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Cem anos de bombas contra a Líbia

Mark Almond Publicado em 13.04.2011

As celebrações dos 150 anos da unificação da Itália, em março de 2011, foram obscurecidas pela crise na Líbia. Coincidindo com o aniversário da Itália, o governo de Sílvio Berlusconi decidiu oferecer sete bases aéreas aos aliados da OTAN para bombardear a Líbia.

Outra coincidência, há cem anos os italianos inventaram o bombardeio aéreo e iniciaram essa prática, precisamente, contra a Líbia. Passam-se 100 anos, e os bombardeios voltam à cena do próprio sangrento nascimento. Clio, a musa da história, parece viver algum gozo perverso. fazendo a história repetir-se ali, primeiro como imperialismo, depois como intervenção humanitária, sem nem precisar trocar de cenário.

Dia 1/11/1911, o tenente Giulio Gavotti pela primeira vez na história lançou uma bomba de um aeroplano. Segundo as autoridades otomanas, a bomba explodiu sobre o hospital militar em Ayn Zara no deserto líbio. Os italianos negaram ter mirado instalação protegida pela Convenção de Genebra. A moderna guerra aérea e a batalha da propaganda que sempre a acompanharia daí em diante nasceram assim.

As quatro bombas do tenente Gavotti não passavam de granadas de mão modificadas, mas em pouco tempo os italianos aprenderam a lançar bombas incendiárias e bombas que ao explodir lançam estilhaços mortais – que hoje se chamam “cluster munitions”, em inglês.

O impacto inicial do bombardeio aéreo foi assustador e desorientou as forças atacadas. O pânico se espalhava, ao simples som de avião que se aproximasse. Mas em pouco tempo os turcos e árabes em terra aprenderam as limitações de ataques aéreos, e o terror diminuiu. Os italianos decidiram que era preciso aumentar o efeito terrorífero de suas bombas, para impedir que o inimigo se reorganizasse. Os pilotos italianos também logo aprenderam que alvos fixos, como vilas ou oásis eram mais fáceis de localizar e atacar, que guerrilheiros de alta mobilidade.

O arabista britânico G.F. Abbott que estava com as forças conjuntas turco-árabes na resistência à invasão, observou que os atacados rapidamente se recobraram do susto e do medo, em parte porque bombas que caíssem na areia muito frequentemente explodiam sem causar qualquer dano. Mas anotou que “mulheres e crianças nas vilas são praticamente as únicas vítimas, o que fez aumentar a fúria dos árabes”.

Antagonizar a população civil foi um infortunado efeito colateral dos bombardeios que se tornou fator decisivo no processo de converter a invasão italiana em muito longa guerra de contraguerrilha, que hoje se chama “counter-insurgency”, em inglês.

Quando a ideia de ocupar a Líbia como presente de 50º aniversário para eles mesmos foi posta em prática, em setembro de 1911, os italianos estavam certos de que chegariam rapidamente à vitória. Haviam sido informados de que o regime turco era odiado pelos árabes que ali viviam, e que podiam contar com recepção calorosa aos soldados que traziam civilização e libertação contra a tirania do sultão. Em jargão contemporâneo, os italianos foram encorajados a esperar “uma moleza”. A imprensa garantia aos soldados que “a hostilidade dos árabes não passa de invenção dos turcos”.

O fato de Gavotti ter jogado as primeiras bombas aéreas da história apenas um mês depois de iniciada a campanha foi prova de o quão rapidamente os italianos perceberam que as coisas não estavam saindo como previstas. A resistência nas principais cidades, como Trípoli, foi rapidamente esmagada, mas em grandes porções de território nem os 100 mil soldados lá distribuídos pela Itália eram suficientes para controlar país muito extenso, boa parte do qual já invadido pelo Sahara. O recém-inventado avião bombardeiro provia meios para distribuir o poder italiano por vastas porções de terra que, de fato, eram controladas por árabes locais que preferiam os turcos muçulmanos aos italianos cristãos – pelo menos no que tivesse a ver com distribuir civilização mediante bombas de fragmentação lançadas de aviões que voavam baixo.

A muito comentada crueldade dos árabes e turcos locais contra soldados italianos capturados foi uma das justificativas para insistir no uso de bombas, na Líbia. Em luta contra gente bárbara, não civilizada, as regras da guerra podiam ser suspensas. Mas a Líbia mostrou-se muito mais difícil de assustar para submeter, do que Roma previra.

