Talvez não seja hora de lucubrações gramaticais. É intenso burburinho político. Mas gramática e política às vezes andam juntas.

Ser ou estar ministro já deu muito que falar: dois verbos assemelhados, com aplicações bem distintas. Novamente, vamos ao verbo. Agora, privatizar que, segundo o dicionário, é criação brasileira. Entrou no vocabulário não faz tanto tempo. Mestre Aurélio Buarque afirma tratar-se de transitivo direto, o que significa ser necessário agregar-lhe uma ou duas palavras para formar sentido. Quando se diz privatizar impõe-se a indagação: o quê? E logo vem à mente do leitor habituado à imprensa diária, escrita ou falada, o termo – empresa. Privatizar empresas, isto é, passá-las do domínio do Estado para as mãos ditas eficientes de particulares. Por ventura eu, você, dona Xica da Silva? Nada disso. No caso, os particulares são donos de capital, pessoas jurídicas na terminologia do imposto de renda. E não pode ser qualquer uma, dado que as empresas estatais são empreendimentos vultosos. A pessoa jurídica precisa dispor de alto cacife. E cacife alto neste país é com as multinacionais.

Dizem os textos bíblicos que primeiro foi o verbo. Depois… Depois de privatizar vem um outro verbo, também criação nacional: entregar (com o sentido de alienar) que se origina de um neologismo conhecido: o entreguismo. É precisamente disto que se trata. Entregar as empresas estatais, base para o desenvolvimento de uma economia independente, aos poderosos monopólios forâneos. Muitas tentativas neste sentido têm sido feitas, sem sucesso. A vigilância patriótica não permitiu que vingassem. Contudo, o capital estrangeiro voraz e espoliador insiste sempre.

Os banqueiros internacionais, como feras esfaimadas, rondam a vítima indefesa. O país está em crise, enfrenta dificuldades tremendas. É hora de atacar. Madame Margareth Thatcher nem sequer respeitou a ética diplomática. Num encontro europeu foi dizendo no bom inglês da antiga nação dominadora do mundo: se o Brasil não pode pagar as dívidas, que venda suas empresas! Aqui, apenas o verbo (outra vez o verbo) não é propriamente vender, mas entregar. É o que ela quis dizer. Que pense assim não surpreende. Como primeiro-ministro de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra, defende arrogantemente a política de rapinagem do imperialismo. O que confrange é que brasileiros, homens nascidos no Brasil, não tenham pudor de repetir o slogan, saturado de cinismo, da porta-voz dos banqueiros londrinos.

Está em marcha o complô da privatização, urdido dentro e fora do governo com a participação do FMI. O argumento é insustentável. As estatais seriam a causa do déficit orçamentário elevadíssimo que pressiona os índices inflacionários. Seriam mesmo? Ou ele provém do pagamento indevido e inadmissível de juros abusivos da dívida externa? Ou do socorro financeiro do Estado a uma economia mal-dirigida, mal-estruturada, permanentemente desvitalizada? É sintomático, para não dizer alarmante, o episódio vivido pelo Congresso quando da discussão do pacote econômico do governo. A sorrelfa, tentando passar por simples mudança de redação, propunha-se revogar o Parágrafo Único do art. 1º de uma lei relacionada com o monopólio estatal do petróleo. Negligência? Ou maquinação das "sete irmãs" que controlam o petróleo mundial, de olhos compridos na Petrobras e suas subsidiárias?
Muitas das empresas estatais que se vão pondo em leilão na Bolsa de Valores são alicerces da independência nacional construídos com sacrifícios e em duras lutas. Entre elas, Petrobras, Vale do Rio Doce, Siderúrgica de Volta Redonda e outros lugares. Cedê-las é trair a pátria, descrer da capacidade realizadora comprovada de nossa gente. É agredir a dignidade do povo brasileiro que quer ser livre, dono de seus destinos.

O presidente Sarney, poeta e escritor, tem cantado loas à iniciativa privada. Não se lhe pode condenar por isso. Todavia, o eco de seu canto se confunde com a desestatização, favorecendo destarte o assalto cuidadosamente preparado a nossa economia pelos monopólios imperialistas. O Brasil é um país que necessita nacionalizar, estatizar ramos decisivos da economia, se quiser defender sua soberania. Vivemos num mundo onde impera o capital financeiro das grandes potências, impiedoso e avassalador. A iniciativa privada não tem condições de desenvolver com recursos nacionais setores fundamentais para o progresso da nação. Tal iniciativa num país dependente, economicamente fraco, é porta aberta à subordinação estrangeira.

Verbo por verbo, em tempo presente ou no futuro, lutar é ainda o melhor. Lutar para transformar nossa pátria na terra da liberdade, da cultura, da fartura, da justiça social, da solidariedade humana. Terra de homens livres, terra da revolução libertadora.

EDIÇÃO 12, DEZEMBRO, 1985, PÁGINAS 3, 4