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Líbia: a cruzada

Correia da Fonseca Publicado em 22.06.2011

Um dia destes, a televisão informou de quanto tempo tem já o ataque da civilizada coligação euroamericana à Líbia do bárbaro Kadhafi: são já vários meses, que o tempo passa num instante, e nem Kadhafi morre nem a democracia almoça.

É exasperante. Intensificam-se os ataques aéreos das aviações francesa, britânica e norte-americana, registam-se os habituais e inevitáveis danos colaterais, isto é, morre muita gente que não tinha nada a ver com supostos sonhos democráticos ou com a cobiça que o petróleo suscita, e não parece vislumbrar-se na linha do horizonte o dia em que o pesadelo termine. Entretanto vão chegando informações prestadas por fontes a que aparentemente as grandes estações de TV não têm acesso.

Por exemplo: a de que os espontâneos e ingénuos insurrectos são comandados no todo ou em parte por militares líbios que falam desembaraçadamente inglês com sotaque norte-americano, um deles sendo um tal coronel Haftar que terá vivido uns vinte anos na Virgínia, USA. Quanto ao material de guerra de que os revoltosos se vêm servindo também a imprecisão se vai esclarecendo: não, não tem sido Alá que o vai fornecendo através do Facebook, tem sido desembarcado na Líbia por navios obviamente democráticos.

Entretanto, o palácio residencial de Kadhafi está reduzido a escombros, como aliás a televisão nos tem mostrado, morrem familiares do ditador, mas a sua luta continua, como se diria por cá. Não se sabe até quando, é claro, mas sabe-se lindamente que quem paga a factura, como agora tão comercialmente se usa dizer, é o povo líbio. E, complementarmente, adivinha-se quem já vai lambendo os lábios gulosos perante a antevisão de controlar um dos maiores produtores de petróleo do continente africano conjuntamente com a Nigéria e Angola.

No lugar do orgulho

Para melhor entendimento destas trágicas coisas, convém conhecer certos dados que a TV infelizmente esquece, decerto por estar preocupada em não sobrecarregar o nosso entendimento com informações irrelevantes para o essencial que é, como se sabe, a defesa do Ocidente e dos seus Valores grafados com maiúscula inicial, sobretudo os cotados em bolsa. Um desses factos é o de que a Líbia vinha sendo um importante fornecedor de petróleo à China e que cerca de trinta mil chineses trabalhavam ali até ao ataque aliado, estando a ser evacuados desde então, de regresso ao país de origem.

A questão é que a expansão industrial chinesa é uma ávida devoradora de petróleo, sendo a África porventura a sua mais significativa fonte de abastecimento, e o conhecimento desse factor permite situar a agressão à Líbia no quadro do confronto entre os Estados Unidos e a cada vez mais ameaçadora China. Quanto ao protagonismo que países europeus como a França e a Grã-Bretanha têm vindo a ter neste combate, não será absurdo lembrar que em todos os bandos de assaltantes e predadores há os chefes e há os subalternos que não se dispensam de cobrar os seus interesses quer sejam ou não os principais executantes.

Aliás, não esqueçamos que o nosso País está também neste caso, ainda que de um modo distante e discreto, dir-se-ia que até um pouco envergonhado, associado à tarefa de democratizar a Líbia pela força de bombas e, se possível, pelo assassínio político do antipático Kadhafi. Nada disto a TV nos ensina ou nos lembra, mas não lho podemos levar a mal porque, como bem se compreende, ela não nos pode ensinar tudo, além de que são sabidos os inconvenientes de saber de mais, muita gente tem morrido disso ao longo dos tempos.

De qualquer modo, e dando-nos ela, como aliás a generalidade dos media, as razões decerto sólidas e sobretudo democráticas que justificam esta Grande Cruzada contra Kadhafi, pergunto-me por que me sinto embaraçado, como europeu e ocidental que sou, perante tão justificada empresa. Olho o mapa, contemplo a Europa, essa a quem um dia alguém chamou «essa Grécia ampliada« pensando no património cultural nela ao longo de séculos acumulado, e no lugar do orgulho que dantes sentia encontro vergonha e repugnância. Resta-me juntar-me aos que, entendendo o que se passa, recusam a associação à pilhagem. Resta-me não me cumpliciar pelo silêncio, neste como noutros casos. Não é muito. Mas é uma contribuição que não é apenas minha, que felizmente se multiplica por milhões. E por aí se transfigura numa outra razão de orgulho.

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Fonte: jornal Avante!