Mesmo assim, dia 9/11/1911, o governo italiano declarou vitória, embora a guerra só estivesse começando. Com a missão ainda não cumprida, a guerra custou muito mais do que os italianos esperavam pagar. Não surpreendentemente, o primeiro-ministro italiano, Giovanni Giolitti, mentiu ao parlamento em Roma: disse que a guerra custara 512 milhões de liras. Era muito dinheiro, se se considera que o orçamento do ministério da guerra no último ano de paz fora de apenas 399 milhões de liras. A verdade é que nesse relatório já estava ocultado quase um bilhão de liras, que foi o déficit gerado na guerra contra o Império Otomano pela Líbia. Em termos de custo humano, 8 mil italianos foram mortos ou feridos. E ninguém contou os árabes mortos.

Embora a elite italiana visasse a objetivos econômicos na ocupação da Líbia, que foram embalados em retórica nacionalista e civilizacional, o petróleo não foi o motivo real dos italianos. Só no fim do período fascista houve alguma exploração mais consistente, que indicou que havia petróleo no subsolo líbio. O principal poço de petróleo foi encontrado nos arredores da cidade natal de Gaddafi, Sirte, em 1959. Ao final de 30 anos de poder italiano na Líbia, o principal item de exportação do país não era o petróleo, mas o sal. Os italianos estavam convencidos de que a Líbia voltaria a ser o celeiro do Mediterrâneo, que fora sob o Império Romano. Poucos, em 1911, parecem ter percebido que, já há muito tempo, os campos plantados e as cidades romanas na Líbia haviam sido tomados pelo deserto.

Com o tempo, o entusiasmo pela guerra começou a fenecer na Itália, mas os jornais e a literatura de ocasião registram o quanto toda a imprensa e os formadores de opinião eram unanimemente a favor da guerra desde os primeiros tiros. Particularmente louvados eram os pilotos, os homens da morte que desce dos céus. Nasceu ali o culto ao piloto capaz de atingir, dos céus, com precisão cirúrgica, um inimigo animalesco que rasteja pelo chão.

O mais importante poeta italiano vivo, Gabriele D'Annunzio, imediatamente imortalizou o feito do tenente Gavotti em sua Canzone della Diana. (Poucos anos adiante, na 1ª Guerra Mundial, D'Annunzio sobrevoaria Viena, distribuindo panfletos que anunciavam as bombas que logo chegariam.) Giovanni Pascole sentimentalizou os feitos dos pilotos italianos, quando a guerra da Líbia festejou seu primeiro Natal, em La Notte di Natale. E o futurista Filippo Marinetti, embarcou ele mesmo num avião e sobrevoou a Líbia, para estimular os soldados italianos a armar as baionetas e atacar.

No começo, parecia que todo mundo apoiava a invasão. O grande filósofo e depois antifascista Benedetto Croce declarou – ao que parece sem qualquer ironia – que ocupar a Líbia era presente muito merecido que a Itália se dava no 50º aniversário da unificação. Laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 1907, E.T. Moneta, seria o primeiro – mas não, de modo algum, o último beneficiado com prodigalidade pela fortuna do dinamite –, antes de Barak Obama, a manifestar fé inabalável no bombardeio aéreo como ferramenta de progresso para a humanidade e, por isso, a declarar que bombas aéreas não ferem princípios pacifistas. A hierarquia da igreja católica havia hostilizado a elite política italiana secular (para não dizer maçônica), mas endossou a cruzada de Giolitti na Líbia, com muito mais entusiasmo que os antecessores haviam apoiado a versão original 800 anos antes.

A reunião dos poetas e intelectuais da Sociedade Dante Aligheri, dia 20/9/1911, foi encerrada com brados de “Para Trípoli!”

Nem só intelectuais protofascistas como D'Annunzio e Marinetti inebriaram-se com a ideia de um piloto atravessar os céus sobre o deserto, matando selvagens rastejantes em terra. O sueco Janson Sweden descreveu a inebriante sensação de poder ilimitado e a perfeita impunibilidade dos pilotos em ação no céu, contra primitivos rastejantes no solo, cujas defesas antiaéreas em incapazes de evitar ou vingar as mortes: “A terra deserta abaixo dele, o infinito vazio dos céus acima dele, e o piloto, cavaleiro solitário, flutuando entre os dois mundos! O piloto é tomado de uma sensação de poder. Voava pelos espaços infinitos, comprovando a indiscutível superioridade da raça branca. Ao seu alcance, ali, estava a prova, sete bombas de alto poder explosivo. O poder para lançá-las dos céus, eis a prova convincente e irrefutável.”

