A cobertura midiática constitui uma importante janela para compreender como os Estados interpretam eventos internacionais e projetam suas prioridades estratégicas. Mais do que relatar acontecimentos, os meios de comunicação ajudam a construir narrativas sobre o lugar que um país ocupa no mundo, sobre a forma como percebe seus parceiros, concorrentes e adversários, e sobre quais caminhos considera desejáveis para a evolução da ordem internacional.
Foi a partir dessa perspectiva que realizamos uma análise de 99 matérias publicadas por veículos da grande mídia chinesa acerca da visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China. O objetivo não foi apenas identificar a frequência das notícias ou os temas mais recorrentes, mas compreender quais conceitos estruturaram a cobertura, quais mensagens foram transmitidas ao público e qual interpretação da relação sino-americana emergiu desse conjunto de publicações.
Os resultados revelam uma narrativa bastante distinta daquela frequentemente encontrada em análises ocidentais das relações entre China e Estados Unidos. A visita de Trump não foi apresentada como um simples gesto diplomático, tampouco como o início de uma nova era de amizade entre as duas potências. Também não foi retratada como uma tentativa de restaurar o padrão de engajamento que marcou parte das relações bilaterais nas décadas anteriores. A principal mensagem transmitida pelos meios de comunicação chineses foi mais cautelosa e mais pragmática: China e Estados Unidos continuarão sendo competidores estratégicos, mas essa rivalidade precisa ser administrada.
Essa conclusão emerge de forma consistente ao longo do corpus analisado. Expressões como “estabilidade estratégica construtiva”, “diferenças administradas”, “cooperação pragmática”, “interdependência econômica”, “governança da inteligência artificial”, “estabilidade das cadeias de suprimentos” e “interesses centrais” apareceram repetidamente nas matérias. Em conjunto, esses conceitos revelam uma visão específica da relação sino-americana: trata-se de uma relação complexa, marcada por divergências profundas, mas importante demais para ser conduzida pela lógica da confrontação permanente.
O tom predominante da cobertura pode ser descrito como construtivo, mas não ingênuo. As matérias acolheram a visita como um desenvolvimento positivo, capaz de reabrir canais de diálogo e reduzir tensões. Contudo, ao mesmo tempo, insistiram que a cooperação depende de mecanismos institucionais, respeito mútuo e autocontenção política. Os Estados Unidos não foram retratados como um parceiro confiável ou um aliado em potencial. Foram apresentados como um ator poderoso, imprevisível e, ao mesmo tempo, indispensável. Nesse enquadramento, o principal desafio não é eliminar a rivalidade, mas impedir que ela se transforme em colisão.
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A estabilização como conceito central da narrativa
Entre os diversos temas identificados na pesquisa, o conceito de “estabilidade estratégica construtiva” apareceu como o principal eixo organizador da cobertura. Esse aspecto merece atenção porque revela uma diferença importante entre a forma como a mídia chinesa interpreta as relações internacionais e a maneira como esse debate costuma aparecer em grande parte da imprensa ocidental.
A visita de Trump não foi apresentada como um momento de reconciliação histórica nem como um retorno à fase de cooperação ampliada que caracterizou determinados períodos das relações sino-americanas. Em nenhum momento a cobertura sugeriu que as divergências estruturais entre os dois países desapareceram. Pelo contrário, elas foram constantemente reconhecidas e discutidas.
A novidade, segundo a narrativa predominante, não estaria na superação da competição, mas na criação de mecanismos capazes de administrá-la. Trata-se de uma diferença conceitual fundamental. Enquanto uma lógica de “reset” pressupõe a reconstrução da confiança e a retomada de uma agenda amplamente cooperativa, a lógica da estabilização parte do reconhecimento de que a competição é permanente. O objetivo não é eliminar as divergências, mas impedir que elas produzam crises descontroladas.
Essa abordagem reflete uma visão profundamente pragmática das relações internacionais. Em vez de buscar harmonia, procura-se construir previsibilidade. Em vez de apostar na convergência de interesses, procura-se criar procedimentos, fóruns de diálogo e instrumentos de gestão de conflitos. Sob essa perspectiva, a visita de Trump foi tratada menos como um evento simbólico e mais como um exercício de construção de “guarda-corpos” diplomáticos capazes de reduzir os riscos inerentes à rivalidade entre as duas maiores potências do sistema internacional.
