava a situação como sendo de contraposição entre dois campos: o imperialista e antidemocrático e o democrático e antiimperialista. Indicava, outrossim, as tarefas imediatas para o momento, que não eram nem podiam ser as mesmas do 7º Congresso. Destacava a necessidade da luta por uma paz duradoura e pela democracia popular, aspirações sentidas das massas. Essa palavra-de-ordem ajudava a agrupar as forças democráticas e progressistas e a combater a ofensiva guerreira e fascista do campo imperialista comandado pelos Estados Unidos.

Se não se tem em conta as modificações que se processam na marcha contraditória do desenvolvimento histórico, de onde decorrem as tarefas do movimento revolucionário, comete-se muitos erros. Uma tese justa, aplicada de modo mecânico, desprezando as mudanças ocorridas na situação, degenera geralmente em dogma. Nem os revisionistas, nem os doutrinadores de "esquerda" assimilaram o método dialético marxista ou, como dizia Lênin, a doutrina sobre o desenvolvimento histórico multilateral e cheio de contradições que conduz a viragens bruscas, a distintas situações político-sociais "que são as que determinam de maneira direta e imediata as condições da ação e, por conseguinte, as tarefas da ação".

Em um de seus textos filosóficos, Lênin afirma: "o conhecimento humano não é uma linha reta, mas uma linha curva que se aproxima indefinidamente de uma série de círculos, de uma espiral". É bastante que um segmento dessa curva seja trocado por uma linha reta e já não haverá pensamento dialético, mas idealista. Abandona-se o caminho natural da evolução e entra-se num desvio que foge à realidade em movimento. "Caminhar retilíneo, e unilateralidade, rigidez e ossificação, subjetivismo e cegueira subjetiva – eis as raízes gnosiológicas do idealismo", precisava Lênin.

Sem levar em consideração que a situação havia mudado, e inevitavelmente mudaria, os revisionistas do tipo de Togliatti prosseguiram por uma senda falsa, unilateral, surgida de uma concepção idealista que reflete posições de classe, burguesas. O mesmo se pode dizer dos doutrinadores de "esquerda" que não viram nem compreenderam que entre o 6º e o 7º Congresso da IC ocorreram mudanças substanciais no quadro político. Queriam que nas novas condições prevalecesse igual linha de conduta da fase anterior.

A verdade é que a situação político-social está em constante modificação por efeito da luta de classes e do processo de desenvolvimento contraditório do capitalismo. Com toda razão J. Dimitrov diz: "não seríamos autênticos marxistas-leninistas, revolucionários, leninistas, dignos discípulos de Marx-Engels-Lênin-Stalin, se, em função de uma situação modificada e de avanços verificados no movimento operário mundial, não modificássemos de maneira apropriada, a nossa política e a nossa tática".

A CRISE DO MARXISMO

Os oportunistas de direita revisam o marxismo-leninismo, revisão que conduz a concepções burguesas, na forma da antiga social-democracia. Os oportunistas de "esquerda",
auto-intitulando-se defensores intransigentes dos "princípios", revisam também a doutrina revolucionária, convertendo-a em algo inconseqüente e estéril com muitos pontos de contato com as estereotipadas fórmulas trotskistas. Não encontrando resposta para o isolamento em que se acham, para a precária ligação com as massas e para sua pouca expressiva organização (partidos ou grupos pequenos que não se desenvolvem), buscam explicação às suas dificuldades no plano abstrato da especulação política vazia, procuram no passado e não no presente, em sua conduta prática, sua orientação política, a razão dos entraves com que se defrontam. Indagam presunçosos: quando e onde começa o revisionismo? E saltam para o passado histórico, tentando descobrir erros e incorreções graves que, consoante sua interpretação metafísica, dogmática, separada da vida, teriam ocorrido nas orientações da III Internacional. O 7º Congresso, objetivo e revolucionário, é apontado como berço do revisionismo. A dissolução da IC, corretamente levada a efeito (já havia cumprido o seu papel) seria um equívoco de Stalin, suposto abandono do internacionalismo proletário.

Tudo isso indica que vivemos um período de crise do marxismo muito assemelhada, em seus aspectos mais gerais, à dos fins da primeira década deste século, tão bem analisada por Vladimir Ilich Lênin. Certamente, não se trata de uma repetição: a crise atual tem suas características próprias, reflete, porém, os mesmos desajustes relacionados com as mudanças ocorridas nas condições econômico-sociais, os mesmos problemas complexos da luta de classes e a incompreensão dialética do processo histórico. Com a presente crise instalou-se a perplexidade e, como naquela época, estendeu-se a desagregação, a dispersão, as vacilações de toda ordem, a fraseologia oca, pseudo-revolucionária. Questiona-se tudo tudo é posto em dúvida, inclusive o marxismo-leninismo.

Pesquisam-se caminhos "originais" que rapidamente chegam a ínvias encruzilhadas da ordem social vigente. Porque fora da estrada real da luta de classes, da revolução proletária guiada por uma vanguarda consciente da missão histórica do proletariado – apta a dirigir de maneira hábil e coerente dialética, o processo revolucionário – há apenas ilusões reformistas, sem nenhum futuro.

Tudo isso ocorre quando grandes massas que não conheceram a experiência passada começam a interessar-se pelo socialismo, pela ciência social que serve de orientação às transformações radicais da sociedade, acicatadas pelos horrores do mundo capitalista. Estas massas deparam-se com imensa variedade de falsos roteiros elaborados por toda espécie de sociólogos, de marxicólogos, de analistas de encomenda, de "marxistas" frustrados que distorcem a verdade e confundem as pessoas.
Eis por que, para retomar a marcha ascensional da revolução, truncada pela crise, do marxismo, é imprescindível proceder à defesa dos postulados marxistas-leninistas, intensificar o conhecimento teórico em íntima ligação com o combate ao revisionismo de direita e de "esquerda", e com o desmascaramento dos falsificadores burgueses da realidade. A luta teórica assume importância primordial, sempre ligada ao campo da ação prática que fornece a experiência viva à elaboração do caminho seguro da vitória. Quanto mais se aprofundar essa luta envolvendo gigantescas massas, mais próxima estará a superação da crise que perdura há algumas décadas. E mais perto o dia fatal do capitalismo.

A IC era também chamada III Internacional.

EDIÇÃO 11, AGOSTO, 1985, PÁGINAS 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11