Alguns italianos protestaram contra a flagrante agressão à Líbia. Mas coube ao editor do jornal socialista extremista, Benito Mussolini, fazer o mais absoluto e incondicional discurso de rejeição da guerra. E foi preso depois de dizer, da bandeira nacional italiana, “esse trapo que tremula sobre uma masmorra”, em discurso contra a guerra em Forli.
É muito claro contraste com a atitude que Mussolini teria depois, já ex-marxista no poder e Duce do Fascismo depois de 1922. O aeroplano e o poder destrutivo que podia gerar projetar excitou Mussolini o Fascista, tanto quanto horrorizara Mussolini o Marxista. Declarou que o avião foi “o primeiro fascista”. E tornou-se bombardeador obcecado.

Foram passos simultâneos: Mussolini rejeitou o marxismo e abraçou o frenesi da guerra ultramoderna. Quase imediatamente ao assumir o poder, Mussolini foi levado a voar em avião pilotado pelo ás da guerra aérea, Mario Stoppiani, que testemunhou o “delírio entusiástico” do Duce durante a experiência. Depois, aprendeu a pilotar (e para grande temor de seu aliado mais pedestre, Hitler, assumiu os controles do avião, em momento em que o assustadiço Fuehrer estava a bordo.) Antes de George W. Bush e Vladimir Putin que outro líder político assumiu publicamente, com as próprias mãos, o manche de aviões?

O avião também foi usado para destruir diretamente os inimigos de Mussolini: chefões da Máfia e líderes tribais líbios eram embarcados em voos sem volta sobre o Mediterrâneo e jogados ao mar, uns já mortos, outros ainda vivos.

Mussolini desenvolveu o uso do poder aéreo para reprimir rebeldes na Líbia e, vez ou outra, para quebrar a resistência, depois de já quase 25 anos de ocupação. Na Etiópia, levou a própria guerra pela civilização a novas profundidades. A Itália fascista anunciou que aboliria a escravidão, mas antes teria de conquistar os nativos. O imperador etíope no exílio, Hailé Selassié, narrou à Liga das Nações como os italianos usavam técnicas de dispersão de fungicidas sobre as plantações, para envenenar pessoas. O regime de Mussolini não discutiu os próprios métodos e não tentou esconder-se por trás de relatórios oficiais segundo os quais “não há registros de baixas na população civil”.

Fascistas Voadores passou a ser a ordem do dia, quando Mussolini tornou-se expansionista, em meados dos anos 1930s. Seu filho mais velho Vittorio e seu enteado, Galeazzo Ciano, fizeram sua parte no papel de pilotos de guerra, bombardeando a Etiópia. Outro filho de Mussolini, Bruno, escreveu descrição lírica da experiência de ver etíopes cujos corpos abriam-se como pétalas, explodidos, sob as bombas do próprio Bruno.

Bertrand Russell viu a evocação de Bruno Mussolini, a louvação do imaculado poder aéreo para destruir minúsculos humanos como corporificação da realidade dos modernos regimes totalitários mas, ainda pior que isso, como objetivação de um mundo futuro controlado do ar. Russell perguntou: “Imagine-se um governo que governe de dentro de um avião. Não é evidente que esse governo vê a oposição de modo absolutamente diferente?” Russell temia que um governo com poder aéreo “exterminaria” qualquer resistência, qualquer oposição ou divergência.

Para Russell, o avião bombardeiro tornava obsoletos os exércitos de soldados nacionais alistados, que Russell previa que logo seriam substituídos por mercenários altamente treinados, para fazer o que os patrões mandassem, e que não se veriam como parte da população: “Agora, com os aviões, voltamos à necessidade de pequenos exércitos de poucos homens, todos altamente treinados. Deve-se esperar portanto que os governos, em todos os países expostos a guerra em maior escala, serão o que mais interesse aos aviadores, o que nada sugere que tenha qualquer conteúdo democrático.”

Mas os fascistas italianos logo descobririam que o poder aéreo é rua de duas mãos. Líbios e etíopes não tinham poder para declarar “zonas aéreas de exclusão” sobre Roma nem podiam bombardear Florença. Mas, depois de 1940, sim, os britânicos e os EUA já podiam. E os esforços pioneiros dos italianos na guerra aérea foram amplamente admirados e imitados.

