Esse prazer de me deliciar com as lembranças me faz ouvir melhor as pancadas do meu coração, me faz sentir carinhosamente o perfume da juventude , me deixa apreciar silenciosamente os passos do tempo e me permite abraçar ternamente a emoção dos ruídos que chegam com a primavera, ficando impossível não dividir com alguém , esta memória em forma de poesia que se derrama sobre o meu corpo.

      Lembro da época em que as discussões acaloradas na defesa do socialismo incendiaram meu peito e minhas saudades são invadidas pelo cheiro da igualdade. Lembro da poesia de Vinícius de Moraes e o amor abre um sorriso de saudades. Lembro que fiz muitas viagens na busca de um sonho e vejo o nascer do dia. Lembro que quando abri um livro de Lenin pela primeira vez, o meu rosto se iluminou . Lembro do dia em que conheci Elza Monerat e o meu coração deu pulos de contentamento – o sonho era possível.
 
      O Barro Vermelho será para sempre um porão de deliciosas lembranças. Lembro de deslizar no piso de uma barraca que guardava o pó de carnaúba – passatempo que a inocência se encarregava de acompanhar. Lembro de bonecas de pano adormecidas numa cesta de palha com cobertura de sonhos. Lembro de uma cadeirinha de madeira que balançava pendurada em cordas na sombra do umbuzeiro – vôo alçado pela leveza das horas. Lembro de comer queijo fresco com goiabada quente – bocados de carinhos caseiros. Lembro de um chão de flores vermelhas embaixo de um flamboiaiã e no meu coração brota um sorriso de liberdade. Lembro da presença amorosa de titia Otília em cada detalhe da casa grande – refúgio de conforto. 
 
      Quando chego a Pedro II, sou acariciada pelo sopro maravilhoso das lembranças. Lembro da velha Erika, made in Germany – máquina de escrever do meu pai, e o barulho do seu teclado se transforma em canto de felicidade. Lembro de esconder oitis maduros nos jardins da praça para pegar depois da missa – gesto carregado pela magia da simplicidade que alimenta o coração. Lembro de como era gostoso escalar as sacas de fios do armazem do meu pai e brincar nas alturas. Lembro de na casa vizinha colher vinagreira com minha amiga e a nossa fala era de sonhos. Lembro de tomar banho nas águas barrentas da "passagem" e sair com o corpo perfumado de encantos. Lembro de subir até a torre da igreja, tocar o sino e perder a respiração pela aventura profana. Lembro de recitar Guerra Junqueira num jogral da Escola e me vestir de poesia.
 
      O Paladar e o Olfato chegam se misturando em lembranças que me alimentam. Lembro de uma feijoada inesquecível, com as cores do Brasil e vejo a amizade se espalhando com a sabedoria de quem abraça a vida. Lembro do sabor da cajuína e sinto o calor forte de Teresina se transformando em tardes brandas. Lembro de tapioca com coco babaçu e o cheiro da Umburana, casa da vovó Maria Emídia, me leva a um mundo de belezas e emoções infinitas . Lembro do sol forte de Teresina e amenizo o suor com um sorvete de bacuri. Lembro das caminhadas de luta e mato a minha sede com suco de cajá – delícias do Piauí. Lembro do caju amigo do Pandora e o meu peito fica aquecido pela amizade de um grande amigo de São Paulo.
 
      Os rostos, os gestos, as falas e o silêncio chegam como o enlevo da aragem fresca do amanhecer. Lembro das gentilezas de minha avó Maria Hygina, pequenos agrados com cheiro de jasmim. Lembro das aulas da professora Socorro Perfeito e ainda me encanto com suas palavras de certezas – aspiração que se transformava em poesias no quadro negro – e este tempo precioso, que tem o poder de guardar o que de verdade, me marcou. Lembro dos rostos anônimos das passeatas de protestos e o manto de suavidade que cobria os desejos de mudanças. Lembro das noites de serenatas e o som que clamava os sentimentos mais profundos – flores de madrugadas que continuam a florecer corações.
 
      A minha infância é um poço de lembranças refletidas em águas cristalinas. Lembro da bicicleta sem varão que chegou fazendo a diferença entre a criançada. Lembro do quintal cercado com arame farpado, que parecia invisível – portas abertas para toda a vizinhança. Lembro da névoa forte que fechava a cidade, nas primeiras horas da manhã, cobrindo nossas preces e orações de uma brancura celestial. Lembro de uma viagem especial, para Piripiri, no "misto" do Sr. Zeca Brito – era o início de uma longa viagem… Lembro das roupas bordadas que me deixavam com ar de princesa – A arte das mãos da tia Fransquinha Benício que ainda me envolve com sua beleza. Lembro da terra do nunca e minha eterna paixão por Peter Pan – como é maravilhoso ver esta criança brincando, e sempre garimpando lembranças capazes de me ajudar a reinventar caminhos. 
 
      Continuo cuidadosamente a guardar pedaços de amor.

      Lembro de palavras doces com sabor de favo de mel e sou abraçada pela meiguice de minha afilhada Ana Clara.
 
      A vida é um abrigo de belas lembranças.