Artigos

Síria: A força da opinião pública e da ação de massas é determinante

Albano Nunes - Avante! Publicado em 19.09.2013

A correlação de forças no plano internacional é ainda desfavorável às forças da paz e do progresso social, mas nem por isso deixa de ser possível impor ao imperialismo importantes recuos e derrotas. É o que acaba de acontecer na Síria, apesar das interrogações que subsistem.

Mas os EUA não abandonaram o propósito de abater a resistência do regime e do povo sírios, e a ameaça de agressão militar directa não está de modo algum afastada. Para atar as mãos do imperialismo e impedir entendimentos perversos é fundamental que a opinião pública continue mobilizada.

É certo que a par da opinião pública outros factores importantíssimos concorreram para dificultar e desfeitear os planos de Barack Obama. A coerência do governo de Bashar al-Assad e os êxitos do exército sírio no terreno. O apoio da Rússia ao povo sírio (nada de confusões com o internacionalismo da URSS) e da China.

O isolamento dos EUA junto dos próprios aliados, onde grassam contradições que a crise capitalista tende a exacerbar, sem esquecer a posição do Vaticano. A falta de credibilidade e apoio dos chamados «rebeldes», amontoado de mercenários e terroristas organizados e armados pelos EUA, UE e monarquias feudais do Golfo. Mas a força da opinião pública e da acção de massas é determinante. E como na guerra a verdade é a primeira a morrer, soterrada por poderosas campanhas mediáticas, é preciso não esquecer – sejam quais forem as voltas e reviravoltas do processo visando desarmar, diabolizar e derrubar o regime sírio – algumas verdades elementares.

1.ª – O objectivo do imperialismo é o controle da região, das suas riquezas em petróleo e gás natural e respectivas vias de transporte.

2.ª – Para isso é necessário desestabilizar e recolonizar os países que façam frente ao imperialismo. A Turquia, que dominou a Síria durante séculos, alimenta projectos expansionistas e está na primeira linha da agressão . E a vergonhosa aliança do governo de Hollande com os EUA não é separável do facto de a França, que tomou o lugar do Império Otomano depois da Primeira Guerra Mundial, ter acabado derrotada por poderosos levantamentos populares que, em 1946, fizeram da Síria o primeiro país árabe independente.

3.ª – De Israel e da sua criminosa política sionista pouco se tem falado. Trata-se, porém, da ponta de lança do imperialismo no Médio Oriente. Israel é um país armado até aos dentes, o único da região que detém a arma atómica e ameaça utilizá-la, não ractificou a Convenção sobre armas químicas, ameaça permanentemente o Líbano, a Síria e o Irão, ocupa ilegalmente a terra da Palestina e inferniza diáriamente a vida do povo palestiniano.

4.ª – Quem ameaça quem? A principal ameaça vem de Israel e dos lacaios do imperialismo como a Arábia Saudita (cujos massacres no Barhein e no Iémen continuam silenciados) e o Qatar. No que respeita à Síria, não deve esquecer-se que uma parte do seu território, os montes Golã, estão há longos anos sob ocupação de Israel e que bombas israelitas foram lançadas por várias vezes sobre alvos em território sírio, como ainda há pouco sucedeu ao aeroporto de Damasco.

5.ª – O «combate ao terrorismo» é cortina de fumo cada vez mais esfarrapada. Na Síria, o imperialismo está a trabalhar abertamente com «jihadistas» e bandos ligados à Al-Qaeda, o que só pode surpreender quem tenha esquecido que este foi um monstro criado pela CIA para as operações anticomunistas dos EUA.

6.ª – A estratégia de tensão e de guerra é indispensável ao complexo militar-industrial e ao comércio de armamento, esse terrível tumor maligno gerado pelo próprio desenvolvimento do capitalismo.

Obrigação constitucional e histórica

A agressão militar dos EUA à Síria parece de momento afastada, mas do que se trata é de eliminá-la. O que se impõe não é o desarmamento unilateral da Síria, como o imperialismo pretende, ou ambíguas resoluções do Conselho de Segurança que desrespeitem a própria Carta da ONU, mas medidas globais de desarmamento, transformando a região em zona livre de armas nucleares, desmantelando as bases militares com que os EUA e a NATO enchamearam todo o Mediterrâneo Oriental, Médio Oriente e Ásia Central, e sobretudo – porque é essa a causa central do movimento de libertação dos povos árabes – reconhecendo na prática o direito do povo palestiniano ao seu próprio Estado independente e soberano em território da Palestina com a retirada de Israel dos territórios que ilegalmente ocupa desde 1967.

Portugal está obrigado a demarcar-se claramente das ameaças do imperialismo e a dar uma contribuição positiva à solução política do conflito e ao desarmamento. A tanto obriga a Constituição. A tanto obriga a vontade do povo português cujos interesses e aspirações coincidem com os do povo sírio, a que nos ligam laços históricos muito fortes.