Fiorello La Guardia foi treinado para pilotar por instrutores italianos depois que os EUA entraram na 1ª. Guerra Mundial em 1917. O pioneiro norte-americano das bombas, Billy Mitchell, reconheceu o papel da Itália como pioneira da guerra aérea e tornou-se empenhado admirador dos fascistas, dos quais disse, em 1927, que seriam “um dos poderes mais construtivos para construir um bom governo que há hoje no mundo”. Mas, como os comandantes voadores de Mussolini, Mitchell também foi ultrapassado pelo avanço rápido das mudanças: como os fascistas voadores, Mitchell também logo concluiu que o transporte aéreo não tinha futuro.

Também na Grã-Bretanha, houve fortes laços entre o fascismo e guerra aérea. Lady Houston, que financiou o Spitfire, embrião do Supermarine, para vencer o Troféu Schneider, também ofereceu 200 mil libras à União Fascista Britânica liderada por Oswald Mosley, também entusiasta da aviação –, de modo que sua contribuição para derrotar o fascismo foi maior que o efeito de apoiar a União Fascista Britânica – aspecto do mito patriótico que foi omitido no filme de Leslie Howard First of the Few (Spitfire, nos EUA, 1942).

Ainda hoje, sobrevive uma estranha, quase erótica ironia: uma das netas de Mosley, a glamurosa modelo Daphne Guinness, mantém laços amorosos com Bernard-Henri Levi, o intelectual francês líder do bombardeio aéreo como via para a liberdade na Líbia: aliança maldita entre a Repubblica Salo e a République Sarkozyste, ou reconciliação de falsa dicotomia?

Mas seja qual for o papel de outros países nos anos pioneiros da guerra aérea ou mesmo do fascismo, cabe à Itália o título de primeira nação a liderar nos dois campos. A Itália pôs aviões de guerra nos céus com extrema rapidez, com um fascista no joy-stick. Giulio Douhet foi o primeiro estrategista do bombardeio aéreo. Apesar de ter apoiado Mussolini, a carreira de Douhet como artista da guerra aérea foi muito dificultada na Itália fascista por rivais com melhores credenciais no partido.

Uma das raras vozes dissidentes em 1911 foi um adolescente de Ferrara que viria a ser o segundo mais famoso fascista depois de Mussolini, pelo menos por suas façanhas aéreas. Italo Balbo, então com 15 anos, rompeu a atmosfera nacionalista e publicou artigo denunciando a invasão do território líbio que, depois de 1933, ele governaria como vice-rei de Mussolini. Mas até lá, Balbo seria o Charles Kindbergh italiano – aviador-pioneiro e celebridade, que voou por quase todo o mundo para demonstrar o compromisso do novo regime fascista com a mais moderna manifestação do poder – o avião.

Mas em 1911, como Mussolini, Balbo era só um sujeito esquisito. Claro que nem todos os futuros fascistas fizeram antes oposição à guerra. Sergio Panunzio, por exemplo, discordou do jovem Balbo que publicara artigo contra o consenso pró-guerra: “Por quê? Para ir contra a corrente, contra a realidade, contra o governo”. Panunzio antecipava aí o argumento fascista clássico, segundo o qual “certo” seria o que fosse declarado “certo” pela imprensa e pelo poder do Estado.

Os italianos deviam orgulhar-se de sua aviação militar pioneira, em nome da civilização. Em 1911, os italianos foram os primeiros em vários feitos aéreos: o primeiro voo noturno, a primeira fotografia aérea, o primeiro bombardeio aéreo – e o primeiro avião abatido a tiros. Há quem insista que, se valerem bombas lançadas de balões, a Itália merece mais um primeiro lugar. Em 1849, os austríacos sitiavam os rebeldes de Veneza e atacaram-nos do céu, com balões carregados de explosivos que deveriam ter voado rumo à Serenissima, mas acabaram voando na direção das próprias tropas austríacas, onde explodiram. É o primeiro episódio conhecido de mortos por “fogo (aéreo) amigo”. O governador da Líbia foi também, pessoalmente, vítima de fogo (aéreo) amigo, quando o trimotor em que viajava foi abatido por sua própria artilharia antiaérea manejada por seus próprios soldados, em Tobruk, dia 28/6/1940. Em 1941, Bruno Mussolini também foi morto, ao testar um novo avião. O avião começava a devorar os fascistas. Foi quando a nação decidiu que aviões seriam perfeitos como arma militar.