A análise temática do corpus reforça essa interpretação. Temas relacionados à estabilização estratégica e à gestão da competição apareceram em mais da metade das matérias analisadas. Questões ligadas ao pragmatismo econômico e à interdependência comercial também estiveram presentes em mais da metade dos textos. Já temas relacionados à tecnologia, inteligência artificial, cadeias de suprimentos e soberania surgiram com menor frequência, mas desempenharam papel central na estruturação da narrativa geral.
Esse padrão é revelador. A cobertura chinesa não interpretou a visita prioritariamente através de categorias ideológicas. O centro de gravidade do discurso foi eminentemente prático: como administrar uma rivalidade que parece inevitável?
A lógica da rivalidade administrada
Talvez o conceito que melhor sintetize o conjunto da cobertura seja o de “rivalidade administrada”. Embora essa expressão apareça de diferentes formas ao longo das matérias, ela constitui o verdadeiro núcleo interpretativo do corpus.
A mídia chinesa parte do pressuposto de que a competição sino-americana não é um fenômeno conjuntural ligado a governos específicos ou a desacordos temporários. Trata-se de uma característica estrutural da atual distribuição de poder no sistema internacional. A ascensão econômica, tecnológica e geopolítica da China inevitavelmente produz tensões com os Estados Unidos, potência que continua ocupando posição central na ordem global.
Entretanto, reconhecer a existência dessa competição não significa aceitar a inevitabilidade do confronto. Esse ponto diferencia a narrativa chinesa de algumas correntes predominantes nos debates estratégicos estadunidenses, que frequentemente recorrem a analogias históricas para argumentar que o crescimento de uma potência emergente tende a gerar conflitos com a potência estabelecida. Enquanto essas interpretações enfatizam os riscos de uma nova Guerra Fria ou da chamada “Armadilha de Tucídides”, a cobertura chinesa observada durante a visita de Trump procurou destacar a possibilidade de coexistência competitiva.
A mensagem implícita é que a rivalidade pode ser institucionalizada, regulada e administrada. Os dois países podem continuar competindo por mercados, tecnologias, influência diplomática e liderança internacional sem que isso necessariamente resulte em rupturas sistêmicas.
Essa visão ajuda a explicar por que expressões como “diferenças administradas”, “cooperação pragmática” e “estabilidade estratégica” apareceram com tanta frequência no corpus analisado. A questão central não é como eliminar a competição, mas como impedir que ela ultrapasse determinados limites.
A economia como força de estabilização
O tema mais presente em toda a cobertura foi o pragmatismo econômico. As matérias dedicaram ampla atenção ao comércio bilateral, investimentos, tarifas, exportações agrícolas, indústria aeronáutica, minerais estratégicos e à participação de líderes empresariais estadunidenses nos eventos relacionados à visita.
A atenção concedida ao setor empresarial não foi casual. A mídia chinesa utilizou a presença de executivos estadunidenses para reforçar uma ideia central: apesar das tensões políticas, os vínculos econômicos entre os dois países permanecem profundos e estruturalmente relevantes.
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A narrativa construída sugere uma distinção importante entre a lógica da competição geopolítica e a racionalidade econômica. Enquanto setores políticos em Washington frequentemente defendem políticas de contenção, desacoplamento ou restrição tecnológica, empresas e investidores continuam enxergando a China como um mercado indispensável.
Dessa forma, a interdependência econômica aparece como um dos principais fatores de estabilização das relações bilaterais. O argumento implícito é que o elevado grau de integração entre as economias chinesa e norte-americana cria incentivos para a moderação e aumenta os custos de uma eventual escalada das tensões.
É importante destacar que a mídia chinesa não apresentou a cooperação econômica como uma solução automática para os conflitos políticos. A cobertura não sugere que o comércio eliminará as divergências geopolíticas. O argumento é mais sofisticado: a interdependência econômica funciona como um mecanismo de contenção, criando incentivos para que ambos os lados evitem ações excessivamente disruptivas.
Em outras palavras, a economia foi apresentada como um fator de realismo. A rivalidade estratégica existe, mas encontra limites concretos nas conexões produtivas, comerciais e financeiras que unem os dois países.
Tecnologia: competição e cooperação simultaneamente
Outro aspecto de destaque na cobertura foi a questão tecnológica, especialmente os debates relacionados à inteligência artificial e à indústria de semicondutores. A visita de Trump não foi retratada apenas como um evento diplomático tradicional. Ela foi enquadrada como parte de uma disputa tecnológica mais ampla que tende a definir o equilíbrio de poder global nas próximas décadas.
