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A democracia do futebol

Deonísio da Silva Publicado em 31.01.2012

A onipresença do futebol, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro, dá o que pensar, mas poucos se demoram a refletir sobre o assunto. Os escritores brasileiros não parecem apreciar o tema. E às vezes nem o futebol, ainda que não cheguem ao destempero de Graciliano Ramos, que profetizou, em 1921, vida efêmera para o esporte bretão que aqui chegara em fins do século anterior. Acompanharam esse desapreço Lima Barreto e Oswald de Andrade, mas José Lins do Rego e Nelson Rodrigues ficaram no outro extremo, o da paixão compreensivelmente exagerada de torcedores.

"Futebol" (1935), de Cândido Portinari, feito com tinta a óleo sobre tela de tecido

Rubem Fonseca em “Abril no Rio em 1970”, um dos contos de Feliz Ano Novo, fez bela incursão pelo tema, mas a ele não voltou em outras narrativas. O caso de Nelson Rodrigues é tambémsui generis. Sua obra referencial é a de dramaturgo e nela não entrou o futebol, presente em tantas de suas crônicas, exalando memoráveis expressões como “o futebol é a pátria de calção e chuteiras”. José Lins do Rego era torcedor do Flamengo, Nelson Rodrigues torcia pelo Fluminense e Rubem Fonseca torce pelo Vasco.

O professor e escritor Umberto Eco, atualmente celebrando seus provectos 80 anos, publicou em 1990 um texto antológico sobre futebol: “Como não falar de futebol”. Ele imagina, num exercício delicioso, o que responderia o interlocutor que, supondo que todos devam saber o que se passa no mundo do futebol e quer saber sobre o assunto a opinião de alguém que acabou de conhecer, ouvisse em resposta outra pergunta: o que ele achou de determinado trecho de ópera, de música ou de algum livro.

Se o jogador tem méritos...

Profetizar é o mais triste dos ofícios. Graciliano Ramos errou feio porque quando escreveu seu texto famoso, o rádio ainda não estreara no Brasil e o remo era o esporte referencial, ainda hoje presente na denominação de muitos clubes na palavra “regatas” ou com âncoras e remos estampados nos respectivos uniformes. Depois do rádio veio a televisão e foram esses dois meios que tornaram o futebol hegemônico no Brasil e no mundo. Entretanto, a quantas anda nossa mídia com as seções de futebol?

O tema da negritude é delicado e isso explica em parte a sua ausência nas pautas. A hegemonia do negro nos campos teve em Pelé o seu emblema secular, mas ainda são poucos os negros bandeirinhas, juízes, dirigentes. A predominância de jogadores negros não espelha a mesma participação nas profissões surgidas em torno do futebol, como narradores e comentaristas. Os negros ainda não refletem em outros setores o amplo domínio que têm nos campos de futebol. (Não apenas no futebol. Em 11 juízes do STF, apenas um é negro, Joaquim Barbosa.)

Seria interessante que a mídia especializada em futebol dedicasse mais espaço aos domínios conexos, pois o tema invadiu de tal modo tudo que hoje é frequente um economista usar conhecidas metáforas como pisar na bola, fazer o meio de campo, bola nas costas, chutar, jogada etc.

Precisamos de novas pautas para o futebol na mídia. E que a sociedade se mire na democracia do futebol, onde, se o jogador tem méritos, não importa a cor.

* Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela USP, professor e vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro

Fonte: Observatório da Imprensa