Rejeitando qualquer nostalgia romântica dos dias do piloto solitário em duelos aéreos na 1ª Guerra Mundial, Balbo propôs que, nas guerras futuras, se lançassem “centenas e centenas” de aviões nos céus. Ataques aéreos massivos seriam a maneira fascista de conduzir guerras aéreas – mas o regime de Mussolini mostrou-se mais forte na bombástica arte da propaganda de intimidação, do que em investir recursos no que logo se viu que seria programa caríssimo. Não foram os fascistas, portanto, mas as democracias, que construíram e puseram a voar as primeiras brigadas e frotas de bombardeiros aéreos pesados.

Conforme a 2ª Guerra Mundial avançava, o norte da Itália mais sofria sob pesado bombardeio aéreo dos aliados que avançavam – contra os alemães e contra o regime Salo de Mussolini. Deixando de lado o custo humano, as perdas culturais eram terríveis. Prédios como o La Scala em Milão, ou a igreja de Bramante, que abrigava A Última Ceia de Leonardo, num refeitório miraculosamente não destruído, podiam ser reconstruídos; mas os trabalhos artísticos que havia neles, como o afresco de Mantegna da vida de São James na capela Ovetari em Pádua, estavam perdidos para sempre, destruídos por bombas aliadas.

O impacto da 2ª Guerra Mundial fez com que a esquerda italiana passasse a desconfiar de qualquer envolvimento em guerras, muito mais se a guerra exigisse bombardear territórios de ex-colônias. Mas em 1999, outra vez a Itália quebrou o tabu. Liderado por ex-marxistas, o governo italiano aceitou que o território da Itália fosse usado como principal base de lançamento de ataques aéreos contra a Sérvia, em disputa pelo Kosovo, que, por curta temporada, fora parte do inglório novo Império Romano de Mussolini (1941-43). Até hoje há pescadores no Adriático que lembram o terror de ser morto por fogo da OTAN. Mas o que se vê hoje é um governo com participação de “pós-fascistas”, que compete com pós-marxistas para explicar por que outra vez a Itália está em guerra contra a Líbia, exatamente quando acontece o centenário de uma Itália parteira da guerra aérea.

Nesse mórbido aniversário, a cruzada da civilização, de então, está convertida em cruzada dos direitos humanos, hoje. A máquina de guerra dos cruzados contemporâneos talvez seja mais rápida que os bimotores de 1911, e as bombas são muito mais mortíferas, mas a unanimidade entre os políticos e a imprensa em todo o ocidente é um estranho eco da câmara de eco da propaganda inventada pelos fascistas italianos para reforçar, simultaneamente, os homens do poder político e os homens do poder da imprensa, todos a favor da guerra. O pior é não já há, sequer, um Mussolini, que fosse, nem no Parlamento, nem na imprensa, para declarar que não, não: o poder dos aviões de guerra não é força que, algum dia, tenha levado algum progresso ou alguma civilização a alguém!

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FONTES

Há vasta bibliografia de autores italianos sobre a guerra da Líbia em 1911 e a invenção do bombardeio aéreo por italianos. Em inglês, as principais fontes são:

Richard Bosworth, Italy and the Approach of the First World War (Macmillan: London, 1983)

Azar Gat, A History of Military Thought from the Enlightenment to the Cold War (Oxford University Press: Oxford, 2011),

Alan Kramer, Dynamic of Destruction. Culture and Mass Killing in the First World War (Oxford University Press: Oxford, 2007)

Sven Lindqvist, A History of Bombing (translated by Haverty Rugg) (Granta: London, 2001)

Bertrand Russell, Power (introd. Kirk Willis (Unwin, 1938, reprinted by Routledge: London, 1995)

Dan Segre, Italo Balbo: A Fascist Life (University of California Press: Berkeley, 1987)

David Stevenson, Armaments and the Coming of War. Europe, 1904-1914 (Oxford University Press: Oxford, 2000)

John Wright, The Emergence of Libya: Historical Essays (Society for Libyan Studies: London, 2008).

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Fonte: Counterpunch

http://www.counterpunch.org/almond04052011.html

Tradução: Vila Vudu