O tratamento dado à inteligência artificial foi relativamente construtivo. Diversas matérias destacaram a necessidade de cooperação internacional em temas relacionados à governança tecnológica, segurança algorítmica, padronização regulatória e responsabilidade global. Nesse campo, a mídia chinesa enfatizou que China e Estados Unidos compartilham responsabilidades que transcendem suas divergências bilaterais.
Ao mesmo tempo, quando o foco se deslocava para semicondutores, controles de exportação e restrições impostas pelos Estados Unidos às empresas chinesas, o tom tornava-se significativamente mais crítico. As medidas adotadas por Washington foram frequentemente retratadas como contraproducentes. Em vez de interromper o avanço tecnológico chinês, argumentava-se que essas políticas estariam acelerando os esforços domésticos de inovação e prejudicando os interesses de empresas norte-americanas.
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Essa dualidade revela uma característica fundamental da narrativa chinesa contemporânea: competição e cooperação não são vistas como categorias mutuamente excludentes. Elas coexistem. A disputa tecnológica é considerada inevitável, mas isso não elimina a necessidade de coordenação em áreas onde os impactos globais são significativos.
A inteligência artificial simboliza a possibilidade de coordenação. Os semicondutores simbolizam a persistência da desconfiança estratégica. Juntos, esses dois temas oferecem uma síntese da maneira como a mídia chinesa compreende a relação sino-americana contemporânea.
Cadeias produtivas e os limites do desacoplamento
A questão das cadeias globais de suprimentos ocupou espaço importante na cobertura, ainda que com menor frequência do que os temas econômicos gerais.
As matérias analisadas sugerem um consenso implícito de que o desacoplamento econômico entre China e Estados Unidos não apenas é difícil de implementar, mas também potencialmente prejudicial para ambas as partes.
A China foi apresentada como um elemento central da economia global, integrada às cadeias produtivas internacionais de maneira tão profunda que tentativas de isolamento ou substituição completa seriam economicamente custosas e operacionalmente complexas.
A estabilidade das cadeias de suprimentos foi associada à estabilidade do próprio sistema econômico internacional. Sob essa perspectiva, políticas de restrição comercial, tarifas excessivas ou controles tecnológicos amplos foram frequentemente retratadas como fontes de instabilidade, e não de segurança.
Esse argumento possui implicações geopolíticas relevantes. Se as cadeias produtivas permanecem profundamente integradas, então a própria rivalidade estratégica encontra limites objetivos. China e Estados Unidos podem competir, mas precisam preservar as condições mínimas necessárias para o funcionamento da economia mundial.
A cobertura utilizou essa lógica para questionar discursos que defendem o desacoplamento ou a redução drástica da dependência econômica entre as duas potências. Em vez disso, defendeu a ideia de que a estabilidade das cadeias globais constitui um interesse compartilhado.
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Taiwan e os limites da cooperação
Se a economia e a tecnologia abriram espaço para discursos de cooperação, Taiwan apareceu como o principal limite dessa cooperação.
Embora as referências à questão taiwanesa tenham sido menos numerosas do que as relacionadas ao comércio ou à estabilidade estratégica, sua relevância política foi muito superior à frequência com que apareceram.
A cobertura reiterou de forma consistente que a soberania nacional permanece uma linha vermelha para Pequim. A disposição chinesa para ampliar o diálogo e estabilizar as relações com Washington foi apresentada como condicionada ao respeito aos seus interesses fundamentais.
Esse aspecto confere um caráter condicional ao tom construtivo identificado no conjunto das matérias. A cooperação é desejável, mas possui limites claros. Entre eles, a questão de Taiwan ocupa posição central.
Consequentemente, os Estados Unidos foram retratados não como um parceiro convencional, mas como um ator cujas decisões podem tanto contribuir para a estabilidade quanto desencadear crises. Isso ajuda a compreender por que a narrativa chinesa insiste tanto na ideia de gestão de riscos. O desafio não é construir confiança irrestrita, mas evitar que temas sensíveis se transformem em fontes de escalada.
A China como fonte de previsibilidade em um mundo incerto
Outro aspecto particularmente relevante da cobertura foi a construção discursiva da imagem da China como um fator de estabilidade internacional.
Essa narrativa não apareceu apenas em matérias diretamente relacionadas à visita de Trump. Ela permeou praticamente todos os grandes temas identificados na pesquisa. Quando os veículos discutiam comércio, a China era apresentada como um mercado indispensável para empresas globais. Quando abordavam inteligência artificial, aparecia como um ator essencial para a construção de mecanismos de governança internacional. Quando tratavam das cadeias produtivas, era retratada como um elo fundamental para o funcionamento da economia mundial.
