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As melhores devoções

Correia da Fonseca Publicado em 01.09.2011

Na visita papal a Espanha houve, em vários aspectos, um confronto entre as “duas Espanhas” de que falava António Machado: neste caso, entre a Espanha católica e por vezes ultracatólica e a Espanha laica. O laicismo militante e corajoso de milhares de jovens espanhóis - elemento integrante de um projecto de sociedade que à liberdade de pensamento acrescente a justiça social e a recusa das seculares opressões que têm pesado tragicamente sobre o povo espanhol - tem pago ao longo do tempo a sua determinação com um invisível mas verdadeiro rio de sangue, como sucedeu na guerra civil de 1936/39. A seu propósito, que me lembre, nenhum Papa ainda pediu desculpa ao povo espanhol.

1. Haverá talvez quem entenda que temas com maior ou menor proximidade ao fenómeno religioso estão a surgir nestas colunas com desusada frequência. Será ou não assim, mas de qualquer modo convém lembrar que não é o telespectador, quer ele o seja por total voluntariado quer por dever de ofício, quem escolhe os assuntos mais relevantes que vão surgindo nos televisores e que poderão impor a necessidade de um comentário. É o caso das abundantes e decerto justificadas reportagens sobre a viagem a Madrid de Bento XVI, tanto mais que, como se sabe, na capital espanhola não apenas esteve o Papa mas também um milhão e tal de jovens vindos de vários lugares do planeta e ainda uns milhares de jovens, sobretudo espanhóis mas não só, que em Madrid estiveram não para aplaudir o visitante mas sim, pelo contrário, para manifestar o seu desagrado pela sua vinda. Ao que parece, as suas razões tiveram principalmente a ver com o custo quase fabuloso da visita, coisa para uns oitenta milhões de euros se de facto ouvi bem. É certo que depressa veio uma explicação: essa verba não terá sido suportada pelo estado espanhol, isto é, pelo bolso dos contribuintes, como por cá logo se diria, nas sim pela generosidade de diversos mecenas, entre os quais se terão destacado, a julgar pelo que se ouviu, empresas espanholas e estrangeiras tocadas por uma simpática consciência da grandeza do acontecimento. Ainda assim, é claro, restava uma outra objecção: a de que, generosidade por generosidade, mais valera que aquele valor tivesse sido aplicado na redução das inevitáveis carências, talvez misérias, existentes num país com uma taxa de desemprego da ordem dos 25%. Mas sempre será possível explicar que o Céu saberá valer a quem tenha resvalado para essa situação, além de que, de qualquer modo, depois desta efémera passagem terrena lá estará uma outra vida, compensadora e sem necessidade de subsídios de desemprego.

2. Convém explicar, porém, que quanto às razões dos tais milhares de jovens contestantes as reportagens não foram muito esclarecedoras, bem pelo contrário: o que nós, telespectadores, mais pudemos saber deles não foram os seus argumentos mas sim, mais sumariamente, que muitos deles foram severamente vergastados e espancados pela polícia, aliás segundo um critério tão democrático que não fez distinções de sexos ou de compleição física. Foi assim de tal modo que, sempre segundo a TV, as autoridades abriram um inquérito para averiguar o modo como foi assegurada a tranquilidade espiritual e física dos apoiantes do Papa. Para lá disto, porém, é preciso não negligenciar uma realidade que as reportagens não terão tido a ideia de referir: é que os jovens que se atreveram a dizer «não!» à visita papal vieram evidenciar que na Espanha católica e por vezes ultracatólica (até para além dos limites do crime, como aconteceu em 36/39 e mesmo depois desses anos), continua a existir um pensamento laico que se obstina em defender publicamente as suas convicções e tem a coragem de enfrentar eventuais brutalidades repressoras. É, no mínimo, uma posição cívica que merece respeito e tem o direito de se afirmar publicamente. Durante a Guerra Civil Espanhola, correu na boca do povo um breve poema, atribuído (creio com incerto fundamento) a Federico Garcia Lorca e posteriormente traduzido para português por Eugénio de Andrade, que lembrava que «as melhores devoções/ são os grandes pensamentos». O laicismo militante e corajoso de milhares de jovens espanhóis, enquanto elemento integrante de um projecto de sociedade que à liberdade de pensamento acrescente a justiça social e a recusa das seculares opressões que têm pesado tragicamente sobre o povo espanhol, é também ele um «grande pensamento», como Lorca terá escrito ou não. Ao longo do tempo, a sua persistência foi paga por um invisível mas verdadeiro rio de sangue a propósito do qual, que me lembre, nenhum Papa ainda pediu desculpa ao povo espanhol apesar de vivermos um tempo em que o Vaticano se vem mostrando generoso em pedidos de desculpa. Trata-se, contudo, de uma questão de respeito por uma verdadeira devoção. Pois nem todas as devoções exigem altares e joelhos em terra. Nem visitas papais.

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Fonte: ODiario.info