Em conjunto, esses elementos contribuíram para projetar uma imagem específica da China: a de um ator responsável, previsível e comprometido com a estabilidade sistêmica.
Essa construção narrativa ganha ainda mais relevância quando considerada no contexto político internacional contemporâneo. Em um ambiente marcado por guerras, disputas comerciais, sanções econômicas e crescente fragmentação geopolítica, a mídia chinesa parece buscar associar o país à ideia de continuidade e previsibilidade.
A visita de Trump foi utilizada precisamente para reforçar essa percepção. A presença de empresários estadunidenses, a retomada de diálogos institucionais e as discussões sobre cooperação tecnológica foram apresentados como evidências de que, independentemente das tensões políticas existentes, os principais atores globais continuam reconhecendo a centralidade da China. Sob essa ótica, a cobertura vai além da análise da relação bilateral. Ela se transforma em uma afirmação sobre o papel da China na ordem internacional contemporânea.
O significado geopolítico da cobertura
Talvez a principal contribuição da análise seja mostrar que a cobertura da visita de Trump não tratou apenas dos Estados Unidos. Em muitos sentidos, tratou da própria China. Ao observarmos os temas mais recorrentes, percebemos que a questão central não era simplesmente como Pequim vê Washington. O que emerge é uma narrativa sobre como a China deseja ser percebida pelo mundo.
A insistência em conceitos como estabilidade, pragmatismo, interdependência econômica, governança tecnológica e cooperação seletiva revela uma tentativa de apresentar a China como uma potência capaz de combinar desenvolvimento, soberania e responsabilidade internacional.
Nesse sentido, a cobertura analisada dialoga diretamente com debates mais amplos sobre a transição da ordem internacional. Em vez de defender uma visão baseada na hegemonia de uma única potência, a narrativa sugere um mundo caracterizado pela coexistência de centros de poder distintos e pela necessidade de mecanismos permanentes de coordenação.
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A própria interpretação da visita de Trump reforça essa ideia. O fato de um presidente estadunidense buscar diálogo com Pequim foi frequentemente apresentado como evidência de uma realidade geopolítica incontornável: a China tornou-se um ator indispensável para a gestão dos principais desafios globais.
Por essa razão, a conclusão mais importante da pesquisa talvez não esteja relacionada ao futuro imediato das relações sino-americanas, mas ao modo como a mídia chinesa compreende a ordem internacional em transformação. O objetivo não parece ser construir uma narrativa de amizade entre China e Estados Unidos, tampouco uma narrativa de confronto inevitável. O que emerge é uma visão baseada na coexistência competitiva, na interdependência econômica e na gestão permanente das tensões entre grandes potências.
A principal conclusão do corpus é, portanto, clara. A mídia chinesa não interpretou a visita de Donald Trump como o fim da rivalidade sino-americana. Interpretou-a como uma tentativa de administrar essa rivalidade de maneira mais previsível e menos perigosa.
A imagem resultante é a de uma relação simultaneamente competitiva e cooperativa. China e Estados Unidos são rivais estratégicos, parceiros econômicos, competidores tecnológicos e interlocutores indispensáveis. Não confiam plenamente um no outro, mas tampouco podem ignorar-se.
Em um mundo cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências, essa talvez seja a leitura mais realista disponível. A rivalidade entre China e Estados Unidos parece destinada a continuar. A questão fundamental, segundo a narrativa predominante na mídia chinesa, é se ambos os países serão capazes de administrá-la de maneira responsável. A visita de Donald Trump foi apresentada justamente como um passo nessa direção: não a construção de uma nova amizade, mas a busca por mecanismos capazes de evitar que a competição entre as duas maiores potências do século XXI se transforme em desordem internacional.
Emanuel Leite Junior é pesquisador associado da Faculdade Internacional de Futebol da Universidade Tongji, em Xangai (China) e doutor em Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve pesquisas sobre economia política do esporte e do futebol, políticas públicas do esporte, geopolítica, relações internacionais, cooperação Sul-Sul e China contemporânea.
Lyu Dongye é professor na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (Guangzhou), na China, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Complutense de Madri (Espanha), pesquisador da Universidade Complutense de Madri e do Centro de Investigação DigiMedia da Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve pesquisas na área de estudos da comunicação, com especial interesse pela comunicação no contexto esportivo.
*Este é um artigo de opinião. As ideias expressas pelos autores não necessariamente refletem a linha editorial da Fundação Maurício Grabois.